19 fevereiro 2013

OBRA DE FACHADA


Fachada do Hawa Mahal. 
He just stood there starring
At that big house as bright as any sun
With four and twenty windows
And a woman's face in ev'ry one.
                            Bob Dylan (The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest)

Chegou agora o momento de falar de mister Shyam, mister Shyam Sharma, ainda que para isso seja obrigado a tomar um desvio.
Provavelmente os meus ouvintes nunca ouviram falar de Jaipur, pois o mais comum termos ouvido de cidades indianas não passa geralmente muito de Deli (a capital), Bombaim (a de Bollywood e do filme Quem Quer Ser Milionário) e Calcutá (a da madre Teresa)...
No entanto, Jaipur é a capital do Rajastão e conta com mais de cinco milhões de almas. É também conhecida na Índia pela cidade rosa, nome que lhe vem de uma série de monumentos com aquela tonalidade. E, quando falo em tonalidade, é mesmo isso que pretendo significar. A fachada da fotografia acima, que eu vira em imagem antes de a ver ao vivo, desilude um pouco quando nos encontramos frente a frente. É que aquela fachada (já irão ver porque não uso o termo edifício ou prédio) tem um ar gasto, sem brilho... No entanto, tira-se uma fotografia e quando se vai ver ela brilha, surge-nos num rosa lustroso e puro, como se a obra tivesse sido acabada ontem e não em 1799. É extremamente fotogénica, é o mínimo que se pode dizer, que era esse o seu destino e o do seu recheio habitual.
Esta fachada chama-se Hawa Mahal o que quer dizer Palácio do Vento e, suponho, a ventania deve provir de aquelas paredes não terem mais de 20 cm de espessura e de tudo quanto se vê não ter mais do que a profundidade de uma sala! Ou seja: não há por trás daquilo, como se poderia imaginar, um edifício; aquilo pouco mais é do um cenário de cinema, de Hollywood ou de Bollywood, suportado por estacas. Este Hawa Mahal dá, e já assim era no passado, para uma das ruas mais movimentadas de Jaipur e é um dos topos do complexo em que se situa o Palácio da Cidade. Esse palácio, com construções e decorações de uma beleza fulminante era habitado, como é tradicional nestas coisas, por um poderoso marajá que, como sabemos das histórias, tinha o seu harém... Muitas mulheres, imensas, das obrigatórias às favoritas – hoje nem é bom especular se seria (para o marajá, que é o meu ponto de vista preferido) um maravilhamento ou um suplício. Bem, de qualquer modo, apesar de as ter de burka, presas em casa e ao dispor, havia algo que, apesar do seu poder, o homem não conseguia evitar e, se reprimida ou não satisfeita, poderia ter efeitos secundários muito nefastos: a curiosidade daquele mulherio todo. E, então, mandou construir para elas aquela fachada cheia de janelinhas, cinco andares de janelas, ondes elas, sem serem vistas da rua, podiam coscuvilhar o que se passava com o comum dos mortais. Ninguém precisava de saber que elas ali estavam, nem ninguém precisava de saber que tudo era apenas uma obra de fachada!
Traseiras do Hawa Mahal.
E com isto, perdi-me em tanta janela, acabei por escrever tantas palavras que mister Shyam se ficou pelas entrelinhas. Mas ele tinha a ver com isto, garanto-vos, pois foi quem nos conduziu ali no seu tuk-tuk. O que é um tuk-tuk? Amanhã, ou pouco mais, volto a isto, ok?
© Fotografias de Pedro Serrano, Jaipur (Índia), Janeiro 2013.


Nota: Texto publicado, com ligeiras alterações feitas pelo autor, e um título pouco interessante escolhido pelo jornal, no suplemento Fugas do Jornal Público de 25 de Maio de 2013.