05 junho 2020

AMIGOS NOVOS E ANTIGOS (na morte de Aldir Blanc)


O meu primeiro contacto com a poesia de Aldir Blanc deu-se em 1978, quando se exibia em Portugal uma telenovela brasileira, nesses dias a coqueluche da programação da TV, chamada O Astro. No fundo musical do enredo ouvia-se, a páginas tantas, uma voz que recitava:

      Em Setembro se Vênus me ajudar
      Virá alguém
      Eu sou de Virgem
      E só de imaginar 
      Me dá vertigem...



E a canção propriamente cantada iniciava-se com a seguinte declaração:


      Minha pedra é ametista
      Minha cor, o amarelo
      Mas sou sincero
      Necessito ir urgente ao dentista
      Tenho alma de artista
      E tremores nas mãos
      Ao meu bem mostrarei
      No coração, um sopro e uma ilusão...


Devido ao sucesso da novela, pouco depois apareceu em Portugal um disco de longa duração, chamados LP, cuja capa anunciava conter a canção 'Bijouterias', da telenovela O Astro. O título desse LP era Tiro de Misericórdia, o cantor chamava-se João Bosco e o autor da letra e de, aliás, todas as outras, chamava-se Aldir Blanc. Comprei, ainda o tenho por aí nessa versão pré-histórica em vinyl.
Acontece, igualmente, que nesses anos 70 eu era estudante de Medicina e abundavam na Faculdade de Medicina do Porto os alunos vindos do Brasil fazer o curso em Portugal por falta de capacidade numérica das universidades de lá. Fiz amizade com vários e um deles era grande amante de música e especificamente de João Bosco, de quem possuía vinys de que eu nunca ouvira falar. Um deles chamava-se Caça à Raposa (1975) e outro, editado em 1976, Galos de Briga. Ponto em comum: todas as canções eram assinadas pela dupla João Bosco (música), Aldir Blanc (letra) e todas, mas mesmo todas, o que é muito raro num conjunto de 11 ou 12 canções, eram excelentes e musicalmente superiores. 
Algo que, desde logo, muito me cativou nessas canções eram os poemas, autênticas joias, repletos de ironia e humor, muitas vezes sarcástico outras vezes negro; as histórias que iam sendo contadas através deles; os retratos de habitantes de favela, malandros, deserdados vários da sorte, gente vulgar. Sim, já por cá andava o Chico Buarque a cantar isso tudo também e com a sofisticação literária que se lhe conhece, mas estes faziam-no em tom mais malandro ainda (se é que era possível e se assim se pode dizer), mais esfusiante, de como alguém que não tem respeito por ninguém. Inclusive, até com um samba do Chico gozavam numa das suas canções ('Samba de Marimbondo')!
Nesses dourados anos dos meus vinte anos fui conhecendo e ouvindo tudo quanto ia saindo de João Bosco. Não que os discos fossem comercializados em Portugal (nunca foi tão famoso por cá como Caetano, Gal, Chico ou Bethânia), mas esse meu amigo brasileiro ia praticamente todos os anos a Cachoeira de Itapemirim, terra natal de Roberto Carlos, visitar a família e, no regresso, trazia as novidades musicais, obrigatoriamente as referentes a João Bosco e Aldir Blanc. E, desse modo, conheci Linha de Passe (1979), Bandalhismo (1980), Essa É a Sua Vida (1981), Comissão de Frente (1982) e, em 1984, Gagabirô, a maravilhosa obra que, embora não o soubesse à altura, marcava o fim da colaboração regular e praticamente exclusiva entre João Bosco e Aldir Blanc. Tinha durado dez anos, bem bom; era uma pena ter terminado, sem dúvida, mas a vida corre assim.
Da esqueda para a direita: João Bosco, Aldir Blanc.
João Bosco, em minha opinião, nunca mais foi o mesmo, nunca se recompôs da ausência de Aldir Blanc, como nunca se recompuseram os The Doors após o desaparecimento de Jim Morrison, ou cada um dos quatro Beatles quando se separaram, ou Art Garfunkel quando ficou sem a inspiração de Paul Simon por perto. Acontece, "O tempo vence toda a ilusão", como escreve Blanc para 'Agnus Sei'.
Na metade que faltava completar da época de 80 e nas décadas seguintes fui comprando os CD de João Bosco que apareciam. Não todos por cá, que continuavam a ser pouco editados, mas em Espanha ou no Japão, país que tem extraordinária veneração pela música brasileira e onde se encontra tudo quanto se queira, de João Gilberto a Cartola, passando por Pixinguinha e João Donato. E fui assistindo aos concertos que João Bosco deu por Portugal, quatro ou cinco vezes entre o Porto e Lisboa. Sempre um músico fora de série, um cantor fora de série, na companhia de instrumentistas fora de série; introduzindo arranjos novos em canções antigas.
Mas composições novas, como as do tempo de Aldir Blanc, nunca mais. E sem aqueles poemas, sem aquela vivacidade, aqueles enredos, o que ficava mais no ouvido do João Bosco órfão de parceiro eram algumas canções de amor romântico, de queixa amorosa total (como 'Desenho de Giz' ou 'Quando o Amor Acontece'), que é sempre mais fácil de conseguir contar do que o resto. Os amores transviados ou difíceis dos tempos de Aldir evaporaram-se e nunca mais se pôs a vista numa "Amiga inseparável, rancores siameses nos unem pelo olhar; infelizes para sempre, em comunhão de males, obrigação de amar" ('Siameses'); ou num "Quando você gritou, mengo, no segundo golo do Zico, tirei sem pensar o cinto e bati até cansar" ('Golo Anulado'); nem jamais a declaração de que "O amor é demais, me fez dobrar os joelhos me faz tirar coelhos da cartola surrada da esperança" ('Falso Brilhante') ou o resignado "Voltei pro lar e, em plena dor de corno, quebrei o video da televisão" ('Bandalhismo').
Deixaram-me eterna saudade as metáforas ou as analogias surpreendentes como a de "Caía a tarde feita um viaduto" ('O Bêbado e a Equilibrista') ou a de "Hoje em dia o nosso romance está mais azul que equimose" ('Parati'), esta última só podendo ser achada por um médico, como o era Aldir Blanc. Empalideceu das letras das canções a beleza inesperada de "A ponta de um torturante Bandaid no calcanhar" ('Dois Para Lá, Dois Para Cá') ou os "Beijos, cometas rolando no céu da boca", de 'Latin Lover'; ou, ainda, a história, a estourar de nostalgia irónica, de um modesto sucesso, narrado por um velho admirador, de Margot no dia em que foi 'coroada Miss Suéter' no concurso do Instituto Nacional de Previdência Social [equivalente das nossas Caixas de Previdência], onde era administrativa:

      Fascínio tenho eu
      Por falsas louras
      Ai, a negra lingerie
      Com sardas
      Sobrancelha feita a lápis
      E perfume da Coty
      Na boca
      Dois pivots tão graciosos
      Entre joias naturais
      E olhos tais minúsculos aquários
      De peixinhos tropicais
      Eu conheço uma assim
      Uma dessas mulheres
      Que um homem não esquece
      Ex-atriz de TV
      Hoje é escriturária do INPS
      E que, dias atrás
      Venceu lá o concurso de
      Miss Suéter...


Foram-se, também, as letras escabrosas e quase gráficas que algumas canções exigiam, como o "Preparando um caldinho para a noiva gargarejar" ('Foi-se o Que Era Doce'), ou "Fazendo anos no sofá-cama" ('Anos de Instituto/Anais'); a perspectiva visual de "Banca a artista, se cruza as pernas é aquela vista, mostra mais que em ida ao ginecologista" ('Tal Mãe, Tal Filha'), ou as imundícies orais de "Perdigoto, cascata [conversa fiada], tosse e escarro" acumuladas em 'Bandalhismo'. 
Mas Aldir Blanc tinha igualmente em si a mágoa da passagem do tempo, "É o tempo, Maria, te comendo feito traça num vestido de noivado" ('Bodas de Prata'), e o peso de todos os mortos acumulados de 'Viena fica na 28 de Setembro'; como não lhe era alheia a consciência de que o ser humano não é sempre transparente ou bem intencionado: "Meu coração tem botequins imundos" (Bandalhismo); "Domingo numa solenidade, uma otoridade me abraçou, bati-lhe a carteira, nem notou, levou meu relógio e eu nem vi, já não há mais lugar para amador" ('Profissionalismo É Isso Aí').
Apesar da irreverência, mas sempre sujeitas a ela, nas suas letras abundavam os episódicos bíblicos transformados, desde o presépio de 'Genesis' ("Quando ele nasceu foi do sufoco, tinha uma vaca, um burro e um louco"), ao Cristo morto de 'Vitral da Sexta Estação':

Ai, Verônica, enxuga esse ai no avental: 
lama, púrpura e cal, graxa, bile, suor
Essa borra em teu pano é um rosto profano 
na via cachorra de um batalhador numa de horror.

Aldir Blanc e João Bosco cantaram de tudo, cantaram até a pátria em vários hinos, épicos, como no grandioso fresco de 'Nação', ou nostálgicos como em: 

        Saindo pro trabalho de manhã
        O avô vestia o sol do quarador
        Tecido em goiabeiras, sabiás
        Cigarras, vira-latas e um amor
        E o amor ia ao portão pra dar adeus
        De pano na cabeça, espanador 
        Os netos, o quintal, Vila Isabel
        Todo o Brasil era sol, quarador...


estes últimos abrindo a canção 'Tempos do Onça e do Fera/Quarador' [quarador é o mesmo que coradouro]; sem esquecer o glosar de temas históricos e de escravatura, como em "Rubras cascatas, jorravam das costas dos santos, entre cantos e chibatas" ('O Mestre Sala dos Mares'), ou a colonização de novos países como em 'Agnus Sei': 

        Faces sob o sol, os olhos na cruz
        Os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã
        Vão levar ao reino dos minaretes
        A paz na ponta dos arietes
        A conversão para os infiéis
        Para trás ficou a marca da cruz
        Na fumaça negra vinda na brisa da manhã...


Cantaram, igualmente, a história actual, a dos anos 70 a que assistiram, sobretudo os momentos políticos importantes, como acontece na imortal canção 'O Bêbado e a Equilibrista', que se transformou num hino nacional informal durante as Directas; cantaram as esperanças sem futuro dos emigrantes internos do Brasil, fosse na sua visão colectiva, como em 'Rancho da Goiabada', ou individual, como no divertido 'Vaso Ruim Não Quebra', ou no lindíssimo 'Essa É a Sua Vida':  

Ser atriz, ser feliz
Ex-favelada conquista Paris
Joias, corbéis, gritos de bis
Um gentil homem, que lembre Aramis
Ter sempre carne, licor de Anis
no Balcão
Serve em pé, pra um funcionário
pra um operário, pra um otário qualquer, o avental azul
os seus sonhos, manchas de café.

Podia estar todo o dia nisto, acreditem, e amanhã também. A dupla, desde que se conheceu em 1970, escreveu mais de 100 canções em conjunto e não consigo nunca decidir-me, sequer, pelas vinte melhores! (tentei fazer uma lista e acabei com 49 listadas, algumas a gemer na minha consciência por terem ficado de fora). 
Nos anos 70, O Pasquim, um jornal literário brasileiro de grande popularidade e humor e responsável pela edição do primeiro single de João Bosco (Agnus Sei/Bala com Bala; 1972), anunciava com frequência nas suas páginas que Aldir Blanc acabara de escrever mais uma letra totalmente impossível de musicar e o desafio, divulgado o poema, era medir o tempo que João Bosco demoraria a musicá-la. Fazia-o sempre, e de que modo brilhante e conseguido, em acrobacias tão descomunais como o que, mais recentemente e no inverso, Chico Buarque alcançaria (Carioca, 2006) ao inserir um poema na música 'Bolero Blues' de Jorge Hélder.
Da minha geração, fui conhecendo, aqui e ali e com grata surpresa e uma sensação de intimidade, outros fãs portugueses de João Bosco; um deles tinha o hábito energético de cantar 'Miss Suéter' a plenos pulmões logo que se levantava e cirandava pela casa. Depois vieram os filhos dessa gente e novos e intensos seguidores apareceram. Um dos grandes e mais antigos amigos do meu filho confessou-me um dia que abraçara a música como profissão ao ouvir, entre outros, João Bosco aqui em casa. E é reconhecível, na música que pratica, a marca de João Bosco, na que compõe o dedo de Aldir Blanc. Feliz surpresa. Como feliz surpresa é agora ver alguns dos filhos desses filhos começar a ouvir João Bosco como se fosse descoberta deles, tipo "pai, tu já ouviste bem isto?"  
Agora dizem que Aldir Blanc, morreu, mas, por mim, sei que vai continuar a espreitar às janelas da minha história. Que posso eu dizer mais, Aldir, que você não tenha dito já?

Vou-me, deixando a letra integral da canção que emprestou título a este texto ('Amigos Novos e Antigos') e onde Aldir escreveu e João musicou uma linda e delicada homenagem a 'Sun King', de Lennon e McCartney: 

          As frases e as manhãs são espontâneas
          Levantam do escuro e ninguém pode evitar
          Eu tento apenas mostrar cantando
          O lado oculto do meu coração.
          Eu tenho às vezes no olhar tardes de chuva
          E sons percorrendo alamedas na memória
          Eu tento apenas mostrar cantando
          O que há nos lagos do meu coração.
          Quando paramucho mi amore defelice corazon
          Mundo paparazzi mi amore chicka ferdy parasol
          Cuesto obrigado tanta mucho que can eat it carousel.
          Alguém entrou no meu peito agora
          Mas só depois vou saber quem é.
Aldir e Mariana Blanc.




Nota: este texto é dedicado a Andreia Azevedo Soares que, gentilmente, me falou da sua amizade com Mariana Blanc, filha de Aldir, nos tempos em que os dias que aqui referi tinham acontecido











© Todas as canções referidas são (excepto se indicado de outro modo) da autoria de João Bosco e Aldir Blanc.

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