25 setembro 2010

SEM RESPOSTA

Já não sei ao tempo que foi: uma semana, duas semanas, talvez três. Às vezes entrava na cozinha e cheirava-me a gás. Experimentava o esquentador, os botões dos bicos do fogão. Tudo normal. Uma vez, o Zé João chegou a casa, entrou na cozinha, disse: “Ó pai, cheira a gás, não cheira?”. Gás é uma coisa tremenda, fartei-me de ir confirmar óbitos por causa disso, as pessoas caem numa espécie de anestesia, as pernas ficam pesadas, a vontade ausente, adormecem, acordam mortas. Telefonei ao Sr. Lúcio, talvez ele conseguisse resolver o assunto ou, pelo menos, apontar uma via de resolução.
O Sr. Lúcio é a pessoa a quem costumo recorrer, aí de dois em dois anos, para levar o esquentador da água e lhe fazer uma limpeza à serpentina, pois o calcário da água desta zona entope aquilo que se farta e depois não aquece nada. Nas horas vagas o Sr. Lúcio é bombeiro voluntário e foi na sede dos bombeiros que o procurei. Que não estava, disse-me o tipo da recepção, era o seu dia de folga. Então telefonei-lhe. Veio cá no mesmo dia.
Pouco falou enquanto passava uma trincha, embebida em água com detergente, ao longo de toda a canalização. Apenas explicou: “Se houver alguma fuga faz logo uma bolha enorme”. De resto pouco mais disse enquanto estava a fazer o serviço. O Sr. Lúcio é um tipo moreno, de barba façanhuda, com um ar um tanto mal encarado; olha-nos com ar rude, fala com tom seco. Também… Bem, pode ser feitio, mas aquele homem tem um desastre na vida dele capaz de pôr de quatro qualquer um. Na altura ouvi falar, talvez a Vera, que, acho, era a médica de família da menina. Ele tinha uma filha, dos seus sete ou oito anitos; cancro cerebral, inoperável, irremediável. Aquilo arrastou-se anos. Uma vez, ia na rua, e bateu-me no estômago o murro de uma visão violenta: uma miúda dos seus sete ou oito anos, uma pálpebra vazia e sinais de um olho que fora extraído recentemente. Que violência!, pensei, e levantei o olhos da cena para dar com o olhar (protectoramente fixo e pronto a desfazer-me se eu violentasse aquele espaço) do adulto que a acompanhava, um homem moreno, de barba façanhuda e ar de poucos amigos.
Um dia precisei de arranjar o esquentador a gás: a água deixara de aquecer devidamente. Calcário, disseram-me logo, por que não experimentava o Lúcio “Bombeiro”, um profissional competente. Deram-me o telefone.
Quando ele cá veio a menina morrera já há uns bons meses, talvez um ano. Toda a gente soubera disso, os pais tinham ficado na merda, completamente à toa. No fim do serviço fui com ele até ao carro e ao apertar-lhe o bacalhau aproveitei para lhe falar da filha, dizer-lhe que… Lembro-me lá já do que lhe disse. Não respondeu, olhou-me com aquele ar zangado do costume.
Ontem foi parecido. Não encontrou nenhuma fuga de gás, fez-me umas recomendações de alerta, fui levá-lo ao portão. Ao despedir-se, perguntou:
“O doutor escreveu um livro, não escreveu? Diz-me onde posso arranjá-lo? Gostava de o oferecer no Natal a uma pessoa…”
Soube, de imediato, do que estava a falar. Lamentei não ter nenhum exemplar em casa para lhe oferecer, dei-lhe o contacto telefónico da editora, pois pareceu-me bastante determinado a adquiri-lo.
Já o Sr. Lúcio estava sentado no carro, ainda com a porta aberta, quando achei por bem, não fosse haver confusões com a editora, concretizar:
“Suponho que o que o Sr. quer é o Coração Independente, o livro que escrevi sobre uma doença que tive. Não sei se sabe, tive um… (ia a dizer cancro, mas emendei) um enfarte e…”
“Eu sei”, respondeu, seco, “fui eu que guiei a ambulância que o transportou até ao hospital…”
Fiquei a olhar para ele. Despedi-me. Foi-se embora, sem me levar nada.    


© Fotografia: Pedro Serrano, 2007.