08 julho 2016

COMO QUE A DESPEDIR-SE

Veio cá parar, como a maior parte deles, pela mão do Zé João que, regressado da escola, topava num gato abandonado, pequenino, trémulo e de olhos ramelentos. Depois enfiava-o num caixote de papelão, cruzava o portão com ele e pronto. Nunca nenhum de nós – eu ou a mãe – lhe disse que não, que não dava, que a altura não era boa, a adopção era imediata e sem formalidades.
A Mia veio tapar o buraco da morte da Tangerina, o que me faz supor que, tendo morrido a outra no Natal de 2001, possa ter aparecido aqui em casa em 2002, deveria andar agora pelos treze, catorze anos, uma senhora idade para um gato.
Era uma vadia predominantemente cinzenta, de olhos verdes, uma mancha branca de uma pureza de glaciar entre as patas dianteiras, contrastando em combinação perfeita com o cinza-frio do resto do corpo.
Ontem à noite, perto da uma da manhã, já estava deitado, ouvi miar, como que um chamamento; discreto, nada de especialmente insistente ou desesperado. Levantei-me, desci, ela jazia deitada na pedra do jardim onde na última semana passava os fins de tarde, para depois desaparecer até à manhã seguinte em sítio incerto. Desde que ficou gravemente doente (complot de idade e cancros da mama, que iam sendo operados mas voltavam uns tempos depois na mama seguinte) deixou de querer estar no interior da casa, nunca percebemos a razão. Andava em torno da casa, ia mudando de local à medida que o sol rodava no céu, um dos locais preferidos era a terra sob os marmeleiros, aquecida pelas duas da tarde mas ensombrada pelo túnel do entrelaçado das plantas. Primeiro deixou de comer, mas bebia; depois deixou praticamente de beber, nos últimos dois dias não aceitava sequer a água que lhe estendia numa tijela, para exaspero do dono. Ontem, ao longo do dia, ao vê-la deitada no chão, a cabeça encostada à pedra quente, já sem reagir muito a estímulos exteriores não duvidei que iria durar pouco: um dia, dois dias? Era impossível continuar assim por muito mais, com aquela respiração aflita, aquele olhar triste ausentando-se...
Diz a Carlota que de manhã, ao fazer-lhe uma festa, que levantou a cabeça e terá olhado para ela como que a despedir-se, muito amiga.
Então, ontem à noite, ao ouvir o miado, desci e encontrei-a deitada na pedra do chão perto da porta da entrada. Quando me sentiu perto, balbuciou um pouco, acariciei-a e acalmou. “Mia...” Fez-me impressão vê-la ali, estava a cair aquela bruma nocturna que é tão useira nas praias, à noite. Fui procurar a manta onde ela se costumava deitar na cadeira ao lado da lareira e embrulhei-a nela, sentindo-me indignado com o peso-pluma a que a gata tinha chegado. Embrulhei-a bem, apenas a cabeça de fora, deixou-se ficar sem protesto naquela figura de criança abandonada numa trouxa. Fiz-lhe uma festa, entrei, fechei a porta como quem vira as costas a um comboio que sai da estação.
Hoje, ao amanhecer, estava no mesmo local de ontem à noite, exactamente, embrulhada na sua manta-xadrez, quase parecia que nada tinha mudado e que dormia, não fora as patas traseiras esticadas e a sobrar da manta, o carreiro de formigas que se apressava em direcção a ela como mulheres para saldos.
Enterrei-a num canteiro, sob roseiras.  


 © Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) e (2) 2010; (3) 2006.

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