05 novembro 2010

Contigo en la distancia

Ao contrário da Índia, onde, apesar da riqueza do país nessa arte, me vi aflito para a ouvir ao vivo, em Cuba acorda-se com música, vive-se imerso em música todo o dia, adormece-se ao som da música que, noite dentro, sobe até à janela do quarto do hotel.
O fenómeno é nacional (dizem eles, sobre si mesmo, que são dez milhões, dos quais cinco milhões são músicos), mas veja-se, por exemplo, o caso do Hotel Nacional, em Havana. Ali tropeça-se em música, não apenas a ao vivo, mas também nos ectoplasmas da que por ali andou. Nat King Cole esteve por lá nos anos 50, actuou no Tropicana com grande sucesso e, por ser negro, foi impedido de ficar na ala principal do Nacional, sendo empurrado para os aposentos, mais discretos, onde eram alojados conhecidos membros da Mafia. As suas fotografias, sorridente para a eternidade e indiferente a tais pormenores, enchem agora paredes nobres do hotel, em vizinhança com as de Frank Sinatra... E, ao passar entre corredores, podemos acariciar, com mão incrédula, as peles do gigantesco par de congas que Robert Plant, o lendário vocalista dos Led Zeppelin, ofereceu ao hotel quando por lá esteve.
Acabo de me sentar, ainda estremunhado pelas moléculas remanescentes do rum Havana Club (Añejo Reserva) da noite anterior, nas poltronas de palhinha das arcadas, com vista para o mar; pedi o pequeno almoço. Passa um pouco das onze e o Zé João ficou a dormir, os seus 15 anos também se ressentem do rum, que anda a beber em excesso para o meu gosto de pai. Mas um dia não são dias, apesar de esses dias serem noites.
Esqueci os óculos escuros no quarto e enfrento a luz forte de olhos semicerrados, embalado no crepitar incessante das folhas das palmeiras, que roçam entre si as agulhas verde-gafanhoto sob a brisa que sobe do Malecón, quando sinto uma presença no meu campo de visão. À minha frente perfilam-se quatro pessoas: uma rapariga leva aos lábios uma flauta transversal, um rapagão debruça-se amorosamente sobre um contrabaixo cujos reflexos envernizados são praticamente da cor do rum de ontem à noite; um veterano segura uma guitarra acústica junto ao pescoço e o quarto elemento do grupo, com semelhante quantidade de neve capilar, empunha umas maracas na minha direcção, prontas a disparar.
O líder do conjunto é o senhor da guitarra e, num sorriso obsequioso, pergunta se podem tocar para mim, se desejo ouvir algo em particular... Levanto-me sempre um pouco do cadeirão quando sou abordado por esta gente, sinto que sou alvo de uma deferência especial e já sei que, como acontece com todos eles, são músicos maravilhosamente competentes. Timidamente, pergunto se poderiam tocar-me o “Contigo En La Distancia”... Sorriem muito – é que a música é mesmo cubana, não mexicana, argentina ou porto-riquenha; conheço-a pela mão do Caetano Veloso e do álbum Fina Estampa, essa joia-prima. Àquela hora da manhã sou o único tipo sentado sob as arcadas, de modo que eles entretêm-se na minha companhia. A seguir, abusando do meu privilégio, peço o "La Luna En Tu Mirada” e, depois, a “Rumba Azul” e o “Mi Cocodrilo Verde”, estas duas também músicas cubanas. O som da flauta ondula, argentino, no ar e eu desejo que entre pelas venezianas do quarto e acorde aquele burro, que não sabe o que está a perder.
Consolado, pego na tosta mista e no sumo de piña, que não tive lata de consumir enquanto o grupo estava a tocar para mim, dividido entre a sensação de sacrilégio e o desejo de lhes perguntar se eram servidos.  Acabo de dar a primeira dentada e eis que sinto uma nova presença no meu campo visual... Desta vez são apenas três: duas guitarras e umas maracas, a perguntar se podem tocar para mim e o que desejaria eu ouvir. Acho que vou ter de ir trocar dólares mais cedo do que previa.

© Fotos de Pedro Serrano: Habana, Cuba (2004).


Notas: "Contigo En La Distancia" (César Portillo de La Luz), Cuba, 1952; "La Luna En Tu Mirada" (Luis Chanivecky); "Rumba Azul" (Armando Orefiche), Cuba, 1942; "Mi Cocodrilo Verde" (José Dolores Quiñones), Cuba, [?].