17 novembro 2020

UMA LOURA EM APUROS

O gráfico da DGS mostra o número de mortes, por todas as causas e por mil habitantes, referido a Portugal e actualizado a 17 novembro. A mancha mais espessa (castanha) representa, para os meses do ano de Janeiro a Dezembro de 2020, essa tendência nos últimos dez anos (2009-2019), e a linha azul as mortes que o país sofreu desde Janeiro até agora. Uma montanha russa em ascensão ou, antes, uma montanha ibérica, pois se formos comparar, por exemplo, com as mesmíssimas curvas dos países nórdicos, nada disto sucede, sofrem de uma curva tranquila, sem cumes ou aflições especiais. O que nos estará a acontecer, a nós, que entramos no final do outono e nem sequer a gripe ou o frio a sério ainda começaram? Será o Covid? Será quem fica por diagnosticar, por outras doenças e tratar, por causa do Covid? Neve não é certamente e a chuva não bate assim...

Claro que, por cá, a DGS diz que esta mortalidade está "dentro do esperado" (é o que diz sistematicamente) e a nossa loura da Saúde, e os seus anões, evitam comentar ou extrair ilações práticas que resultem em medidas concretas ou alimentem o planeamento do futuro, sempre com medo que apontem o dedo ao ministério, preferindo entreter-se a intoxicar os portugueses com granel: que o refeitório de um determinado hospital vai ser transformado em pavilhão de cuidados intensivos (em fundo a imagem de um senhor num escadote, a martelar um prego pachorrentamente); que quatro doentes foram transferidos do Norte para Lisboa, como se nos resumisse um movimento de jogo num campeonato de damas (em imagem de fundo, o secretário de estado jura que o SNS é flexível como uma trapezista e tem virtualidades insuspeitas, como um canivete Suíço). Mas será que um ministro não tem mais para comunicar do que o rol da lavandaria?,

Ontem, perante a realidade que tudo varre à frente, a senhora, por entre dentes, lá teve de confessar [telejornal SIC] que o tal sistema flexível, que acomodaria tudo quanto aparecesse, afinal "por muito que façamos não há sistemas totalmente inlásticos", e apertou tanto os dentes e torceu tanto a língua que justapôs a  elásticos um prefixo que não era o para ali chamado; de facto o que estava a ser obrigada a admitir é que a flexibilidade já era, mas isso, como admitir as vantagens do uso de máscaras, custa, custa! Custa-lhe, pois depois as TV vão buscar imagens de declarações anteriores, vem aquele Polígrafo, que devia ser proibido! 

Neste era-e-não-era, passou-se algo de semelhante no episódio do recurso aos serviços de saúde privados para ajudar na pandemia. Ainda há quinze dias ela dizia (e se insinuava através do inefável, inalterável e inamovível presidente do conselho de administração da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, agora refém dos militares), dizia, zangada e cheia de razões, que privados nem pensar, pois andavam a tentar parasitar o SNS, etc. Pois, talvez, mas a realidade é a realidade, e é missão de um Ministro antevê-la, navegar por ela e pelos seus escolhos, pois o vírus nem pestaneja com os amuos, ideológicos ou outros. Resultado: lá teve de ir negociar com os privados, inferiorizada pela atitude anterior, aceitando condições que, duas semanas atrás, poderiam ter sido mais macias para o orçamento do erário público. É o que sucede quando se anda a reboque, que é como parece mover-se o Ministério, a reboque do que já aconteceu, do que se diz, a cheirar a cauda a comentários, aflito com as cólicas de pressões avulsas - sem nada para mostrar que corresponda, minimamente, a um planeamento estratégico. 

(Vai formosa e não segura).

Teremos, dizem a cada telejornal, mais não sei quantas camas de cuidados intensivos até ao fim do ano: foi para Diário da República, estão a ser feitas obras, mas acontece que o desastre é agora, não é no fim do ano. E se, no meio do caos, alguém pensou e tentou prever, antecipar medidas fora-da-caixa (como é o caso de alguns hospitais ou de algumas autarquias) lá vai chicotada, lembretes de hierarquias, bloqueios na comunicação e nas finanças, remexidos na bancada. Se é com isto que pretendem enfrentar um vírus que, enquanto esbracejávamos, se aperfeiçoou na capacidade de ataque, estamos fritos. 

 

Nota: Quanto às vacinas, não vamos longe com esta - a da Pfizer - que necessita de frigoríficos a 70 graus negativos para a conservar (o congelador de um frigorífico caseiro anda pelos 4 a 5 graus negativos e as arcas congeladoras pelos 18 a 30 negativos). Com arcas a menos 70, em Portugal, apenas dois ou três serviços centrais (se tanto), muito especializados e longínquos da vocação da prestação de cuidados de saúde. A assim ser, a vacina anunciada será pouco mais do que um feito teórico, pois a rede de frio que implica até chegar às pessoas, as que têm de ser vacinadas, é tremenda, praticamente impossível de obter tecnicamente ou a preço incomportável para uma aplicação maciça. É a diferença entre eficácia (pelos vistos a vacina é 90 % eficaz, o que é muito bom) e exequibilidade (é muito boa, mas se não se consegue chegar lá, como as uvas da fábula da raposa).  

 

1 comentário:

  1. Excelente!
    Mas há um pequeno acrescento que faço e pode ficar para futura discussão.
    Para além dos graves problemas na gestão política do assunto, que passa muito pela opacidade, falta de transparência,e uma permanente postura de fingir que se faz mais do que de facto se faz, há um problema transversal das instituições portuguesas, nomeadamente nas da saúde e nomeadamente da DGS em que a cultura da opacidade, de fingir que é uma instituição capaz, quando sempre foi apenas uma chafarica de vão de escada, sem recursos, e sempre sujeita ao abuso político das hierarquias.
    Está cultura de opacidade, em que não se deve por em causa as próprias vulnerabilidades das instituições como a DGS, mas sempre mascará-las, não nos está agora a ajudar...

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