09 novembro 2020

A FUGA DO PAI NATAL

Coitado do Gerónimo de Sousa. Será que ninguém, lá em casa, lhe poderia dizer que, enfim, não existe Pai Natal, e, portanto, arredá-lo um pouco da boca de cena e das luzes? Suponho que não, afinal, por ali, vive-se naquele ambiente de quimera, do vermelho e das renas voadoras, é um pouco como se fosse um gueto no Polo Norte. Mas, insisto, alguém lhe deveria dizer que, enfim, todas estas medidas anti-Covid19 ultrapassam as miríficas liberdades, que ele gosta de supor e menos de praticar, que são mesmo necessárias, e não se compadecem com organizações e princípios organizativos, nomeadamente com um Congresso que ele vai ter daqui a uns dias. 

Houve uma falha na Natureza e, por ela, entrou alguma coisa que, embora invisível, é, portanto, mais forte do que tudo o resto, varre tudo o resto, e que, enfim, em boa verdade, ninguém lhe quer fechar os brinquedos no armário ou chamar de volta o papão antigo. Ninguém está interessado nisso, ninguém tem tempo para isso.  Explicar-lhe, também, que, enfim, não é somente com reforços no Serviço Nacional de Saúde que se resolve isto, de algum modo isto não tem a resolução clara e simples com que ele sonha, se ele mandasse, e, coitado, o seu querido Serviço Nacional (o alfinete de peito que restou das conquistas de Abril) está escavacado de todo - como se tem assistido nestes últimos anos e particularmente por estes dias - e que para isso ajudaram bastante alguns daqueles que, ar grave e digno, se aprestam agora a assinar cartas-abertas, a pagar pelo destinatário, e a propor cuidados-intensivos que o ressuscitem, mas que, enfim, praticaram absolutamente o inverso quando estavam por lá sentados e, conscienciosamente, fizeram do SNS uma coisa para adultos, baseada no sólido princípio "se quer receber pague, se não puder pagar fique a assistir", pode ser que chegue a sua vez, uma vez que os impostos só pagam a máquina das senhas.


Pobre Gerónimo, apertou-se-me o coração de o ver ali, visceralmente incapaz de recorrer à manha e à banha de um Ventura, perseguido por câmaras e microfones, aflito, sem perceber, portanto, o mundo em que se move e o que lhe está a acontecer, balbuciando em torno de teorias de conspiração e almejando bravatas que já não consegue inspirar. No fundo, no fundo, enfim, isto do vírus, ele sempre desconfiou que poderia haver ali outra coisa mais sinistra. Entre as máscaras, o gel e, portanto, a democracia, o seu coração balança, sempre balançou. E o pobre homem ali fica, na boca de cena, confuso, pasmando para uma hipotética democracia interrompida, fazendo lembrar o velho palhaço-pobre, que, sob um candeeiro de iluminação pública, no chão pisoteado da tenda já levantada, não se apercebeu que as roulottes e as autocaravanas já seguem estrada fora e ele ficou ali, sozinho, portanto esquecido, recortado na noite que arrefeceu.  

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