09 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 2. Atrás da porta

Primeiro Domingo de Outubro. Dez da manhã. Um jipe percorre em velocidade previdente a estrada nacional. Sentado ao lado do condutor, o delegado de saúde vê, lá em baixo, afastar-se a vila, embruxada nos dourados, nos castanhos e nos vermelhos vivos da folhagem.
“... ela, o marido, e uma filha que ficou para tia. Dantes viviam lá os pais dele, mas já faleceram.”
“Que idade tinha?", inquiriu o médico.
“Andava em cinquenta e dois. Coitada, parece que era uma mulher muito doente...”
“Doente, como?” O delegado retivera a inflexão do comandante da GNR ao pronunciar "doente". O Comandante levou o dedo à careca.
“Nervos. Parece que até terá estado internada num hospital especializado...”
E agarrando-se com entusiasmo ao volante, o condutor embrenhou-se numa narrativa das particularidades dos internamentos da falecida que revelava um conhecimento para-profissional do caso. O delegado de saúde mergulhou na justaposição das peças soltas – a estrada fizera nova curva e, lá longe, os painéis fotovoltaicos que cobriam o telhado do Centro de Saúde desenhavam na paisagem um U rectangular – 51 anos, casada; uma filha solteirona a morar em casa; alguns internamentos psiquiátricos. Domingo, sete e meia da manhã: o marido e a filha saem para a missa (ela ficara, andava um pouco arredada dos padres e da religião). Pega numa espingarda-caçadeira, encaixa-a no peito e - traz! - mata-se.
A casa era à borda da estrada, uma varanda de tábuas corridas sob um alpendre pejada de vultos negros; uns debruçados no varandim, outros crocitando em ajuntamentos. Quando a porta do jipe bateu, murmúrios anunciaram que a lei dos homens chegara para tirar as medidas à morte.
O médico atravessou o ajuntamento distribuindo acenos de saudação e foi recolhendo os bons-dias, apáticos, lamuriosos ou desconfiados, que lhe eram dirigidos. Mais gente no vestíbulo, estes sentados; sem parar pelo corredor até ao quarto ao fundo, à esquerda, de porta fechada.
Uma figura atarracada e vermelhusca, a quem o preto ainda ficava mal, destacou-se da massa de sombras do corredor.
“Por aqui...”
A morta estava estendida, de costas, na cama de casal, tapada com um lençol ensopado de vermelho na região do peito. 
“Foi ali”, o viúvo apontou o canto atrás da porta, “mas trouxemo-la para aqui, pensámos que talvez não houvesse mal... Estar para ali, assim.…” E choramingou.
No canto, escondida pela porta a quem entrava, a parede, de si amarelada, estava borrada por longos laivos vermelhos de aspecto pegajoso. No rodapé e no soalho adjacente havia uma poça de sangue onde se enlameava o cano duplo de uma espingarda e duas chinelas, de flanela axadrezada, imitavam barcos ancorados num poente.
O comandante da GNR acocorou-se com audácia e pescou a caçadeira cuidadosamente. Examinou-a com lentidão, desarticulou-a, inalou-a, piscou um olho aos canos.
“Só foi disparado um cartucho, Sr. Dr. Mas foi municiada com dois.”
O médico destapou o cadáver: uma face inexpressiva de há muitos anos (a morte era mais recente, com toda a certeza), uma madeixa grisalha sobre a testa e uma cratera no meio do peito, um buraco onde cabia um punho e para onde eram sugados os bordos esfarrapados de uma bata às risquinhas verticais, abotoada à frente. A explosão fora tão violenta que destruíra a crença ingénua de que para o coração é preciso mirar à esquerda.
Na vizinhança da janela empoeirada, beneficiando dos raios de sol da manhã, o Comandante e o viúvo reconstituíam o suicídio. O delegado de saúde, cansado de procurar indícios no lodo sangrento, juntou-se-lhes.
“Soube que esteve internada; o que é que tinha?”
“Nervos, senhor doutor. Deu de entristecer, entristecer... Dias seguidos sem dizer água-vai, a mim ou à filha... Até que os médicos acharam melhor que ficasse lá.”
O comandante da GNR interrompeu para citar o viúvo e dizer que "segundo aqui o cônjuge, parece haver uma certa ligação entre o começo da doença e a partida dos incómodos”. O viúvo confirmava, silencioso.
“Segundo aqui o cônjuge”, continuou o comandante, “ela já ameaçara fazer isto (apontou o corpo) em repetidas circunstâncias. Até que, desta vez, fê-lo mesmo.... É formidável!”
Os três vultos mantinham-se encostados à janela. Deve ter, mais ou menos, a idade da Micéu. O delegado de saúde – distraído a observar a criança que, agachada no exterior, o rego do sexo ao léu e roçando o solo encardido, espiava uma galinha a debicar – explicava que, provavelmente, o gatilho fora premido com um dedo do pé e lamentava que o viúvo não recordasse se ela já teria as chinelas calçadas quando saíra para a missa. O outro desculpava-se:
“Olhe que não reparei; se eu soubesse..., se soubesse tinha reparado.”
Quando, no regresso, voltaram pela sala havia duas velas acesas no tampo de uma masseira e uma velha adornava, adormecida, numa cadeira. O viúvo reteve um momento o médico para, às escondidas, lhe perguntar para quando é que poderia combinar o funeral com o padre.
“Isso não depende de nós, amigo”, respondeu o delegado de saúde englobando a autoridade policial, “temos que aguardar a decisão do tribunal.”
“Mas o Sr. Dr. acha que vai ter de haver autópsia?”
“Quem me dera saber... Mas não posso adiantar nada. Quando chegarmos lá em baixo vamos tentar contactar outra vez o magistrado do tribunal. Está tudo nas mãos dele... Só depois é que podemos avançar nós.”
Passava das treze quando o jipe cruzou o pequeno painel de azulejo que dava as boas-vindas a quem chegava à vila, momento que o Comandante parecia ter escolhido para perguntar:
“O Dr. Raul quer que o deixe em casa?”
“Estava para aqui a pensar... E se tentássemos ligar ao homem agora? É hora de almoço, pode ser que o apanhemos em casa.”
O Comandante pareceu reanimar com a ideia, propôs que o fizessem a partir do posto da Guarda; depois podiam ir até casa dele petiscar alguma coisa, iam sendo horas e – pelo menos o dele – o bandulho já ronronava...
“Telefonava do Posto à minha esposa, era só pôr mais um talher...”
O médico agradeceu muito, pediu que, em sendo possível, ficasse para outra ocasião.
“Esta noite dormi mal... Para ser franco, ainda estava na cama quando o senhor ligou a anunciar esta prenda... Quer dizer, já não estava a dormir, mas estava para ali, no choco. Vamos telefonar e depois, se não me levar a mal, vou esticar-me um bocado. É que se o homem resolve insistir na autópsia...”
“Oxalá não...”, desejou o Comandante arrepiando-se, “é inequívoco que não há suspeita de crime...”
“Sei lá, comandante Mário, sei lá; com estes gajos novos que eles agora colocam nos tribunais... Ainda por cima de fora, não conhecem a realidade da comarca, tanto lhes faz....”
O Comandante reconheceu o grande constrangimento que era o concelho não possuir tribunal próprio, de tudo ter de se coser pelas regras de Paço de Vilharigues.
“É uma porra!”, resumiu o médico.
Em casa, Raul atirou-se para cima da cama com um suspiro, tendo o cuidado de manter os pés calçados fora dos limites do colchão. Ficou-se a matutar por que raio se teria a outra matado atrás da porta, como se fosse uma menina de castigo ao canto de uma sala de aula, ou tivesse vergonha do que ia fazer.
Afinal, não tinham conseguido apanhar o delegado do Procurador da República, o comandante da GNR voltara a insistir no almoço e, seguidamente, em o levar a casa no jipe.
“São cinco minutos a pé, comandante Mário! E o que vamos fazer, entretanto, com aquela pobre lá em cima? Chateia-me deixá-la ali, em exposição, com a família pendurada e os vizinhos a espreitar, a poder mexer no que deve estar quieto. Não é bom...”
O Comandante concordava, tirara o quépi e massajava a cabeça na zona onde este trilhara a calva. Adiantou:
“O que é que o Dr. Raul acharia de mandarmos lá o carro mortuário e a trazermos para baixo, para o Centro de Saúde? Ficava em local neutro e, se a autópsia não vier a ser dispensada, já está onde é preciso...”
“Não podia estar mais de acordo. O senhor fala com os bombeiros? E pede a alguém que telefone ao viúvo, a avisar?”
Apesar de já estar naquelas terras ia para três anos, o delegado de saúde sentiu no olhar piedoso do comandante, no remexer na cadeira do Cabo, que preenchia um bloco-notas aplicadamente, ter voltado a cometer outra das suas gafes de citadino.
“É que eles não têm telefone lá em cima... Ó Duarte,” invectivou o subalterno, “quem é que, na Reboriça, terá telefone mais perto do local da ocorrência?”
O Cabo pousou a esferográfica com cuidado, entrelaçou as mãos e recostou-se na cadeira, saboreando o momento.
“Ali, mais perto, só se for a venda do Feliciano... Pode não atender, sendo Domingo, mas como mora por cima...”  
Eram seis da tarde quando o telefone o acordou de um sono embrutecido. Correu à sala, àquela hora só podia ser a GNR. As filhas costumavam ligar ao Domingo, mas em cima das nove da noite, rigorosamente antes de irem deitar-se.
“Não consegui apanhar o homem..., dizem-me que terá ido almoçar a Sardanelos, a casa dos sogros. Ora sucede que Sardanelos é para lá de Carrazeda de Ansiães”, confidenciou uma voz desalentada. “Acho que isto vai ter de ficar tudo para amanhã.”
Desligou e ficou-se ao pé do telefone, a olhar o lusco-fusco nos vidros da janela. Já anoitecia mais cedo, não tardava e estavam na porra do Natal! Meteu a fralda da camisa dentro das calças, passou um pente afogado em água pela gaforina e viu-se no espelho do quarto de banho com desgosto. Ao passar pela sala, pescou as chaves do carro, picou uma ameixa seca da tacinha na mesa, e desceu as escadas como se tivesse pressa.  
Fechou a porta da garagem, guardou a chave no bolso e espreitou com cautela à esquina que permitia ver a fachada do edifício. A chusma de gente ainda lá estava; como era possível, depois de ter já explicado tudo quanto havia a explicar! Por duas vezes! Ou iriam ficar ali de guarda toda a noite, como os ciganos? A coberto do crepúsculo, sorrateiro como um gatuno, desceu a tira de relva do talude e saltou o murete que separava o recinto do Centro de Saúde da rua do Papagaio.
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Quando acabou o jantar onde iam as nove horas e lá se fora o telefonema das filhas — ia ficar registado mais um agravo para a próxima vez que a ex-mulher quisesse glosar a tese do ‘pai ausente’. Resolveu voltar ao Centro de Saúde, a ver como ia tudo e se a noite chegaria à manhã sem sobressaltos de maior.
Já não parecia haver movimento à porta da Urgência, mas, por via das cautelas, voltou a usar a porta da garagem. Alguém colocara um tabuleiro de alumínio – grande, quadrangular, daqueles de ir ao forno – repleto de gelo entre a ventoinha e os tornozelos da morta, e uma brisa fresca soprava o cadáver, pregueando o lençol como um ventinho sobre o mar.
Subiu as escadas até ao internamento.
“Então, tudo nos conformes?”, perguntou ao abrir a porta da sala de trabalho onde Odete escrevia sentada ao livro de ocorrências e Alcina dobrava compressas a partir de uma montanha branca de gazes. A enfermeira ergueu um olhar desdenhoso da escrita:
“Tudo calmo, Dr. Raul, quer dizer: agora; que há bocado esteve um bocado animado com essa gentinha toda.”
O médico continuava à porta, sem se atrever a entrar na pequena sala, como se, embora fosse o director de tudo aquilo, lhe estivesse vedado perturbar a pacatez da rotina nocturna. Tossicou, quis saber:
“Foi a senhora enfermeira que pôs o tabuleiro de gelo lá em baixo...? Boa ideia.”
“Fui eu, Dr.”, retificou Alcina levantando a atenção das compressas, “era costume em Angola. Fazia-se isto, por causa do calor.”
“Foi bem lembrado... Amanhã deveremos ter isto resolvido”, desculpou-se pela inquilina da cave, “Bem, vou andando, tenham uma noite descansada. Alcina, espero que não sonhes com ratos...”
“Ai, Dr. Raul, não comece, por favor... Não sabe que sonhar com ratos é mau, traz desgraça?”
“Não sabia”, respondeu o director genuinamente espantado; “e tu acreditas nisso?”
“Acreditar, acreditar, não acredito; mas não deixo de pensar nisso e não é bom...”
“Pois... Bem, até amanhã.”
“Se Deus quiser”, completou a enfermeira.
“Ou isso”, concedeu.
Será que ficavam a falar dele quando virava costas? Apostava que sim, talvez sobre miudezas como o ar desmazelado, as camisas amarrotadas; o andar às compras no supermercado local, faltar-lhe uma mulher na vida, essas porras. Ainda por cima, Odete era vizinha, morava na porta em frente à sua, estava habilitada a relatar a qualidade dos silêncios que trespassavam as paredes dos apartamentos.
A 4L esperava, silente como um cavalo fiel, no estacionamento deserto. O volante estava frio, arrefecera com a noite; apesar dos dias ainda quentes, o Inverno fazia-se anunciar por pequenos sinais.
Era engraçado como, um milheiro de dias depois, ainda se lembrava, como de uma fotografia, do momento em que primeiro pusera os olhos em Alcina. Acontecera precisamente no dia em que decidira meter-se no carro e ir espreitar o novo local de trabalho, o desterro. Odete chegara mais tarde, já o Centro tinha aberto portas ao público, recambiada de Moçambique e seduzida por um emprego com casa, luz, água e telefone incluídos.
Quando deu por si, estacionado em frente aos prédios, o motor não tivera nem tempo de passar algum do seu ronronar quente para as grelhas de aquecimento do habitáculo. Olhou as janelas do segundo direito, onde brilhava uma luz - era a do quarto, deixara-a esquecida ao sair. 

(continua)
© Fotografia de pedro serrano, Penaformosa 2016.

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