27 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 16. As desventuras de Mimi

Hoje deram-me uma galinha, viva. No fim da consulta, a D. Crisália, aplicando duas palmadinhas ternas na minha mão que ficava mais próxima da cadeira de onde se levantava, confidenciou:
“Trouxe-lhe uma pequena lembrança, Dr. Pedro... Ficou à guarda da Rosa, ela depois entrega em sua casa...”
Fiquei intrigadíssimo com o mistério: o que poderia ser que tivesse que ser levado a minha casa e o que teria a Rosa a ver com tudo? A Rosa é uma das empregadas auxiliares, um daqueles casos de criança internada que a família se esquece de levantar e vai ficando, ficando; até que o tempo passou, ficou grande e agora pertence ao quadro de trabalhadores do Hospital. Quanto à D. Crisália, é uma das minhas doentes mais fieis e entusiastas: mora lá para uma das extremidades da vila, uma rua estreita com as casas alcandoradas sobre o mar. Quando me foi testar a primeira vez, apareceu com um saco de medicamentos que foi dispondo no tampo da secretária como se fossem peças de dominó. Percebi que ia ser demorado, empurrei o cinzeiro para perto de mim e acendi um Goldflame, que é o que ando a fumar agora, pois os dez pacotes de SG Filtro que vinham dentro da arca já se acabaram e tabaco continental é produto raro por aqui. Entretanto ia mirando as caixas que a D. Crisália alinhava e, de imediato, previ que dormia mal, tinha gases e más digestões: cismática e entupida, um fardo comum. Mas, apesar de se tratar de um mal trivial, ficou comovida quando lhe adivinhei e particularizei a situação com cuidadosa atenção e me dispus a tentar uma solução alternativa para os seus padecimentos. Já percebi que os doentes de uma certa idade – esta senhora andará pelos seus cinquenta e picos – gostam de consumir medicamentos em formato líquido, pelam-se pelas injecções de beber que implicam limar o bico às ampolas com uma serrinha ou de ficar a ver cair gotas em colheres de chá previamente atapetadas com açúcar. E foi precisamente isso que propus ao seu fígado pouco colaborante, sujeito a pontadas, interferindo com as digestões de fritos e provocando enfartamentos, gases e um intestino preguiçoso: por agora iria suspender o carvão activado e passar a contar gotas antes de cada refeição. Quanto à sua paralisia intestinal, prometi que havíamos de ver isso numa próxima visita, assim como o medicamento para dormir, que estava a perder efeito.
“Senão fica sem motivo para me vir visitar!”, adiantei, “para já vamos concentrar-nos no seu fígado...” E passei a explicar das gotas, quantas devia tomar por dia, a que horas, e do sabor a hortelã pimenta que deixavam na língua. Enquanto perorava iam-se-me digladiando na mente as considerações do livro de terapêutica, o qual atribuía valor meramente de placebo ao medicamento, e o que me dizia o meu pai no final de uma ronda de consultas, após ter pedido autorização ao cliente para que eu assistisse, avisando-o que brevemente eu seria também médico. Na Universidade havia também quem nos falasse nisso em palavras empolgadas, da arte e da ciência em Medicina; porém era diferente ver isso acontecer em cobaias verdadeiras, esse entrelaçar da técnica e da psicologia, em que a atenção ao que nos conta, confessa ou oculta o doente e a observação do modo como se comporta, são o pilar onde se enrosca a relação médico-doente.
Pois as gotas e os posteriores conselhos dietéticos e de higiene do sono deram bons resultados na D. Crisália, que passou a distinguir-me com um sorrisinho cúmplice quando, nas noites de Sexta ou Sábado, me adiantava no Clube ou na Filarmónica para requisitar a sua sobrinha Sãozinha para uma dança. Estou em crer que via tudo aquilo com esperançosa simpatia e é possível que a galinha fosse uma espécie de marco geodésico na sua geografia particular de contribuir para fixar um médico na ilha.
Terminadas as consultas fui à procura da Rosa que, com um sorriso embevecido, me arrastou pelo braço da bata até umas das portas traseiras do hospital. Lá fora, esgravatando a orla da erva rala onde se estendiam os lençóis a corar, uma galinha castanha tentava chegar mais longe com o bico do que o que lhe era permitido pelo cordel que a prendia, por uma pata, a uma estaca espetada no chão.
A meio da tarde, ao ouvir bater lá em baixo, já me esquecera de tudo aquilo e a minha cara deve ter suscitado na Rosa a necessidade de uma explicação.
“Venho trazer a galinha”, apontou para o bicho que, de tornozelos amarrados, trazia encaixado debaixo do braço como uma bola de futebol. “E também lhe trouxe isto, deve dar para uns dois dias...”, acrescentou estendendo-me um saco de plástico. Espreitei: dentro havia um ajuntamento algo caótico de cascas de batata, hastes de verdura e restos de pão.
“Onde quer que a ponha?”
Acordei da minha inspecção de resíduos e apontei com um indicador em arco:
“Venha comigo, há um galinheiro ali atrás...”
Com um desprezo que transformou em conselho, a Rosa inspecionou a porta de rede, enferrujada e empenada, e o chão coberto de urtigas e outras herbáceas daninhas.
“Vai ter de lhe por ali uma malga com água... E, se fosse ao Dr., despachava a franga já nos próximos dias, está no ponto para ser cozinhada e quando mais tempo esperar mais rija vai ficar. É para ser comida aqui, não é?”
Olhei-a com o meu olhar mais transparente e assegurei-lhe que sim, que era para comer já e ali.
Fui despedi-la à cancela do portão e, antes de regressar ao interior, fui espreitar a galinha, em sossego. Mal se via no meio daquele mato, mas, com o pescoço oscilante em cada passo prudente que dava, andava já a inspecionar o novo cativeiro que, pelo menos, era menos traumatizante para os artelhos que o anterior. Assim, vista de perto, achei-a bonita na sua cor brilhante de um castanho quente, à qual casava bem o vermelho da crista diminuta e dos barbilhões. Fui à cozinha e enchi uma tijela com água, entornei metade da ração que a Rosa me deixara num prato de sopa e estava a puxar o estore da porta da cozinha, que dá directamente para a parte lateral da casa e do trajecto para o galinheiro, quando o Pombo entrou na cozinha e se dirigiu ao frigorífico para se servir de cerveja.
“Ouve lá”, perguntei, “sabes matar uma galinha, não sabes?”
O gajo segurou-se, quis saber porque fazia a pergunta e em que contexto.
“Contexto?! É que temos ali atrás uma puta duma galinha, que, depois de morta,  poderá dar um belo frango assado, para três ou mais convidados; e como és veterinário...”
“Eh pá, sim, mas sou sobretudo especializado em animais de grande porte: vacas, cavalos, porcos, às vezes. Aves, galináceos, cães e gatos não é muito a minha cena...”
“E se for uma avestruz?”
Auto-retrato com toucador.
Fiquei logo a perceber que, por ali, não ia a lado nenhum e pareceu-me mais recuada a imagem de um frango assado em cima da mesa da sala de jantar que, dois meses depois, continuava por inaugurar e se mantinha com o ar não habitado do resto da casa.
Subi as escadas e sentei-me a continuar, por mais umas linhas, a tradução do Tarot, constantemente interrompida pela falta de inspiração, pela necessidade de consulta do dicionário, e por interrupções de pessoas que me vinham trazer galinhas a casa. Ouvi tossicar e olhei em frente: a mesa que me serve de secretária é uma cómoda sobrepujada de espelhos articulados por dobradiças, aos quais se pode modificar o ângulo e multiplicar-nos por três. O Pombo estava encostado à ombreira da porta e, ao ver os meus seis olhos expectantes, perguntou:
“Se aquela cena do frango assado for por diante, posso trazer uma amiga? Disseste que podia dar para quatro...”
Na manhã seguinte, antes de sair para a ida semanal à casa do povo da Luz, fui espreitar a galinha, a que o Rui já apusera a alcunha de Mimi, o que não me convinha, pois queria evitar, o mais possível, uma relação personalizada com alguém a quem urgia limpar o sebo, sendo eu o putativo carrasco. Já tinha comido tudo e virado a tigela, que estava vazia de água. Reabasteci e jurei a mim próprio que hoje mesmo, na volta, trataria do que tinha a tratar.
Durante a viagem de regresso da Luz apertei a Guadalupe com um interrogatório de tal modo cerrado sobre o modo de proceder com galinhas que ela se ofereceu para me matar a Mimi, depená-la e sacar-lhe as tripas. Agradeci, mas recusei, era uma tarefa que, como dono e tipo que quer aumentar as perspectivas  gastronómicas domésticas, me assistia. Mas não deixei de me sentir ainda mais acabrunhado, pois a minha preocupação com o futuro saltara imediatamente do acto de matar para o acto de cozinhar, e não me detivera nas etapas do depenar e do extirpar! Durante as consultas da tarde, já no hospital, enquanto ia ouvindo distraidamente as queixas dos doentes, fui tentando atiçar a memória e revisitar aqueles momentos, fugazmente lobrigados e logo desinvestidos, em que as empregadas de casa dos meus pais cortavam o pescoço a galinhas e perus e depois, sentadas num caixote posto em pé, ao lado de um alguidar fumegante, lhe arrancavam em sucessivos ‘plops’, às mãos cheias de penas, o toucado, até o bicho estar tão obscenamente nu como um sobretudo que se abre à saída da escola primária. 
Voltei a amarrar os tornozelos da Mimi, que durante todo o processo me fuzilou com um olhar onde cintilava uma indignação estúpida, e levei-a para a zona dos degraus que davam acesso à porta da cozinha, onde já esperava o alguidar e a faca de mato que viera na arca; lá dentro, no fogão da cozinha, pusera água a ferver numa panela. Acabara por optar pelo facão após examinar as duas facas de cozinha que herdáramos da casa por cima da farmácia, as quais possuíam lamentáveis gumes e um quase nulo poder de corte. Lâmina e gume não faltavam a esta, embora talvez o gume fosse um pouco espesso quando o comparava mentalmente com as facas, afiadas até ao sumiço do aço, usadas em minha casa, na casa da minha avó. Trouxera este facalhão comigo no mesmo espírito das garrafas de rum e da ilha deserta, era um faca exploratória, enfiada na sua bainha de couro cru, com cabo de osso e uma lâmina de quinze centímetros. Mais uma arma de chefe dos escuteiros do que de açougueiro ou cozinheira, mas, na teoria, parecera-me a melhor solução, não agora que, como se a um puto em observação  pediátrica, tinha a Mimi presa entre os joelhos e lhe esticava o pescoço pelo pente da crista. Aquilo não tinha sentido e essa constatação de absurdo corroeu o ímpeto ao gesto decisivo, pelo que não consegui um golpe eficaz e dei comigo a serrilhar o pescoço da galinha em hesitantes gestos de vai e vem. Ela, por seu lado, debatia-se cada vez mais debilmente no meu colo e a sua respiração transformara-se num gemido asmático. Quando terminei, os degraus de mármore claro das escadas estavam vermelhos de sangue e havia uma nódoa líquida de fezes nos joelhos das minhas calças. Fui lá dentro buscar a água, que, solitária, fervia em cachão na panela, e transvasei-a para o alguidar, aproveitando para esfregar um pano de cozinha embebido nela no tecido cagado das jeans. Mimi, essa, jazia sobre o empedrado de mármore, de olhos vagos, desinteressada do presente e do futuro. Enfiei-a pelas patas dentro do alguidar e deixei-a ali uns minutos, enquanto fumava um pensativo Goldflame. Quando a retirei do molho, ela não passava de um gotejante peso-morto que libertava um enjoativo fedor a  merda e penas molhadas. Tentei arrancar algumas, mas aquele plop fácil de que me lembrava não se reproduzia ali, e libertar cada uma das penas da pele da galinha era como arrancar uma árvore pela raiz! Desisti ao fim de uma penosa dúzia de tentativas e ao aperceber-me das muitas centenas de penas e penugens que revestem a carcaça de um galináceo.

Livrei-me da água no quintal, enfiei Mimi no alguidar e cobri-o com o pano. Depois fui discretamente despejá-la no prado que existe em frente à nossa casa, do lado de lá da rua. Uma vaca ficou a acompanhar as manobras, sem deixar de retouçar a erva tenra, enquanto eu olhava em volta, em busca de testemunhas. Ninguém me viu. Corri para casa, subi as escadas e fui à janela do meu quarto, que dá directamente para o prado e para os quadris da vaca. Parecia que nada  acontecera ali e já nem tinha bem a certeza do maciço de ervas onde abandonara os despojos da galinha.   
  

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Carlota Rodrigues, 2017; (2) pedro serrano, Graciosa (Açores), 1979; (3) pedro serrano, 2018. 

23 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 15. Cuidados de saúde primários

O não haver uma cortina, o risco de esparrinhar o chão, poderiam ser invocados como factores explicativos, mas o certo é que o Rui adora enfiar-se em demorados banhos de imersão, onde, para além de se ensaboar e amolecer as extremidades, corta as unhas e barbeia-se!, o que, a mim, faz grande confusão pois não me atrevo a escanhoar a cara sem um espelho à frente dos olhos. Como fica imerso por solitárias eternidades, o gajo gosta de companhia e, se estou em casa, vou, por vezes, sentar-me no tampo da retrete a conversar. Sobre toda a sorte de assuntos, boas e extensas conversas ali mantivemos por entre o ecoar dos mármores, o embaciar dos meus óculos e o pingolejar das torneiras.       
Hoje é sexta-feira, há baile logo à noite e queremos aparecer no Clube como novos, apagar de nós as emanações e a recordação de tanta gente auscultada, percutida, apalpada, infectada e desinfectada; alguns deles poderão até surgir-nos mais logo transfigurados em concorrentes de dança ou a querer pagar-nos uma mini ao balcão. Estou sentado no digno tampo de madeira da sanita, da banheira chega-me o clic-clac do corta-unhas e aguardo que o Rui acabe as abluções para me pôr eu de molho. O Pombo, coitado, como é apenas hóspede e tem ainda risco de contágio, fica para o fim e espera no quarto que saiamos e lhe deixemos os despojos do chão encharcado e do espelho nublado.
Enquanto isso, fazemos uma espécie de balanço da semana, comentando doentes e o grande número de AVC que nos inquietaram nos dias que se seguiram às festas pascais. Dos três que apareceram na tarde do Domingo de Páscoa, o mais grave pareceu-nos o da mulher, mas quem morreu foi um dos homens; ela para lá está no internamento, a recuperar melhor do que imaginávamos e só não lhe demos alta porque a família ainda não encaixou que vai ter de modificar a rotina para a ter de volta. Ao contrário do que sucede com a irmã Celeste, nós ficamos na merda de cada vez que nos morre um doente e assalta-nos a corrosiva dúvida de se teria sido possível ter manejado o caso de outro modo, se fizemos alguma coisa que não deveríamos ter feito e que, a ser evitada, ainda poderia levar a que o defunto andasse à tona da existência. De quando em quando, se o doente nos ficou mais próximo, comparecemos discretamente no velório ou na missa de sétimo dia, mas sempre possuídos pela sensação de não termos o direito de ali estar, de que haverá alguém na assistência – por mais polido e contido nas manifestações – que julgará ser acintoso termos aparecido, pois a razão para o fúnebre encontro radica, em última análise, em nós.  
Terá, porventura, sido num desses diálogos aquáticos que nos surgiu a ideia apaziguadora de um dia, talvez lá mais para o meio do ano por uma questão de acumulação de maior massa crítica, de uma tarde passarmos pelo Registo Civil a fazer uma visita ao Oriolando e de, como quem aproveita a visita, lhe pedir para nos deixar ver o livro de assento dos óbitos deste ano e, “já agora, ó Sr. Oriolando, poderíamos também dar uma espreitadela nos livros de 1979 e 1978?”. O fito é contar quantos doentes teremos matado desde que aqui chegamos (subtraindo ao total o morto que esperava para autópsia no dia em que pousámos no campo de futebol) e comparar esse número com os mortos do mesmo período de tempo de cada um dos dois anos anteriores. Temos fé que a estatística nos alivie. Ambos somos ainda muito ignorantes nesta ciência da análise e interpretação da mortalidade comparada, mas se viermos a descobrir que a gente falecida no tempo dos colegas que nos precederam foi semelhante à desaparecida nos nossos dias, estamos em crer que as nossas almas poderão circular pelas ruas de Santa Cruz mais leves e diáfanas. Ah, se assim for...
“Ainda por cima, eram o dobro de nós a fazer consulta...”, dizemos como se isso tivesse alguma coisa a ver.
Vivemos em permanente ansiedade e a noite é sempre pior, sobretudo para o que está de urgência, que desperta enfrentando o dia como se o céu estivesse coberto de nuvens e se vê empurrado para um lugar solitário mal a luz do dia declina, uma trincheira em que o telefone tocará só para ele. Cada um de nós – confidentes em espelho – sabe tão bem como é solitário esse posto, que não é raro eu atravessar o negrume da noite em direcção à luz amarelada que brilha do lado de lá dos vidros da janela da Urgência e, passada meia hora, ver aparecer um Rui, desgrenhado e de olheiras cavadas, que me cospe ao ouvido ter tido uma “insónia do caralho” e, junto a mim, se debruça sobre a criancinha que arde de febre em cima da marquesa.
“Que é que achas que tem?”, inquire em voz calada. As crianças metem-lhe especial respeito, pois considera não ter grande à vontade para lidar com elas e, sobretudo, com as mães que, com os seus olhares pendurados e apartes  constantes, não nos deixam trabalhar em paz.
“Não faço a mínima... Para já tem uma febre impossível, temos de o arrefecer não vá ter uma convulsão! Ajudas-me a segurá-lo? Tentei espreitar-lhe a garganta mas a progenitora desatou aos soluços e não foi capaz de o prender como deve ser!”
Sonhamos com meningites, enfartes, corações arrítmicos, insuficiências renais, comas diabéticos; ventres agudos a necessitar cirurgia urgente e o helicóptero sem vir por causa da tempestade... Perante situações clínicas concretas – ou imaginadas a meio da noite, na espera que o telefone toque – abro os livros e ponho-me a estudar febrilmente. Quando nos mudámos para aqui, estavam todos muito arrumadinhos, por altura da lombada, na estante de criptoméria do Sr. Medina, no escritório, mas, a pouco e pouco, foram subindo as escadas e invadiram os quartos. Tratados de Medicina Interna, handbooks de Pediatria e Obstetrícia, concebidos para caber no bolso de uma bata; manuais de Farmacologia e Terapêutica, vade-mécuns para interpretação de parâmetros laboratoriais. O problema, o grande problema, é que, e embora esteja lá tudo, todo o saber, não nos servem para grande coisa! E, mais, o defeito é mesmo esse: estar lá tudo! O não haver uma hierarquia do que é mais frequente, do que se pode esperar num ambiente genérico como o nosso, é o que distorce a sua utilidade. Pela leitura desses livros pantagruélicos achamo-nos logo contaminados pela hipótese de que uma dor de cabeça poderá ser sintoma de um tumor na cabeça, quando o mais provável é a senhora que se nos queixa estar nesse estado na sequência de uma enorme pega com o marido que, em vez de a defender, se pôs do lado da mãe dele, aquela cabra! Mas os livros que temos connosco, prezados como bíblias no Hospital Universitário que nos formou, são demasiado especializados, excessivamente médicos, se assim se pode dizer. Demoram-se tanto nas raridades, que só verei uma vez na vida ou nem isso, como nas condições clínicas que representam 95 % do que geralmente bate à porta de uma consulta indiferenciada como a nossa, ali na ilha, onde somos embate de todos os acontecimentos que podem levar um ser humano a sentir-se esquisito. Porra! E, depois, mesmo quando temos a certeza do diagnóstico, do mal da pessoa, e, confiantes, vamos procurar ao calhamaço o esteio técnico para como proceder a seguir, deparámos com recomendações como: “meça a pressão parcial de gases no sangue...”, efectue punção lombar e mande analisar o liquor”, ou “proceda a radiografia de contraste, baritada...” E nós ali, onde o único gás à mão é o oxigénio e está dentro de uma bilha de metal, e em que o único Rx acessível serve para confirmar se um osso está partido, coisa que, aliás, já sabíamos pela irmã Noémia, que tem uma queda pelas fracturas e pela Ortopedia. Em termos de recurso ao Rx, especialmente, convém sermos parcimoniosos nos pedidos, pois as freiras, as únicas que estavam por perto quando ele foi instalado e aprenderam a mexer naquilo, detestam lidar com o obsoleto aparelho, do qual não se pode dizer mal, pois foi doado pela diáspora Açoriana. Estou em crer que a sua chapa mais importante foi a tirada no dia da inauguração, por entre discursos que louvaram o bem inestimável que é a Saúde, e a bênção do Sr. Bispo de Angra que, ainda hoje, é o melhor garante de segurança contra as radiações.  
Em todas as arengas oficiais que ouvimos até chegarmos aqui foi-nos prometido o apoio dos colegas mais velhos; qualquer coisa e era só ligar para Angra do Heroísmo, já que os médicos de serviço teriam o maior gosto em auxiliar e aconselhar os colegas mais jovens... No princípio era o verbo, depois restou-nos a operadora da central telefónica, que nos diz que o telefone toca e ninguém atende ou nos vai confidenciando que é sempre muito difícil chegar à fala com o Sr. Dr. que pretendemos.... Quando, por fim, chegamos à fala, o colega quase não dispõe de tempo para nos ouvir ou não nos pode aconselhar por não ter o doente à frente. Seria então melhor enviar a senhora a Angra, ao Hospital? Isso, nós é que sabemos, defende-se o tipo do lado de lá, mas o melhor seria, para já, tentarmos resolver o problema a nível local; sobretudo não voltássemos a mandar doentes sem avisar, sem contactar antes, como já tínhamos feito mais do que uma vez! É que, entre o hospital, a clínica e o consultório privado, eles têm muito com que se ocupar e não é só a nós e à nossa ilha que devem prestar apoio! Desalentado, fico-me a olhar o bocal negro e mudo do telefone, e a única certeza que me resta é a de que a próxima vez que tocar vai ser para mim, vai ser uma das irmãs ou o Viegas a pedir desculpa por me maçar menos de uma hora após eu ter deixado o hospital, mas apareceu uma senhora, grávida de 37 semanas, cheia de dores, referindo perdas... Porra, e eu que detesto grávidas e as suas complicações a dobrar! No bloco operatório há um carrinho de metal polido, com várias prateleiras frias e ressonantes, em que esperam, em caixas a condizer, um par de fórceps e uma ventosa obstétrica que faria as delícias da Inquisição Espanhola.  
Quando as portas a que bato não se abrem ou, sequer, alguém atende ao intercomunicador, viro-me para o meu pai, que chateio por telefone, ou a quem, nos casos menos agudos, escrevo longas cartas que mais parecem histórias clínicas e que, Deus seja louvado, se interessa pela nossa aflição, procurando o parecer de colegas se não está à vontade na área do saber que precisamos no momento e que, no telefonema do próximo Domingo, perguntará novidades sobre o estado do Sr. Bettencourt ou a cólica da D. Crisália.
Em complemento, abuso também da João, a minha namorada, particularmente quando os casos são (ou tresandam a) doença maligna, pois se ela tem aulas ali mesmo ao lado do Instituto Português de Oncologia... É um senhor que já devia ter sido encaminhado há meses, a cirurgia está atrasada, não valerá a pena fazer nada se não for já, e Angra não dá andamento à referenciação... Ela multiplica-se nos esforços e não só conseguiu consulta como desencantou uma pensão perto do IPO, para a mulher do senhor ficar em Lisboa. Irá mesmo buscá-los ao aeroporto da Portela, quando o casal, assustado e desorientado, deixar a sua ilha no meio do azul a caminho da capital que visitam pela primeira vez.
 2.ª imagem de cima para baixo: © Fotografia de pedro serrano, Macau, 2016.


13 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 14. Domingo à tarde


A sala é grande e bebe a jorros a luz forte que lhe entra pelas janelas de sacada. A mesa é comprida e está ricamente posta. Eu sou um dos convidados de honra, de favor, pelo que me é impossível escapar à sopa nojenta com que me encheram o prato até às bordas. De pequeno que detesto todas as variações gastronómicas que incluam pão demolhado! Açordas, torradas encharcadas no molho do polvo à Bordalesa; só tolero mesmo as rabanadas a boiar no seu caldo doce, enriquecido com canela e casca de limão. Detesto, também, hortelã na comida: na canja, nos assados, seja onde for... Abomino, igualmente, todas as vísceras de animal que não tenham a consistência firme da moela ou do coração, e sangue, como ingrediente ou tempero – de que o exemplo mais flagrante é a cabidela – nem pensar! Pois, imaginem agora: a mistela que, no meio de encomiásticos gorjeios, me deitaram, à revelia dos meus olhos indefesos, no prato fundo, tem, em abundância, de tudo isto: pão encharcado, fígado, hortelã, o conjunto a boiar num sangue nojento, de um vermelho cediço, abrilhantado por vacúolos de gordura. Chamam a isto Sopa do Espírito Santo e é uma das preciosidades locais do almoço do domingo de Páscoa e, em extensão, dos domingos que se lhe seguem.
Invoco até mim as manhas que usava em criança quando era forçado a comer uma coisa de que não gostava: aferrar o nariz – como se me preparasse para  mergulhar nas ondas de um mar sem fundo, suster o reflexo do vómito, e pensar noutra coisa. E aqui vai uma colherada, cheia, para acalentar o pensamento positivo de quanto mais cheias as colheres mais depressa esvazio o prato e me livro disto... O esófago retorce-se-me à passagem do caldo viscoso e de um farrapo de miolo de pão... Foda-se, para além de a sangue e a hortelã, isto sabe a canela, o choque plástico e gustativo é similar a ter engolido uma rabanada tombada em fluido menstrual! À minha volta, os olhares das senhoras fixam-me atentamente, ansiosas pelo veredicto, pois, a título cautelar, cometera a estupidez de confessar que seria a primeira vez a comer uma sopa destas... Repelindo um naco de fígado, vertiginosamente atraído para a concha do talher, encho uma segunda colher. Tento pensar noutra coisa...
As janelas, de sacada e com varandas curtas de mero enfeite, dão para os pauis da praça. A mesma praça para onde abriam as janelas da nossa casa, quando morávamos por cima da farmácia. Mas as nossas janelas da frente eram acanhadas e a perspectiva sobre os pauis prejudicada pelos troncos e ramos mais baixos das araucárias; era uma paisagem tristonha, mesmo nos dias ensolarados. Daqui a vista é desimpedida, veem-se os dois lagos, vê-se o largo arborizado do Rossio, o coreto, as cadeiras da minúscula esplanada do Açucareiro. Agrupados em diminutas esquadras, andam patos a vogar nas águas, tranquilos, uma gaivota passou lá no alto, invejosa, deslizando o reflexo na superfície... Ao chegar à Graciosa julgava que estas piscinas eram ornamentais, embora houvesse algo de peculiar nas suas paredes grossas e abauladas. Depois vim a saber que eram cisternas, primordialmente construídas para aproveitamento da chuva, o tom decorativo, que acabara por se impor, era secundário. A Graciosa não tem água doce, não há nascentes, ribeiros ou riachos,  a ilha é chata como uma bolacha e as nuvens que passam no céu não têm onde se enredar, preferem vogar mais a sul e enamorar-se da agulha do Pico, onde ficam emaranhadas e cismam grandes névoas, despejam chuvadas ou choramingam borriços. Aqui, o clima é louco, num mesmo dia pode chover, ventar, ficar nublado ou raiar um sol aberto: a ilha está totalmente à mercê do tempo que passa a caminho de outro sítio qualquer. Ao menos nunca é muito frio, penso, reparando que a sopa foi amornando, torna-se ainda mais nauseante emborcá-la. Já ingeri grande parte do líquido, mastiguei os pedaços de alcatra, mas, acusativos farrapos de pão jazem entre os troncos de hortelã como alforrecas presas no sargaço... Vejo a dona da casa olhar na nossa direcção, expectante, uma criada, inclinada sobre a mesa, segreda-lhe algo... É um recado do hospital, telefonou a madre superiora, parece que chegou um doente muito urgente, requer-se o médico de serviço. Ora, o Rui esteve de serviço ontem, o médico de serviço sou eu e levanto-me de supetão, antes que ele, que, a meu lado, se vai refugiando em copos de verdelho, aproveite a oportunidade e se escape ao repasto!
O doente está ainda deitado na maca em que foi transportado, pousada no chão da urgência, não quiseram mexer-lhe antes que o médico chegasse. É um homem dos seus sessenta e um fio grosso de vómito escorre-lhe da boca, cola-se-lhe à bochecha flácida, escorreu para o lençol que o cobre até aos ombros. É comida, ainda por digerir, se aquilo não é sopa do Espírito Santo anda lá perto... “Sentiu-se muito mal logo no fim do almoço, de repente, quando se levantou da mesa...”, informa alguém que o acompanhou. “114/175”, segreda-me a madre superiora. Percebeu o que aquilo era mal lhe pôs a vista em cima e deparou o ar ausente, confuso, do doente, um canto da boca descaído.
“Este senhor andava a tomar comprimidos para a tensão?”, pergunto enquanto lhe tomo o pulso. Andava, de dois tipos diferentes: uns brancos e uns amarelos, envernizados... Mas não com a regularidade receitada, percebo nas hesitações ao inquérito; sentia-se zonzo quando os tomava todos os dias... Às vezes tomava só metade do branco, partia-o pela ranhura.
Quando regressei ao almoço já as cores e a tremeluzência das sobremesas alegravam a toalha e os pratos dos convivas. A dona da casa, pressurosa, quer-me mandar aquecer qualquer coisa; garanto-lhe que “não, muito obrigado”, estará para mim perfeito fazer um curto-circuito directo à sobremesa.
“Nem um poucochinho de alcatra assada, com uma batatinha?”  
Durante a tarde fomos chamados mais duas vezes ao hospital, terminámos o dia com três AVC(1)! Todos com tensões altíssimas, descontroladas, os três aparentemente desencadeados pela grande farra gastronómica do almoço de Domingo de Páscoa. Ficaram internados, dois na enfermaria dos homens, a mulher no lado da parede que lhe compete. É a mais nova, tem apenas 56 anos e, se não recuperar, vai ficar bastante estropiada e dependente. Não há grande coisa a fazer com os AVC e nem pensar em evacuá-los, não fomos bem sucedidos numa experiência prévia. O helicóptero demorou a vir, por causa do nevoeiro, e os colegas, mais velhos e experientes, do Hospital de Angra telefonaram a descompor-nos: para que tínhamos mandado aquilo, que podiam eles fazer por lá que nós não pudéssemos por aqui, e quais as vantagens em desinquietar um doente confuso, que precisava de sossego e não de ser balançado sobre as águas como um recém-nascido no bico da cegonha?! De facto, talvez eles tivessem razão, mas nós, por aqui, não temos capacidade para fazer sequer uma análise rápida ao sangue e os livros médicos revelam-se de pouca utilidade prática... E ficamos muito atrapalhados quando sentimos a gravidade de uma situação clínica a pairar sobre nós como um augúrio de remorsos... Bem, mas isto de estar vivo e de se aguentar nas borrascas da doença também tem muito de sorte, a qual pode ser de distribuição instantânea ou de ter de se esperar para ver. Os nossos três doentinhos – como lhes chamam as freiras – ficaram todos a soro, bem entalados na roupa, quietinhos nas suas camas e atentamente vigiados pelos familiares que durante a tarde vêm de táxi visitá-los das freguesias e se sentam nas cadeiras, dispostas em torno da cama, a pasmar para as gotas do sistema de soro. Eu, se não fosse um mero director interino, sem poderes reais de despesa e inovação, mandava até servir-lhes chá; não às cinco horas – para não interferir com o horário das visitas, que é das duas às quatro – mas lá pelas três e um quarto.   



(1) AVC – Acidente vascular cerebral.