10 setembro 2010

VOU-TE CONTAR: 24. Os três estados da matéria

É onde a intuição intercepta a consciência e ali, dentro de minutos, vai passar a carruagem que me levará ao apeadeiro da acção concreta. Por vezes, sem saber como acontece, acontece-me passar por lá, é uma encruzilhada poderosa, a crer nos resultados. Por exemplo:
Uma manhã resplandecente de Maio, catorze anos atrás, ao espelho, enquanto faço a barba, apercebo-me de que aquele papito no lado esquerdo do pescoço pode muito bem ser um cancro. O alto já ali anda há uns quinze dias, talvez mais, via-o todos os dias ao espelho mas a sua percepção morava abaixo da linha de água da consciência, foi só nesse dia que cristalizou e se encaixou em mim sob a forma de um pensamento que me empurrou a agir e procurar saber qual a sua natureza. Era um cancro.
Mais recentemente, não faz um mês, algo de semelhante... A Mia começou a andar estranha, parecia-me: a dormir pelos cantos, menos vigil; comia pouco, há dois ou três dias deixara quase mesmo de comer – não muito mais indícios do que isto. E um dia, exactamente igual aos precedentes, olhei-a, pensei que talvez  pudesse andar a chocar uma doença grave dentro de si, que poderia estar a agravar-se e matá-la. No momento em que essa constatação me flutuou à tona da consciência, peguei nela e levei-a ao veterinário.
“A sua gata está mal, tem uma  infecção brutal no útero”, comunicou o veterinário no fim da ecografia, “ela já deixou de comer?”
Confessei que sim, na véspera já só cheirara os biscoitos da ração, nesse dia só bebera água...
“Então foi por um triz... Quando deixam de comer vão-se num instante!”
A Mia foi operada nessa mesma tarde, tinha a barriga num estado miserável, cheia de pus; ficou sem útero e sem ovários, mas está bem outra vez e foi com alegria que a trouxe para casa, pois nestes dias sem ela dei-me conta como faz parte da minha história dos últimos sete anos, do meu bem-estar.  
Nove de Novembro de 2007, sete horas da noite. Estou na cozinha, acabei de passar a varinha mágica numa panela de base para sopa, voltei a pousá-la no disco do fogão para que acabe de apurar. Silêncio total na casa, no chão da cozinha a Mia olha-me e espera, como geralmente sucede quando há uma perspectiva de comida envolvida. Estou a pensar no meu pai e nos telefonemas do dia que fizeram as minhas irmãs. Está acamado há cerca de um mês e há cinco dias constipou, apareceu uma tossezeca, tem alguma expectoração, nada de febre. Por causa das coisas, prescrevi um antibiótico leve, um expectorante, para que os pulmões não encharquem. Vou perguntando o básico: tem urinado, tem comido, tem febre, as pernas incharam? Tudo parece mais ou menos tranquilo. Durante a tarde as minhas irmãs telefonam, o pai parece ter hoje mais expectoração, depois, ao fim da tarde, a minha irmã mais nova, ao regressar do trabalho, passou por lá, telefona, acha que ele está com uma respiração esquisita.
“Esquisita, como?”
“Não sei”, responde, “parece mais acelerada”.
Estou na cozinha de minha casa, a Mia olha-me de baixo para cima, tiro um prato do aparador, talheres da gaveta, um copo, guardanapo... E, de repente, desligo o fogão, subo ao quarto, atiro umas roupas para dentro da mala. Bato a porta, a noite está nítida e gelada, arranco para o Porto. Passa um pouco das sete e meia, tenho 280 km para guiar; a sensação de que não vou chegar a tempo.
Teria metido um fato escuro na mala, uma gravata preta, se já não o tivesse feito dois meses antes, no Verão, com um certo remorso pelo gesto. Quando cheguei ao Porto e abri a porta do guarda-vestidos da cave de casa dos meus pais para o esconder por ali, dois livros, de uma pilha esbarrondada, tombaram de dentro, aos meus pés. Não queria que ninguém se apercebesse da minha antecipação, não queria ser olhado como ave de mau-agouro. Mas, para mim, tornara-se tão evidente...
No entanto, para as minhas irmãs, para os meus cunhados, para o meu filho Zé João que também mora lá em casa pois estuda no Porto, para essa gente que o vê todos os dias, o resvalar do seu estado de saúde não é tão brutalmente evidente como para mim, que o encaro de forma intervalada e, por ser médico, consigo encaixar as mudanças que apercebo naquilo que é a descrição de um estado terminal.
Oh, claro que ele sabia, ele também é médico, arguto, e esteve consciente até ao fim, o olhar imensamente triste perdido nas peças de porcelana que enfeitam a borda da prateleira da parede em frente à cama. Mas não falava do assunto, não queria sobrecarregar ninguém, dar parte de fraco e quando o inquiria brandamente sobre resultados de exames, sobre o que tinham dito os médicos na última ida ao IPO, respondia de forma assepticamente genérica, mudava a agulha do discurso para outra direcção a que imprimia a tónica de ‘falemos do que interessa’:
“E tu, fizeste boa viagem? O Zé João lá continua a tocar a sua cornetazinha, olha que ensaia naquilo seis ou sete horas por dia!”
Não valia a pena insistir, nem eu insistia. Permanecíamos calados, a olhar a lareira e, a páginas tantas, se não estava mais ninguém na sala, ele podia dizer:
“Já te disse que tenho direito a um talhão, de borla, em Agramonte? É por ser irmão da Ordem de S. Francisco...”
Ou podia repetir:
“Se eu um dia destes bater a bota, vais à primeira gaveta da minha secretária e encontras lá a relação de tudo o que temos. Já o disse à tua irmã, mas por alto, sabes como ela é nervosa...”
E a noção que ele tinha do seu estado, do que lhe restava acautelar, era tal que eu já há muito abandonara no meu sótão as vestes garridas de um:
“Ora, pai, para que está a falar dessas coisas...”
Não era tempo de negação. Em silêncio, eu tinha trocado as vestes garridas por um fato escuro, por uma gravata preta, que esperavam no guarda-vestidos da cave desde o pino do Verão.  
Nesse Agosto meti férias, mudei-me para o Porto, para os aposentos da cave onde mora há dois anos o meu filho, que estuda trompete no Porto. Há séculos que o meu quarto, lá em cima, foi transformado numa sala de estar para que a minha mãe, convalescente de uma mastectomia e da consequente procissão de quimio e radioterapia, pudesse ler os seus livros e escrever os seus poemas longe do bulício doméstico, do esforço das escadas. Depois ela morreu, mas o quarto continuou sala de estar, parecido com o cenário onde ela passava os  dias; tornou-se na sala de trabalho do meu cunhado que lá mora com a minha irmã mais velha desde que a minha mãe se foi e o meu pai corria risco de ficar sozinho num casarão de três andares. No quarto de hóspedes onde eu costumava dormir, o quarto mais próximo do quarto do meu pai, está agora a Belmira, que veio da aldeia onde o meu pai nasceu e cuida dele em tempo inteiro.








Da janela do quarto na cave vejo a madeira da lareira alinhada ao longo da parede, está ali a acabar de secar para no Outono estar de feição para estralejar na lareira. A maior parte dos toros é eucalipto, mas também há carvalho, castanheiro... É uma imensa quantidade, o meu pai encomenda sempre duas mãos-cheias de toneladas, para que dure, este ano e o próximo... Olho aquele monte com olhar antecipatório, pergunto-me quanta dessa madeira vai arder aos olhos do dono.
Uma manhã, gloriosa e quente, vou ao IPO. Chego cedo, pois sei como os tempos são mortos num IPO. Horas de espera a enfeitar uns escassos momentos úteis. Procuro o médico no departamento de ‘Tumores Líquidos’, o meu pai tem uma leucemia crónica, uma doença maligna do sangue. Quero falar com ele, pois o meu pai faz um anticoagulante diário para combater o efeito espessante do sangue que provoca a leucemia: com tanta reprodução descontrolada de células do sangue, este tem tendência a entupir os vasos sanguíneos de pequeno calibre. Mas um anticoagulante é uma sanguessuga, é medicamento cheio de manhas e perigos, tem de ser vigiado assiduamente, de outro modo pode actuar em demasia e provocar hemorragias... O meu pai tem de ir ao IPO quase semanalmente controlar aquilo, cada ida representa sair de casa antes das 8 da manhã, regressar depois das 2 da tarde, sem comer; penar esse tempo todo em cadeiras duras, pelos corredores, até que lhe façam uma picada e o mandem embora. Tem mais de 90 anos, a doença cansa-o, a espera arrasa-o, o ambiente deprime-o, a inutilidade do que lá vai fazer tornou-se-lhe evidente. Não se queixa de nada. Vou ao IPO explicar isso ao médico, pedir-lhe que acabe com o anticoagulante, sugerir-lhe que o substitua por uma pequena dose de aspirina, esta também tem efeito anticoagulante. Sei que é uma solução menos específica, menos eficaz; mas trata-se de pôr as coisas nos pratos da balança: a vida que resta ao meu pai pode medir-se em meses, interessa-nos que a viva o melhor possível, nem isso: o menos mal possível. Para quê arrastá-lo pelas estações do calvário em nome da tranquilidade da consciência técnica dos médicos?
Não ignoro que a minha tarefa para essa manhã é árdua. Conheço os médicos, sou um deles, já os enfrentei como doente e sei como ficam escandalizados, inseguros no seu papel, quando tentámos discutir com eles as soluções possíveis para o nosso corpo e alma. Mas vou escorado na decisão que as minha irmãs e eu tomámos sobre o futuro do nosso pai.
Lágrimas rolam pelas faces da Susana, a mais nova, quando insisto que é preciso decidir já:
“O pai é capaz de não chegar ao Natal...”
De súbito, parece-me que não passou assim tanto tempo desde os dias em que, alegremente, em volta da mesa de jantar, discutíamos o nome que iria ser dado à nova menina que vinha aí:
O lírio do vale, 1980.
“O nome que prefiro é Susana”, diz o meu pai do seu lugar à cabeceira, “quer dizer ‘lírio do vale’ em hebreu...”
Agora acabaram-se os tempos em que ela era a menina e ele a figura securizante, que resolvia tudo o que se relacionasse com estar doente; agora os papéis inverteram-se e ela tem de decidir se o melhor é ou não parar com todos os tratamentos, com as idas constantes ao IPO. Resistir às sugestões e às tentações de futuros internamentos, tratamentos agressivos, transfusões, picadelas, tubos... Assumir que chegou o tempo de aceitar o fim e não o adiar meia-dúzia de dias por um massacre; decidir se vai ou não permitir que o pai morra, sozinho, a meio da noite, numa cama de hospital.
O médico dos Tumores Líquidos é novo e simpático, tem um nome tranquilizante, o meu pai gosta muito dele e ele exprime grande consideração pela postura civilizada e paciente do seu doente. Noto que fica surpreendido com a minha abordagem, com o que lhe proponho: parar com tudo o que seja invasivo, não exigir que o meu pai lá volte em nome de controlos de cartilha, trocar o anticoagulante por uma modesta aspirina... Mas acaba por concordar comigo, que estou ali e, em silêncio, não desisto. Só diz:
“Mas vai ser preciso ouvir a opinião dos ‘Sólidos’, o seu pai também é seguido por lá...” 
Pois..., os ‘Tumores Sólidos’. O meu pai, para além da leucemia, tem metástases ósseas de um tumor na próstata, operado há muitos anos atrás; nada de mais sólido que os ossos.
“Eu vou lá, falo com eles...”, proponho, “se me disser quem é o médico que devo procurar. Se o doutor fizesse o favor de lhe dar uma ligadela, entretanto...”
Do outro lado da secretária, o médico olha-me, vagamente, como se estivesse a pensar noutra coisa. Depois diz:
“Eu vou lá consigo. Espere um bocadinho por mim lá fora enquanto acabo aqui umas coisas...”
Noutra ponta dos corredores, num gabinete ao cimo de umas escadas, o médico dos Sólidos consulta o processo no computador ao mesmo tempo que ouve a minha proposta com algum embaraço. Também ele está espantado com a minha determinação respeitosa e vontade afável em discutir com ele o curto futuro do meu pai. Acabam por concordar em suspender alguns dos medicamentos, substituir o anticoagulante por aspirina, autorizar que o meu pai deixe de lá ir, que só lá vá por absoluta necessidade, necessidade ditada por ele, mais do que pelo hospital.
“Você pode pôr o seu pai a ser seguido pelos Paliativos; acho que eles têm um serviço de apoio domiciliário...”, diz um deles.
Interesso-me por essa possibilidade, mas eles ignoram tudo sobre pormenores. Só sabem que o outro serviço funciona dentro da cerca do IPO, “lá para o fundo”.  
Atravesso uma extensa terra de ninguém e, no meio de algumas árvores, descubro um edifício discreto e rasteiro onde, em vez da azáfama tecnológica dos edifícios principais, reina um silêncio e uma calmaria anestesiante. 
Depois dos sólidos e dos líquidos, aquilo tem todo o ar de ser o pouso dos que se avizinham do estado gasoso da existência, penso enquanto espero ser recebido pela médica responsável pelo serviço. Na espera, telefonei a uma colega a saber que informações me podia dar sobre o serviço, os cuidados que prestam, a sua responsável. Referências boas, a minha amiga disponibilizou-se para lhe telefonar de imediato, fazer a ligação, explicar resumidamente o caso. Suspirei, confortado, naquela quase hora de almoço de uma manhã dura.
Pouco depois o segurança chamou-me, alguém queria falar comigo no telefone pousado sobre o balcão. 
Na linha, uma voz de funcionário comunicou que o que havia a dizer não necessitava nem que ela descesse nem que eu subisse:
“O seu pai tem direito a ser seguido por nós como qualquer outra pessoa, não é nenhum favor que lhe fazemos. Basta que prove que ele é cá doente...”
Ainda consegui, antes que desligasse, que me explicasse como queria que fizesse a prova e fui a correr ao departamento dos Tumores Líquidos ver se ainda apanhava o médico simpático. 
Apanhei, voltei aos gasosos a entregar umas etiquetas e saí da cerca do IPO com tudo resolvido. Tinha sido uma manhã produtiva. Porque seria então que me sentia com tal sensação de derrota?

© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, 2008; (2) Pedro Serrano, 2007; (3) Pedro Serrano, 2010; (4) Pedro Serrano, 2007; (5) Eduardo Serrano, Edfu (Egipto), 1980.