04 junho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 1. Gambas à la planche

E a vida que era um tão longo processo de asfixia... 
Não estava no local mais consentâneo – aguardava uma dose de gambas à la planche, a especialidade da casa – mas fora um pensamento que, mal fechara sobre si a porta da garagem do Centro de Saúde, se lhe colara ao espírito como um chiclete à sola dum sapato. 
Meteu a chave ao bolso e espreitou pela esquina que permitia ver a fachada do edifício. Anoitecera, porém, a horda continuava lá, apinhada à porta da Urgência, à espera. Já de manhã tivera de se haver com alguns deles. Fartara-se de repetir – aos filhos, ao viúvo, à nora – que nada podia adiantar: era Domingo, era uma morte violenta, o ónus da decisão cabia ao Delegado do Procurador da República, ausente em parte incerta. Mas eles insistiam numa previsão da hora do funeral, esganiçavam-se sobre o ser preciso combinar com o padre, lavar e vestir a mãe…. Respeitoso, rodando a aba do chapéu preto entre os dedos, o viúvo atrevia-se, repetia-se:
“Bem vê, Sr. Dr., o tempo vai quente: amanhã já deve cheirar.”
Oh sim, nem ele calculava como; aliás já cheirava qualquer coisa, não ainda o infecto perfume da putrefação orgânica, mas uma mistela, igualmente inesquecível, de pólvora e vísceras ao léu. Disse:
“Eu sei, amigo, já de manhã falámos nisso...”
E fora nesse ponto da argumentação, enquanto os vultos de escuro se agitavam à sua volta, que decidira pelas gambas. Nada de carne: umas gambazinhas com aquele molho mistério que o Maximino aprendera na tropa; uma espécie de mimo a si próprio para pincelar a agrura do feriado. Para se desprender, foi prometendo:
“No fim digo-vos o que puder…” 
E, deixando a horda a esbracejar, raspara-se para o interior do edifício em direcção à cave, onde ficava a garagem.
“Quer ajuda lá em baixo, Dr.?” perguntou o enfermeiro, que fumava pensativamente um cigarro encostado à ombreira da sala de observações da Urgência.
“Obrigado, Soares, acho que não. Vou só tapá-la das moscas.”
Todavia, a oferta fê-lo reconsiderar e, pousando uma mão no ombro do homem, pediu: 
“Arranje-me um frasco de Cetavlon, uma pinça de dentes e uma molhada de gazes enquanto passo pelo gabinete a pegar a ventoinha – vou pô-la lá em baixo a soprar. Sempre é melhor que nada.”
O enfermeiro, como se encolhesse os ombros, arregalou as sobrancelhas acima da armação dos óculos de aros dourados. Era assunto mais que batido entre eles, aquele da estupidez de quem concebia equipamentos de saúde em Portugal. Onde já se tinha visto? Um edifício estreado há três anos, apetrechado com o último berro da tecnologia, como afiançara na inauguração um dos quatro ministros presentes e, aparentemente, ninguém se lembrara de que as pessoas morrem, que é necessário arrecadá-las, que, por vezes, é preciso proceder a uma autópsia. Estavam nos anos 80, porra! Mas nada: nem morgue nem sala mortuária, nem frigorífico onde coubesse um corpo. Que imaginavam eles? Que iam deitar os cadáveres numa das camas do internamento? Que os iam manter arrefecidos na arca congeladora da despensa, entremeados com as febras e as postas de pescada?! 
Já mesmo assim era um inferno improvisá-los por uma noite ou duas na garagem, espichados na mesa de carpinteiro que sobrara das obras, ao lado do Land Rover. De cada santa vez tinha de ouvir das boas às auxiliares, borradas de medo com aquelas presenças intranquilas, algumas recusavam-se a descer as escadas para a cave. Um dia fora vista uma ratazana a cirandar na garagem, a cobiçar o morto; houve que isolar as pernas da mesa, mergulhá-las em latas com gasóleo, dar um cheiro de Valium à Alcina, mais transtornada pelo roedor do que pelo defunto e que, incomodada por estar deitada numa marquesa em vez de a trabalhar, se justificava:
“Eu sei, Dr., nem sequer acredito muito que os mortos voltem para nos apoquentar, coitadinhos; mas o que quer - é mais forte do que eu, é como com os ratos.” 
“Então, hoje fica cá dentro? Com este tempo!"
Levantou os olhos da toalha de papel onde traçava riscos. Clara acercava-se com a ementa e um sorriso. Baixou a voz quando ela se inclinou a recolher a toalha usada.
“Sabes, aquilo lá fora está um bocado perigoso... Estou a ser muito requisitado.”
“Já ouvi dizer...”, respondeu ela com um acento sombrio, “a notícia chateou-me – eu gostava dela, sabe? Era boa mulher, chegou a trabalhar aqui. Nunca imaginei que fosse pessoa para fazer isto, mas, também, o que é que a gente sabe do que vai na cabeça dos outros?”
“Exactamente…”, concordou o cliente iniciando riscos na nova toalha, “mas não te adiantes em palpites, que ainda não temos autorização do tribunal para abrir o bico...”
“E então o que vai ser?”, quis ela saber, recuperando o tom e o sorriso como quem tira um lápis da estante da orelha.
“Olha, pede-me aí ao Maximino uma dose de gambas, bem picantes, e uma travessa de batatas fritas… E um fino, gelado, já já... Estou a precisar de um luxo no estômago…”
Ficou-se a vê-la atravessar a sala, carregada de pratos, a empurrar a porta de vaivém para a cozinha com o rabo, um gesto prático e sensual. Sentiu como que um raio de sol atravessar os pensamentos, era esse o efeito que Clara tinha em si.

(continua)

© Foto de baixo: pedro serrano, Penaformosa, 2016.

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