16 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 3. Notícias do Reino

Pelo menos era assim que contavam.
Solidário na década de 60 e contrito nos anos 70, o reino da Noruega deslizara do apoio explícito aos movimentos de libertação africana que lutavam contra o domínio português para uma atitude de ajuda à jovem democracia, a qual, na ressaca da revolução de 1974, esbracejava na falta de dinheiro e no caos interno, e tropeçava nas almas zangadas que, aos centos de milhar, fugiam das colónias e entupiam o país. 
Então o reino mandara o embaixador em Lisboa anunciar que o seu país estava na disposição de ajudar a fortalecer um pré-requisito – inquestionável e neutro – ao progresso de qualquer povo: a Saúde. Uns sete milhões, a fundo perdido, e outro tanto a pagar, sem afobamentos, a um juro que forçaria um prestamista a mudar de ramo. Assim confrontado à queima-roupa, apressado por outras questões mas não podendo recusar a bolada que caía do céu, o Governo mandou dizer que faria jeito exactamente esse montante para construir um hospital de mil camas em Coimbra. Na volta, o reino respondera que o dinheiro continuava lá, à disposição, mas que preferiria subvencionar um projecto de desenvolvimento integrado mais do que simplesmente pagar a construção de um hospital universitário. E os nórdicos aproveitavam para pedir elementos que os auxiliassem a fundamentar a natureza e o local do investimento: Portugal que fizesse o obséquio de, com a urgência possível, enviar indicadores que traçassem um retrato da saúde dos portugueses, tomavam a liberdade de sugerir até alguns. 
Meses mais tarde, em Oslo, um pequeno grupo de oficiais e técnicos adjuntos à Agência Norueguesa de Apoio ao Desenvolvimento (NORAD), folheava, boquiaberto, a papelada, algo desorganizada, enviada por Lisboa. Será que os portugueses não se tinham enganado nos números? É que aqueles valores no Nordeste do país, aquela mortalidade relacionada com gravidez, aquele número de mortes evitáveis em crianças menores de cinco anos de idade; aquela brutalidade de partos sem assistência médica, aquele analfabetismo; aquela gente toda (81 % da população!) sem água canalizada em casa, sem uma simples retrete.... Pareciam estatísticas dos países que Portugal acabara de libertar do jugo colonial! Dava quase vontade de lhes enviar os manuais para construção de latrinas que a Organização Mundial de Saúde preparara para África... Nunca os nórdicos imaginaram que um colono se pudesse aferir tanto pelo colonizado, nunca tinham equacionado que, ironia das ironias, lhes tivesse chegado a hora de apoiar um país europeu como se este fosse do terceiro mundo e rastejasse, andrajoso e balbuciante, em direcção à luz clara da democracia e do desenvolvimento.
Os outros já tinham saído. Anker, que andara a ler sobre o país receptor de ajuda e se intrigara, ao folhear um livro de História, com o mapa de propaganda que projectava um contorno das colónias sobre o território da Europa para demonstrar como, em área, Portugal se alargava da Península Ibérica até Moscovo, ficara sozinho com o dossier e o à vontade para puxar dos Gauloises, cuja falta o condicionara a tarde inteira. Mais ninguém fumava naquele grupo e todos militavam no perfil saudável: Daag chegava de bicicleta, Steinar desfazia-se do fato de treino e das sapatilhas nos lavabos, e Randi Tasserud – a economista do grupo – rilhava maçãs durante as reuniões. O responsável médico pela missão norueguesa esmagou o cigarro sem filtro no cinzeiro, onde já se contorciam mais dois, e olhou as janelas da ampla sala de reuniões: lá fora era noite cerrada, embora fossem somente quatro da tarde. Apesar da mania das grandezas, era uma coisa que os outros, indubitavelmente, tinham: luz. Sem saber o porquê, veio-lhe à cabeça o Concerto Brandeburguês n.º 4, talvez fosse por causa da luminosidade que sempre associava à música de Bach. 
Exceptuando a cor local e o pormenor do Concerto n.º 4, fora assim que lhe resumira a situação – num gabinete esconso e a cheirar a merda de cavalo – o tipo já entrado em anos e com certo ar de turista sul-americano a quem fora bater à porta por informações sobre o Projecto Luso-Norueguês: em que consistia exactamente, as condições que ofereciam, quando ia começar, etc. 
O Dr. Coutinho da Costa gostava de falar e, passando os dedos pelas suíças fora de moda, justificava os detalhes com que o inundara:
“O colega está a tomar nota? É que não quero uma decisão sem que se sinta totalmente informado.” 

Mas ele, embora nunca o admitisse, tomaria a decisão de qualquer modo, estava a desesperar por sair do Porto. Casa, telefone, electricidade à borla? Ordenado e garantia de carreira? Aquilo parecia-lhe bom de mais, parecia a vassoura voadora de que estava a precisar. Propôs-se assinar contrato por cinco anos. O outro mirara-o, espantado; desconfiara: ao fim de um ano de divulgação era o primeiro freguês que se mostrava disposto a arrancar para o meio das montanhas sem perguntar quase nada, aceitando todas as condições: do magro ordenado da função pública ao estágio de dois meses na Noruega que deveria anteceder a ida para trás do sol posto. Perguntou:
“O colega conhece a zona? Já esteve em Penaformosa?”
O candidato, um tipo grandalhão parecendo recém-desembarcado de uma tempestade no mar, olhara-o nos olhos, abanara tristemente a cabeça.
“Confesso que, por aquela estrada, nunca fui além de Fafe... Conheço Vila Real e a Régua, mas por baixo, por Amarante. 
Coutinho da Costa hesitou um instante, dividido entre a vitória de comunicar a Lisboa e à Noruega que finalmente tinha caçado alguém e a sensação de fragilidade que parecia aureolar o tipo sentado à sua frente e disposto, sem ao menos tugir, a enfiar-se num buraco que desconhecia. Disse:
“Vamos ver como se dá, vamos primeiro ver como se dará por lá... Sugiro-lhe que assine contrato por dois anos e, depois, logo se vai vendo: cinco anos é muita fruta! Sabe, você lembra-me eu quando, há trinta anos, decidi arrancar para São Tomé e Príncipe com a família, uma filha pequena. Não fazia ideia onde me ia meter, e olhe que penei.... Sobretudo no princípio...”, atenuou, descendo outra vez ao papel de angariador de incautos.
Raul Barbosa enrolou nas mãos possantes os papéis que o outro lhe entregara e, levantando-se da cadeira, pensou em ananases, muitos ananases, era isso que a "muita fruta" do gajo lhe lembrava.
“Então, agora o que tenho de fazer?”
“Agora vai ter de me fazer chegar uma porção de papelada: caderneta militar, registo criminal, certificado de que não sofre de doença contagiosa e está vacinado contra o tétano e a tuberculose; duas fotografias, tipo passe, uma carta de motivação...”
“Carta de motivação?!”, alarmou-se o outro, “isso consiste em quê?”
“Se quer que lhe diga, também não tenho bem a certeza. É uma coisa em que os noruegueses insistem, suponho que terá a ver com as razões que o levam a embarcar no Projecto... Vou informar-me melhor, depois mando dizer-lhe...”
Mas o aplicante continuava com ar preocupado, ali especado, em pé, a olhar para ele, a testa ondulada por pequenas rugas e o rolo de papéis a ser triturado entre as mãos. Será que eles estavam à espera que explicasse o que lhe sucedera, o furacão que lhe desmantelara a vida como se esta fosse uma jangada de tábuas mal pregadas? O representante do Projecto interrompeu-lhe as divagações.
“Por agora vamos deixar isso de lado: no fundo, é apenas mais um papel. Disse-me que está no Joaquim Urbano? Acha que podemos iniciar contacto com eles, para ir preparando uma sua eventual saída? Sabe que estas coisas, na função pública...”
“À vontade... Dê-me só dois ou três dias. Tinha falado ao meu director nesta ideia, mas muito por largo. O homem chamou-me maluco, acho que não acreditou. Penso que irá ficar surpreendido de me ver trocar a Infecciologia por essa terra de ninguém da Saúde Pública.”
“Quanto a isso não há nada que a gente possa fazer”, defendeu-se o Dr. Coutinho da Costa, ele próprio emissário dessa terra-de-ninguém, “a lei portuguesa determina que o director de um centro de saúde terá de ser alguém da carreira de Saúde Pública, um delegado de saúde. É isso que você, se fechar contrato, será, não o estamos a contratar como infecciologista -isso deve ficar bem claro.”
O outro encolheu os ombros dentro do casaco de couro castanho, que usava, ignorando a fivela, apertado na cintura por uma laçada do cinto, o que fazia com que se abrisse no peito como um fole.
“Tanto se me dá... Fui parar às infecciosas, e até à Medicina, por mero acaso.”
Farto de o ver ali em pé, a enrolar papeis, pronto a ir embora mas sem levantar âncora, Coutinho da Costa levantou-se por sua vez e estendeu-lhe uma mão amistosa. Aquele tipo era um tanto estranho. Mas era o que havia!
No dia seguinte, ao receber o fax, Oslo reagiu com entusiasmo ao facto de finalmente ter aparecido alguém, um entusiasmo temperado pela circunstância de o candidato ser alguém já para além dos trinta e cinco anos e com uma carreira hospitalar: prefeririam alguém mais novo, em início de profissão, que pudesse ser moldado à filosofia e à finalidade do Projecto. Já Lisboa, a quem Coutinho da Costa telefonara de imediato a comunicar, aderira com rapidez aos progressos.
“Safa, até que enfim”, desabafou o assessor do Secretário de Estado, “foi um parto difícil! Fico contente, até porque o senhor Secretário de Estado me confidenciou que o Governo quer inaugurar aquilo antes do fim do ano, dê por onde der... Tínhamo-nos comprometido a ter três centros de saúde prontos, e a funcionar, até ao final de 79 e nem um para amostra quase a meio de 1980! É constrangedor, e o pior é o dinheiro empancado, nem para a frente nem para trás!”
“Bem, vamos ver como tudo isto corre..., vamos lá ver como este tipo se vai aguentar, se vai portar”, derivou Coutinho da Costa para território menos inflamado, e ainda assombrado pelo modo precipitado como o médico do Joaquim Urbano aceitara o cargo.
“Isso aí já não é connosco! Desde que o gajo assine os papéis, fica cumprida, pelo nosso lado, a obrigação principal. O resto já nos ultrapassa..., passa a ser responsabilidade da administração distrital. Olhe, e não esqueça de comunicar a notícia aos nossos amigos lá de cima...”
“A Vila Real?”, o interlocutor, para memória futura, quis precisar as orientações superiores.
“Não!, esses tem tempo. Aos do fiel amigo, aos do bacalhau - aos nórdicos!”
“Trato disso logo de manhã, a primeira coisa... Adeus Dr., por favor transmita os meus respeitos ao Senhor Secretário de Estado.”
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“Serão entregues...”, garantiu o outro concedendo um abraço e pousando o telefone ainda tomado pela aura de satisfação que a sua própria piada lhe provocara.

(continua)

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