02 outubro 2010

VOU-TE CONTAR: 26. Corpo presente

Ao contrário da minha mãe, que era toda romance e poesia, o meu pai abominava obras de ficção, abarcando neste seu desinteresse o cinema que não fosse estritamente documental. Lia muito, mas os seus interesses restringiam-se a disciplinas como a História, a Astronomia e as Ciências Naturais, dentro destas a sua predilecção orientando-se para as neurociências e a busca da Consciência. As descobertas de Hanna e António Damásio na exploração das conexões entre o biológico, o fisiológico e o filosófico entusiasmaram-no, pois o mistério que, acima de todos, o fascinava e intrigava era a emergência, como um sol, da consciência sobre o aparente caos das redes neuronais.  
Nos últimos anos vi-o também interessar-se pelo estudo das religiões e a sua queda pela música, manifestação emocional a que não atribuía grande importância, aumentou. Era frequente chegar a sua casa, pousar as malas no hall para o ir saudar, entrar na sala e reconhecer os sons do adagio molto e cantabile da IX Sinfonia de Beethoven.
“Estou aqui a ler aquele livro que tu e a João me deram no Natal”, referia, mostrando a capa do Alcorão.
Não era crente, o meu pai, e acreditava tão pouco nos romantismos da vida eterna que nem sequer pôs a possibilidade de vir a ser sepultado no mesmo cemitério onde ficaram as cinzas da minha mãe, preferindo os palmos de terra a que tinha direito (“de borla”) no cemitério de Agramonte, por ser irmão da Ordem de S. Francisco. E sete anos de seminário vacinaram-no contra as seduções do Cristianismo e os códigos de barras da Igreja Católica. Mas de modo algum era um ateu e o Padre Avelino, superior dos Frades Capuchinhos, nossos vizinhos de rua e visita frequente, respondia-lhe, se ele o picava com a sua ausência de fé:
“O senhor não precisa de religião nenhuma, Dr. Serrano, já tem religião que chegue: o senhor é um místico por natureza!”
E então, nos seus últimos anos, nas tardes melancólicas de lareira, o meu pai ouvia Beethoven e canto gregoriano como pano de fundo das suas leituras do Bhagavad-Gita.
“Sabes, olha que ainda é com estes gajos que eu me identifico mais...”, dizia-me batendo com o indicador nos Ensinamentos de Buda, o livro assinalado com as tirinhas, feitas à custa de papel do Público, que usava como marcas para as passagens que tencionava rever ou reter.
Cheguei. Passa das dez da noite quando viro o focinho do Peugeot contra o portão da casa, os faróis iluminam as grades negras. Saio do carro para abrir o portão e olho a casa, como que à procura de algum detalhe que a diferencie pelo que se passou lá dentro. Nada, jaz em absoluta imobilidade, uma luz transparece nas janelas do hall que deitam para a Circunvalação.
Estaciono ao fundo da rampa, tiro a mala feita à pressa do porta bagagens (ainda bem que já tinha trazido o fato e a gravata preta, de outro modo acho que me tinha esquecido), bato a tampa com cuidado como se não quisesse acordar alguém. Ao cimo das escadas encontro o meu cunhado Gil, que me deve ter sentido chegar, me espera.
“Então?”, diz. 
Dou-lhe um abraço rápido, informa-me que os tipos da agência funerária estão lá em cima, no quarto.
“É o Lessa?”
“Sim”, responde, “a tua amiga médica esteve cá até eles chegarem, passou a certidão de óbito, combinou tudo com eles...”
A Casa Lessa é uma agência funerária de S. Mamede Infesta, enterra toda a nossa família há gerações, o pai do armador que está lá em cima já enterrou o meu avô, a minha avó. A ideia de profissionalismo discreto e completa abstenção de encenação-lacrimosa-para-uso-de-cliente que tinha deles seria outra vez confirmada nas cerimónias fúnebres do meu pai.
Na sala, todos agrupados no sofá, como se tivessem horror a estar distantes uns dos outros, as minhas irmãs, o meu cunhado Manel, uma grande amiga da minha irmã Susana que apareceu sem perguntar e está por ali para o que der e vier.
Venho cá para fora, para a noite fria de Novembro, em frente a igreja dos Frades Capuchinhos espera, as salas da cripta destinadas aos velórios são a menos de trinta metros da porta da cozinha da casa do meu pai! Junto a essa porta, roçando-se nela, mas sem intenção de entrar, está a gata branca e acastanhada que o meu pai foi tolerando no último ano, apesar da aversão essencial a gatos.
“Que impressão que ela gaja me faz!”, desabafa o Gil, a cara arrepiada como se fossem mãos a torcer-se de impotência, “tem estado toda a noite nisto, maluca, a miar, parece que adivinhou o que se passou lá dentro...”
E faz um gesto de a enxotar. Espavorida, a gata desaparece para trás do murete que há ao lado da porta da cozinha, que dá para a esplanada de tijoleira onde, dois anos antes, o meu pai caiu e partir o fémur. 
Ouvimos um barulho, vindo da cozinha; virámos a cabeça em simultâneo. Surgem os homens da funerária, fazendo gincana para conseguirem transpor a porta com o caixão. Estão a transportar o meu pai para a cripta e por ali é o caminho mais directo, não precisam sequer de usar carro nenhum, não há trajecto mais breve. Quando estão a passar por nós, a gata surge do nada, miando um uivo plangente, atravessa-se na frente dos homens que carregam o caixão, desaparece no escuro do quintal. Sinto um arrepio, vejo a cara atormentada do Gil, sentindo o mesmo que eu. O Gil acompanha os homens até ao portão de trás, sentado nas escadas que dão para o terracinho onde fica a lavandaria, olho, vejo, ouço, o portão fechar-se lá ao fundo – o meu pai não voltará mais aqui, à casa que mandou construir para ser o lar de todos nós. O Gil chegou à minha beira, diz:
“Olha que era muito amigo do teu pai, sabias? Mesmo amigo...”
Levanto-me, abraço-o; sente-se tão desamparado como eu.
“Sabia...”
O meu cunhado Gil encontrou outra família na minha mãe e no meu pai, naquela casa uma casa como sua. Ambos os sogros o apreciavam, o meu pai referia-se, entre o divertido e o conquistado, ao seu modo de ser explosivamente afectivo, ao ar atormentado:
“É boa gente, o Gil. Tem aquele jeito meio exaltado, mas é um rapaz de valor, e amigo...” 
Penso nisso tudo quando me vou deitar, umas horas depois, a cabeça pesada e as emoções fechadas. Lá em baixo, no quarto da cave, o Zé João já dorme; olho-o em silêncio enquanto me dispo e me deito com cuidado ao seu lado. Apago a luz, está escuro. Do lado de lá da rua, também numa cave, o meu pai está sozinho, fechado, às escuras. Tenho de dormir, o mais rápido possível, amanhã vai ser um longo dia, oxalá já tivesse passado.
© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Porto, 2010; (2) Porto, 2007.