20 novembro 2020

UM SONHO DE VACINA

Em Janeiro (se Vénus ajudar) teremos entre nós uma vacina anti-covid e, "lá para o Verão", (havendo alinhamento entre Andrómeda e Cassiopeia) uma parte "muito significativa" da população estará vacinada. Tudo isto foi garantido ontem (19 novembro), aos portugueses lá em casa, por Maga Temydo e pelo Professor Infar Medu, pois como a realidade é, actualmente, assaz sombria e ambos detestam assumi-lo, viram-se forçados a migrar para os domínios sonhadores da futurologia.

O Presidente da República, presente na feira de levante onde tudo se passou, ainda tentou que o alto responsável concretizasse um pouco, mas o homem não saía do registo de "segundo as melhores informações", "se tudo correr como o esperado", "se a agência europeia do medicamento...", um jardim de 'ses'. E uma grande alegria, convenhamos, uma enorme vontade, em ambos, de comunicar e gerar momentos de rara cumplicidade com os portugueses lá em casa, esgazeados de cor-de-rosa nos sofás.

Mas como iria a vacinação ser feita, insistia o Presidente, que, agarrando-se ao exemplo da vacina da gripe, elencava possíveis dificuldades, atrasos. Mas oh que porra de exemplo fora o mais alto magistrado da Nação desenterrar! A gripe?! Então o Ministério tinha andado a convencer toda a gente a vacinar-se, mas, depois, houve aquele atraso na encomenda de vacinas [revejam-se notícias de Junho de 2020] e elas não chegaram, nem nada que se parecesse, para a procura... Uma maçada, um fiasco, e o Presidente ia logo escolher aquele caso isolado infeliz? Bem, mas aquele, não podia o Professor Medu contrariar e, sintonizado num inabalável sorriso, lá foi largando a sua cortina de fumo: pois, ainda não se sabia muito bem, era uma matéria que a Comissão (recém-formada) iria estudar, baseada nas melhores informações; talvez a vacinação fosse em massa ou, então, em campanha... Será que o Professor quereria significar Campanhã (pois, a Norte, as coisas estão mais assanhadas do que em Santa Apolónia) e, em vez disso, pronunciou campanha? Nunca o saberemos, com as profecias há sempre incerteza.

O que sabemos, de fonte segura, é que nenhuma das cinco potenciais vacinas mais adiantadas foram ainda aprovadas e todo o assunto se transformou numa guerra comercial de quem chega primeiro aos escaparates. E mesmo se não vier a chegar primeiro, as acções da Pfizer já subiram por aí acima. Se bem se recordam, há ainda escassos dias a farmacêutica americana fixava a eficácia da sua vacina nos 90 %. Mas logo apareceu a Moderna a publicitar que o seu produto ia aos 94,5 % e a Pfizer  apressou-se a comunicar que, afinal, a eficácia do seu produto era de 95 % e, mais, que não tinha efeitos secundários, algo que, com honestidade, não se poderá afirmar a não ser quando a vacina já estiver em distribuição, um número significativo de pessoas estiver vacinada, passar o tempo suficiente (meses ou anos) e forem reportados esses efeitos! Resumindo: já está tudo a postos para vender um produto sobre o qual não há resultados definitivos publicados e que não passou pela etapa fundamental de ver esses resultados (e método para lá chegar) avaliados e sancionados pela comunidade científica internacional. Todo o processo ronda a publicidade enganosa ("esta é boa para velhinhos", gritam outros) e a falta de ética profissional, que a ciência costumava praticar. Entretanto, mais atrasados estão a Astra Zeneca-Oxford (que aparentam ser mais sérios na condução do processo), os russos, que olham para a vacina como para um foguete, e os chineses, atarefados a conseguir duas variantes à vacina: uma com sabor a molho de ostra e outra, especial para vegetarianos, com pedaços de bambu.

Voltando ao nosso fumeiro: nem Maga Temydo nem o Professor Infar Medu nos explicaram algumas coisas fundamentais e que, para quem anunciou a vacina para daqui a mês e meio, já deviam saber ou, pelo menos, ter equacionado com clareza e detalhe:


a) Que vacinas irá Portugal receber neste princípio de Janeiro, segundo Themydo, e "eventualmente em Janeiro", segundo Medu? A da Pfizer ou a da Moderna (uma vez que as outras ainda estão no limbo). Se for a da Pfizer, como tenciona o Ministério da Saúde resolver o gigantesco problema levantado pela necessidade de conservação a 70 graus negativos, requisito que irá implicar a aquisição e montagem de uma complexa rede de frio? Irá ser necessário, sempre assegurando aquela temperatura, levar do aeroporto até algum armazém central as embalagens contendo as vacinas. Daí, terão de ser transportadas (em camiões que cumpram as condições térmicas extremas) até aos, digamos, armazéns das 5 regiões de saúde (Porto, Coimbra, Lisboa, Évora, Faro), armazéns que deverão, igualmente, garantir os tais menos 70 graus e, daí, terão de seguir ainda para cada centro de saúde, unidade de saúde familiar ou farmácia, locais onde as vacinas são habitualmente administradas. Tudo isto sempre a menos 70 graus, para garantir a estabilidade e a eficácia da vacina, sabendo nós que em países como o Japão, por exemplo, não existe actualmente um único equipamento que garanta tal requisito térmico. Ou tenciona Portugal levar a Lisboa todos os portugueses ao aeroporto para que sejam vacinados nas escadas do avião de carga? Ou desenrascar a coisa caseiramente com recurso a sacos térmicos do Continente, malas de esferovite do Pingo Doce, ou sacos de gelo das bombas de gasolina? Ah, senhores do Ministério, não esqueçam que, em tudo isto, terão ainda de pensar num arquipélago com 9 ilhas (Açores) e num outro com 2 (Madeira).

b) Outro aspecto sobre o qual me interrogo e, penso, como eu dez outros milhões de chatos. Quantas vacinas nos vão chegar em Janeiro? E de quem partiu a iniciativa da encomenda? Escolhemos e pagamos nós o que consideramos mais efectivo, ou é uma daquelas benesses da UE, em que nos arriscamos a ficar para o fim e com o que sobrar? 

Em relação à vacina da Pfizer, pelo menos essa, a quantidade que nos chegar terá sempre de ser dividida por 2, pois a vacinação completa de cada pessoa exige duas doses, intervaladas cerca de três semanas (outra dor de cabeça logística, como tão bem sabem os serviços locais de saúde pública e as enfermeiras da vacinação). Seja-me permitido um pequeno exercício prático: se as primeiras pessoas a vacinar forem os profissionais de saúde (como deveria acontecer, pois é fundamental garantir, desde logo, que continuam em bom estado de saúde para poder tratar o resto do país), isso exigirá cerca de 300.000 doses de vacina. Ou seja: tranches inferiores a cinco ou seis centenas de milhares para pouco irão servir ou, na melhor das hipóteses, atrasarão o processo e darão cabo do prazo que nos garantiu o professor Medu (será que o homem se referia ao Verão de 2022?).

Várias destas dúvidas, e problemas a resolver, deveriam ter sido postos sobre a mesa da tal sessão de que tenho vindo a ocupar-me. Mas que nada: o que mais lhes interessa é manter as constelações alinhadas e as estrelas a brilhar. Foi constituída, já está nomeada, uma Comissão dedicada exclusivamente à vacinação Covid, revelou o Professor Medu com um brilhozinho de zelo nos olhos. Fui ver... Sim, lá está, uma série de gente da mais diversa proveniência, onde estranhei não ver a presença de um único médico especialista em Saúde Pública, daqueles que, em todo o mundo, são responsáveis nesta área desde que existem vacinas e programas de imunização. Em Portugal são mesmo os serviços de Saúde Pública que, por lei, são responsáveis a nível local (nível em que as vacinas são inoculadas nas pessoas) por todo o processo de planeamento, vigilância e avaliação desta actividade. Mas, no mundo das aparências, o pormenor não sobressai: espera-se desses médicos e enfermeiros que, e como foi dito por um alto especialista na tal feira de levante, "depois colaborem". Entretanto, enquanto não são convocados a colaborar, são mantidos entretidos com inquéritos epidemiológicos e rastreios de contactos (esses, sim, em massa) que já não servem para quase nada, dado que numa fase de disseminação comunitária, como aquela em que estamos, qualquer um pode ser suspeito de poder infectar outro e os surtos já não se conseguem individualizar, já pouco interessa saber quem infectou quem enquanto não voltarmos a um número de casos razoável.

Mas não desesperemos. Ouve-se que aqueles que zelam por nós não dormem! Maga Temydo foi vista no aeroporto, sobraçando uma tripeça, e fontes, que pediram para não ser identificadas, garantem ter ido até à Furna do Enxofre, nos Açores vulcânicos, para aí instalar o seu banquinho e, inspirada nas emanações sulfúricas, produzir cruciais profecias sobre a pandemia. Quanto ao Professor Medu, esse também não cochila em serviço, e ter-se-á sujeitado a um boost intensivo da totalidade dos episódios da série Sim, Senhor Ministro. Por tudo isto, caros leitores, tenhamos fé e Viva Portugal!

 

Nota: a primeira imagem é fragmento da capa do álbum One Size Fits All, de Frank Zappa, 1975

 

 

 

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