30 julho 2018

SERVIÇO MÈDICO À PERIFERIA: 30. Graças celestiais

No dia dos meus anos, no fim de Junho, as freiras organizaram uma festa, uma comemoração à simpatia da qual, eu, que detesto festas de aniversário, não me consegui furtar e pela qual deambulei com estranheza. Ao fim da tarde, depois das consultas, voltámos ao hospital para uma missa que teve lugar no gineceu das irmãs, no piso superior do hospital, e onde fui autorizado a entrar pela primeira vez nesse dia. Era outro mundo, ninguém diria que aquilo existia ao lado das enfermarias e de um contexto de tossidelas e arrastadeiras: tudo muito claro, arrumado, limpo e austero, mas numa austeridade gerida com detalhada premeditação, pontuada por toques femininos como os naperons rendados onde pousava o pires de um vaso de begónia ou o pedestal de uma estatueta da Virgem. Havia até uma diminuta capela com dois ou três bancos corridos, como na igreja, e um corrimão de madeira com torneados a separar o espaço dos crentes daquele onde o padre Jorge, chamado a ajudar, oficiava em minha honra. E às sete e meia, sem transição, um jantarinho de canja e frango estufado e um doce especial à sobremesa, acompanhado por brindes em minha honra e suportados por calicezinhos de Angelica e vinho do Porto e uma madre superiora, sorridente como uma lua-cheia, desculpando-se por a minha prenda não ter chegado a tempo de Roma. As irmãs – era essa a surpresa – tinham, em meu proveito e em meu nome, encomendado uma bênção especial a Sua Santidade o papa João Paulo II, mas a pesada burocracia do Vaticano atrasara a chegada do diploma, um papiro decorado com iluminuras e texto em letra gótica, o qual só aportaria à Graciosa em Novembro. Toda a gente aclamou a feliz iniciativa e, no friso do pessoal de enfermagem presente, o contentamento rosado da irmã Noémia contrastava com o ar enjoado do Viegas, sempre avesso às delicodelícias conventuais.
Impressionado com tudo isto estava o Virgílio Senra, caído na ilha há dois dias, que, mornamente brincalhão, resumiu o seu espanto no caminho de regresso a casa.
“Eh, pá, os pinguins têm-te em apreço! Sim, senhor...”
O Rui foi de férias, umas férias improvisadas para arejar do súbito spleen que se abateu sobre ele, uma vontade de partir talvez catalisada pela minha viagem recente ao Continente e as descrições risonhas que fiz da estadia. Após aturadas e, por vezes, encrespadas negociações com o Porão da Nau, propusemos que alguém o viesse substituir durante a ausência. Do lado de lá da linha, o Porão, achava que por duas semanas não valeria a pena e do lado de cá, indignados, nós dizíamos que então viesse ele fazer as consultas, aguentar uma urgência de vinte e quatro em vinte e quatro horas, martelávamos o estafado argumento de que estavam previstos quatro médicos para a ilha e que apenas dois estavam a aguentar aquilo, sem se queixar. E o Porão da Nave, que se ia habituando ao nosso mau feitio, lá enviou à pressa um atordoado Virgílio Senra, não de todo desagradado com a mudança de ilha e a variação ao regime de hóspede do Hotel Angra.


20 julho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 29. Serenizar

Vinha sozinho do Açucareiro quando me apercebi daquilo, ali mesmo, à frente dos meus olhos. Um polícia percorria uns metros de passeio, não longe da entrada do recinto do hospital, parava, voltava para trás, refazia o mesmo trajecto, todo o percurso envolvido numa roupagem de intensa agitação. Abrandei o passo para observar melhor. Eu conhecia aquele tipo, aliás quem não conhecia toda a gente em Santa Cruz da Graciosa ao fim de seis meses? Aquele, especificamente, era um continental como eu e estava na ilha numa daquelas situações, sempre mal caracterizadas, de missão por bronca armada noutro local qualquer, isto é: penava ali por castigo. Havia muito disso por todos os Açores e, para calhar a Graciosa a alguém, o delito ou a escorregadela deviam ser especialmente gravosos aos olhos da etiqueta e dos regulamentos da Função Pública.
Mas aquele gajo, naquele momento, estava num estado de agitação mais do que evidente, perdera o rumo, o fio à meada, e caminhava, para a frente e para trás, sem fito como uma mosca volteando entre duas vidraças. E estava armado: cassetete à cinta e pistolão no coldre.
Alinhei o meu trajecto pelo seu rumo e, quando nos cruzámos, parei e cumprimentei afavelmente, interessei-me por saber se estava tudo bem, pois achava-lhe – disse – uma certa preocupação na expressão. Ele estava morto por transfundir o nervosismo que o tomava, admitiu logo que se achava alterado, que “não se sentia bem nele”.
“Ah”, comentei com naturalidade, “isso pode ser tensão alta... Há quanto tempo é que o Sr. Guarda não mede a tensão?”
Ele não a media há muito, como é óbvio; um homem a rondar os quarenta anos não se preocupa com essas coisas, a não ser que seja hipocondríaco e esses são, na generalidade, uns meros seres com a ansiedade à flor da pele. Este tipo parecia-me para além disso em termos de rotulagem psíquica.
 “Então venha aí comigo... Vamos ver como ela está e, se estiver muito alta, damos-lhe uma ajuda para a baixar; é perigoso para si, para o seu o coração, andar com ela muito acima do que deve ser.”
Ele deixou-se levar pelo braço como um menino pequeno; mas, como um menino pequeno, eu pressentia, que, a qualquer momento, podia desistir da iniciativa e desaparecer rua fora, outra vez, armado e à deriva pela vila. E o olhar dele, que evitava cuidadosamente encarar de frente para não lhe estimular a sensação de acossamento, não enganava: desvairado, de pupilas dilatadas, do tipo de quem está em pânico perante a totalidade da existência. Sentado em frente a ele, dentro do gabinete, enquanto lhe colocava a braçadeira no antebraço suado, observava de perto o couro grosso do coldre, os sulcos estriados da coronha da pistola. Do cassetete já ele se desfizera, espontaneamente, pois interferia com a posição de sentado. Sentia-me tentado a propor que desapertasse e tirasse o cinturão – “o Sr. Guarda não se quer pôr mais à vontade?” – mas acabei por achar melhor não o fazer, o homem podia desconfiar do meu receio em querer despojar um polícia dos seus ossos do ofício.
A tensão arterial estava normal da Silva, apenas a máxima nos 135, como seria de esperar num corpo tão agitado, mas, enquanto lhe tomava o pulso pegajoso, à procura do ritmo da pulsação, eu ia antecipadamente torcendo o nariz e afirmando que a tensão estava uma desgraça, que não admirava que não se sentisse bem, pois uma tensão descontrolada é uma coisa que pode subir à cabeça...
Neste encadeamento chamei pela irmã Noémia e, em voz claramente entendível, pedi-lhe para preparar um endovenoso, pois “aqui o Sr. Guarda está com uma tensão muitíssimo alta”. Ela limitou-se a acenar, como se eu lhe estivesse a pedir a receita mais natural e apropriada do mundo: tratar uma tensão alta com um poderoso medicamento para dormir e por uma via de administração de efeito imediato. E assim se fez e o nosso amigo sofredor adormeceu mesmo antes de a seringa – a freira injectava a droga muito lentamente na veia, como eu pedira – estar vazia. Em seguida, desafivelei o cinturão, fechei-o com a pistola num cacifo e fiz transportar o homem para o internamento. Enquanto a irmã Noémia lhe canalizava uma veia, telefonei para a Terceira, procurei pelo colega psiquiatra que me dera tão bons palpites sobre boleias em barcos e pedi conselho. Aconselhou que começasse, de imediato, tratamento sistémico, de maneira a acalmar o doente rapidamente e enquanto este se encontrasse num estado de relativo torpor. Depois que o enviasse para Angra, onde o estabilizariam de um modo mais permanente. Concordava comigo em que o doente não devia voltar já ao serviço ou a poder usar armas.
João e o famoso espremedor de citrinos.
A meio da tarde regressei a casa, estafado. O polícia ainda dormia o sono dos justos e na sua veia pingava um soro refrescante e terapêutico. E pensar que há pouco mais de duas semanas andava eu por Sintra! Como o regresso e o voltar à rotina da Graciosa tinham já consumido as reservas de encanto que trouxera comigo! Em Angra, no dia em que cheguei de Lisboa, o dentista arrancara-me o dente e dera dois pontos largos de aproximação na gengiva que se debruçava sobre o buraco negro, uma sutura de pontas generosas de molde a que pudesse tratar de os tirar eu mesmo, ao espelho, quando a cicatriz estivesse bem fechada – de outro modo teria de voltar a Angra e lá recomeçaria a saga de só ter transporte uma semana depois. Estive tentado, confesso... Apanharia de novo um avião nas Lajes e depois um táxi para Cascais ou para Sintra, directo para a Quinta dos Lobos, agora já sabia onde queria ficar, pediria pelo mesmo quarto com estantes onde o sol e a música de fundo dos pássaros entrava pela janela aberta e me ia lamber à cama, na qual, sem força para me levantar, jazia, abençoado, encharcado de luz, momentaneamente esquecido de onde viera e onde teria de regressar, ausente da ideia de comunicar à família que veraneava em terras continentais, e onde o meu interesse mais intenso, logo que a vontade me regressasse ao corpo lasso, seria o de me enrolar num toalhão e descer à cozinha dormente, a procurar um Compal de laranja no frigorífico, ouvir o clic da lingueta e despejar nas goelas o recheio da pequena lata. Era feito com laranjas amargas, não era um sumo completamente natural, mas era bem conseguido. Inspirado nele, comprara na vila um espremedor de citrinos, de plástico vermelho, anunciei à João que seria a primeira compra para uma futura casa. Ela olhara-me, desconfiada e apreensiva. Tinha planos para o futuro, talvez sair do país e ir trabalhar na Califórnia e agora aparecia-lhe um quase desconhecido, ele próprio oscilante nas intenções, ora próximo ora distante, a falar de lares e espremedores. Futura casa, futura, sem saber quando nem onde; por ora nem força me assistia para me arrancar ao colchão. Lá fora, a tarde caía, o quarto ensombrecia devagar, teríamos de nos levantar para descer e ir comer à vila, espreitar restaurantes e fugir quando de dentro mostrassem interesse por nós; antes ir procurar outro, até que a ameaça de ser tarde e não haver onde comer nos decidisse.
Durante os últimos dias, aflito pelo eminente regresso ao exílio como um habitante de bidonville, comprei cassetes da Amália Rodrigues, do Marceneiro, dum disco novo do Carlos do Carmo chamado Dez Fados Vividos. Fado! Onde eu chegara! Estava um autêntico emigra, emigrado num rochedo do meu próprio país, e a ideia de ter de voltar era como quem me arrancava um dente.    




© Fotografia do meio tirada por pedro serrano, Quinta dos Lobos, Sintra, Junho 1979.

  

12 julho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 28. Em Sintra, com Eça

A João tinha uma Vespa vermelha, foi nela que nos transportámos, por Cascais e arredores, durante essa semana. Era sempre ela quem guiava, eu não queria nem ouvir falar em experimentar e gostava daquela posição na ponta traseira do assento, de olhar a partir dali o que ia surgindo ou aquilo por onde íamos passando ou deixando para trás; de sentir a carícia involuntária das mechas do cabelo dela que me cocegavam a face quando, para ouvir algum comentário, me inclinava para a frente, as mãos enlaçando-lhe a cintura.
Ela não estava de férias ou convalescente de um abcesso dentário, pelo que eu passava razoáveis pedaços do dia sozinho esperando que terminasse o trabalho e voltasse de Lisboa ou que arranjasse um novo álibi para se baldar de casa. Mas também dessa espera gostava, do pequeno-almoço nalgum café da baixa de Cascais, do deambular por entre os escaparates no passeio da livraria Galileu, a única livraria onde alguma vez vira cerâmica à venda, belos azulejos decorados com rãs tridimensionais, e terrinas em forma de peixe do Bordalo Pinheiro – se não tivesse os Açores pelo meio teria comprado algumas peças. No impasse, acabei por adquirir na livraria uma edição do Eça de Queiroz Entre os Seus, um livro de correspondência entre o escritor e a, primeiro noiva, e, mais tarde,  mulher, o todo comentado por uma filha, coisa que se dispensaria pois pouco mais fazia que acrescentar qualificações superlativas ao que interessava. Aquela compra reavivou-me a vontade de ir a Sintra, além do mais agora que estava a uma modesta vintena de quilómetros... Como todos, eu dera Eça no liceu, éramos obrigado a ler pedaços da A Cidade e as Serras, detestava aquilo e as minhas memórias do escritor faziam parte de um aglomerado baço onde se entrelaçavam com o Camões, o Frei Luís de Sousa e o Alexandre Herculano, entre outros igualmente chatos. Mas o tempo rodou e por uma tarde do ano de 1978 bati à porta do Carlos Araújo, cuja casa frequentava com regularidade, para ser informado de que não estava, mas iria chegar. Fiz menção de ir embora, voltar mais tarde, mas a Mira, mulher dele, convenceu-me a entrar. Ela própria estava cheia de pressa, ia sair, mas eu podia esperar na sala de trás, o Carlos chegaria a qualquer instante. Entrei e fiquei por um sofá dessa sala, impregnando-me, à medida que os minutos passavam, do silêncio e do tédio que reinavam na casa vazia. Já se passara uma meia-hora quando comecei a olhar em volta em desespero, à procura de algo que me entretivesse. Não havia nada naquela divisão, nem jornais, nem revistas ou álbuns de fotografias, nem sequer uma aparelhagem de música, e não me sentia à vontade para ir coscuvilhar em outras. Foi a necessidade que, num porta-revistas contíguo ao braço do sofá, me levou a mergulhar num monte de novelos de lã, agulhas e um pedaço de camisola nos seus primórdios e, sob essa bagunça, descobrir a lombada grossa de um livro.
Hotel Nunes, Sintra (actualmente demolido).
“Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, li na capa. Já era castigo!
Quando, uma hora depois, o Carlos chegou, foi quase com irritação que o saudei e lhe suportei os comentários entusiasmados à minha presença, um dedo a servir-me de marcador ao naco razoável de páginas lidas. Já saltara para o interior da trama do romance e só pensava em continuar a segui-la.
“Emprestas-me esta merda?”, perguntei, displicente. Ele pareceu espantado:
“Leva! Está para aí há séculos, nem sei de quem é... Talvez da Mira, do liceu.”
Nos meses seguintes li tudo quanto havia a ler de romances, novelas e contos do Eça e, quando se aproximaram os dias de rumar aos Açores, já andava a chafurdar nas prosas bárbaras, nas folhas soltas, na biografia do João Gaspar Simões. Mas aquelas cartas íntimas nunca vira e, sentado na esplanada em socalco de um pequeno café de uma calçada estreita que subia do lado da baía, saboreava, carta a carta, a correspondência e um cigarro Brazão, a marca açoriana que andava agora a fumar e provocava olhares intrigados dos cascalenses. E voltou-me, em redobrado, a vontade de Sintra, que só conhecia verdadeiramente das descrições do escritor.   
A João achou boa a ideia de Sintra, a hipótese de ficarmos lá de um dia para o outro enrugou-lhe a testa. A melhor altura para a excursão, pois estaria livre do trabalho, seria o fim de semana, mas aí o controlo em casa seria mais apertado, o padrasto, estando por perto, podia ser especialmente severo em relação ao paradeiro das raparigas. Não que ela se queixasse ou dispusesse esses obstáculos sobre a mesa, mas eu conseguia aperceber nos seus “vou ver” o caminho pedregoso para a liberdade. Ainda antes de ontem, por conta desses apertos, vivêramos uma cena com um entrefecho curioso. Ficáramos de jantar juntos, num daqueles restaurantezinhos encantadores das ruas que iam dar à Lota, e eu fazia horas na albergaria para a confirmação telefónica da hora a que se me juntaria. Já tarde, contrariada, ligou a informar que não conseguiria jantar comigo, nem sequer sair depois do jantar; nessa noite não ia dar. Jantei sozinho, com uma vela e caracóis de manteiga dispostos numa mesa só para mim; dei uma volta arrastada pelas ruas, detive-me na montra de uma boutique a olhar um roupão de feltro, de um amarelo de saibro, que me andava a tentar há dias – era caro, mas possuía o atributo perverso de me surgir na lembrança e lamentar não o ter ainda comprado sempre que estava longe da vitrina. Voltei ao quarto, li quatro ou cinco cartas, apreciei aquela despedida “sempre teu do coração” que Eça, por vezes, usava e, embora nem fossem onze, apaguei a luz, pois pensei sentir o sono. Nada, falso rebate, apenas a ilusão do tédio a pesar nas pálpebras. Não tive dúvida de que ia passar por uma insónia, uma daquelas azedas e duras de roer como talo de couve. Engoli então um Somnium e entreguei-me à indulgência do bendito esquecimento. Mas o telefone tocou e, naquele sobressalto condicionado pelo hábito do estar de urgência, atendi. Mas quem poderia ser, ninguém sabia que estava aqui! Que me quereriam da recepção a uma hora daquelas? A chamada era do exterior e ouvi a voz da João, contente e triunfante, a comunicar que, afinal, ia conseguir sair, estaria à porta da albergaria dali a dez minutos, o mais tardar; de lambreta, à noite e sem trânsito, era um tirinho até mim.
Bar do Hotel Estoril Sol.
Ora acontece que, está descrito, é assim que aquele tipo de substâncias é usado  recreativamente: os hipnóticos da família química da metaqualona (como o Somnium, o Quaalude ou o Mandrax), quando são tomados e se resiste ao sono inicial, provocam peculiares efeitos: um bem-estar lânguido e, posteriormente, uma absoluta falta de memória do que se passou enquanto se esteve sob o efeito. No meu caso, nunca mais me lembrei que tinha tomado o comprimido e o assunto só me preocupou um pouco enquanto descia no elevador para um serão que, afinal, não tinha terminado ali. Estava uma noite maravilhosamente tépida e, voando abraçado à cintura da Vespa, olhava enfeitiçado o cume branco das pequenas ondas que, ronronando, subiam da praia em direcção ao paredão da marginal. Íamos ao Estoril, passar um tempo no bar do Hotel Estoril Sol, onde havia sempre música ao vivo. Recordo a chegada, a travessia sob a pala tipo Niemeyer que cobre a entrada principal, a sala panorâmica e um tipo a tocar piano para os hóspedes. Depois parece que pedi uma cuba-livre ou um gin-tonic; o resto contou-me a João, mais tarde, já em Sintra, divertida. Eu não me lembrava de absolutamente nada! Nem de me levantar do nosso cantinho para ir pedir ao pianista que tocasse um determinado standard – embora esse gesto fosse compatível com a minha maneira de ser –, e muito menos de ter passado uns bons pedaços cantando, apoiado ao piano, para quem estava presente no salão.
Bem, pior tinha acontecido ao Leonard Cohen, comparava eu, sentado à mesa da esplanada do Hotel Central, o compositor canadiano, conhecido por Capitão Mandrake nos anos 70, uma piscadela de olho ao Mandrax, de que era cliente. No Festival da Ilha de Wight, acordado às duas da manhã para cantar para 600.000 pessoas, fizera-o pouco após ter tomado uma coisa daquelas no camarim, precisava dormir e julgava só ter de se expor ao público muitas horas mais tarde.
“Eu, ao menos, só cantei para uma meia-dúzia...”, concluía olhando, do outro lado da rua, no palácio, as imensas chaminés cónicas, que se viam de todo o lado, tão desmedido era o seu tamanho. O Eça falava daquilo!

Fizéramos a viagem até Sintra num átimo. Ainda agora estávamos a sair de Cascais, a passar pelo supermercado Pão de Açúcar e a virar pela avenida acima, num cálido começo de tarde, e não muito depois já o tempo se tornava fresco como numa adega e rolávamos sob um arvoredo que cobria o asfalto, um toldo verde e tremeluzente que não mais nos largou até que pousámos a Vespa, para um merecido repouso, no largo do Hotel Central. A minha ideia era deambular por ali, sem pressa nem fito, aquilo não era assim tão grande que a qualquer momento não fossemos tropeçar na Lawrence (onde Carlos da Maia procurara a loura dona de uma cadelinha chamada Niniche) ou no Nunes, onde o Cruges encontrara o Eusebiozinho com as duas putas espanholas e se acabara por esquecer das queijadas... Será que a confeitaria onde provava uma daquelas nozes caramelizadas tão fantásticas, e onde também vendiam travesseiros e queijadas, já existiria no tempo dos ‘Maias’? Poderia ter sido ali, a uma daquelas mesas, que nascera a referência do Eça?
Hotel Lawrence, Sintra.
Após explorarmos o centro da vila começámos a subir em direcção à serra, por entre vivendas antigas e ajardinadas, que pareciam adormecidas sob aquela luz esverdeada e loura que rompia por entre a ramaria. Já acima do nível de vila, onde a densidade das casas rareava e fora substituída por muros e portões de quintas, demos com uma tabuleta que indicava Quinta dos Lobos e informava tratar-se de um “bed and breakfast”. Por entre as grades do portão apreciámos a moradia, enquadrada por arbustos e flores, uma casa antiga e com as janelas bebendo a luz da tarde. O dito local pareceu-nos a perfeita âncora para o sem rumo que prosseguíamos nesses dias. Era gerido por um casal de estrangeiros, tinha apenas três ou quatro quartos e o que acabou por ser o nosso continha mobília antiga e prateleiras com livros, como se ali habitasse alguém que nos cedera o quarto para a noite. Quanto ao pequeno-almoço, explicou-nos a senhora ao mostrar-nos a cozinha, podia ser tomado ali a qualquer hora, a torradeira estava em cima de uma cómoda e no frigorífico havia fiambre, compotas e sumos enlatados. Aliás, podíamos servir-nos do que quiséssemos a qualquer hora. Eles deixavam de estar por ali a partir das oito da noite e nós ficaríamos na posse das chaves do portão e da casa. Queríamos nós perguntar mais alguma coisa?  
Voltámos à Quinta dos Lobos uma e outra vez ao longo daquele ano e de cada vez que consegui vir da Graciosa até ao Continente lá íamos como que em romagem, uma romagem que abrangia Sintra, a Várzea, Colares, o caminho arborizado para Cascais e as viagens na lambreta. 



© Fotografia ao lado: Hotel Central, fotógrafa: João Berhan, Sintra, Junho 1979.