10 novembro 2010

Perigosa Cuba!

Se Havana está virada para os Estados Unidos e nas barbas de Miami, Trinidad é vizinha das ilhas Caymão e da Jamaica, das quais está separada por um braço do mar das Caraíbas. A distância entre as duas cidades cubanas ronda os 700 km e, ao percorrê-los por estrada, tínhamos como principal finalidade conhecer a mítica Casa da Música.
Face à expectativa, a primeira impressão foi fraca: a famosa Casa da Música de Trinidad não passa de um pátio, com as paredes que o enclausuram cobertas por trepadeiras, dotado de um pequeno estrado que funciona como palco, um barzito lá ao fundo e, como recinto da plateia, uma dezena e meia de mesas em ferro forjado branco, um tanto kitsch como as pouco confortáveis cadeiras a condizer.
Quando lá entrámos pela primeira vez, seriam umas 2 da tarde, já se ouvia música do lado de fora das paredes. De facto, as sessões começam ali cerca das 10 da manhã e prolongam-se, sem interrupção, até às duas ou três da madrugada! Cada banda em palco ocupa o espaço cerca de uma hora e, a seguir, vem outra e depois outra e outra e outra... Meu Deus, como pode uma cidade de 65.000 almas produzir tanta música e tanto quem a toque?!
Entrámos no recinto timidamente, fazendo o possível por atenuar o ruído produzido pelas  pesadas cadeiras ao serem arrastadas. Lentamente, fomo-nos ambientando e o Zé João tirou a máquina de filmar da bolsa, começou a filmar o palco discretamente.
“Zé, achas que ofereça uma bebida aos músicos que estão no palco?”, perguntei, umas duas horas depois, entusiasmado perante uma banda particularmente dotada, onde sobressaía um contrabaixo com os flancos atravessados por buracos de bala.
Ele encolheu os ombros, não disse palavra e, se dissesse, provavelmente eu não a teria ouvido tal era o volume de som circundante. Fiz um sinal à menina do bar, expliquei-lhe o que queria. Minutos depois vi-a subir ao palco com uma bandeja carregada de garrafas. Depois, os músicos olharam na nossa direcção, sem interromper o que fazia um deles segredou qualquer coisa à rapariga e, com a bandeja incólume, ela desceu do estrado, aproximou-se da nossa mesa e dispôs as garrafas no tampo. Logo a seguir, sempre sem deixar de tocar, os músicos foram saltando do palco e vieram sentar-se à nossa volta. Ali permaneceram, bebendo e tocando para nós, até se darem conta que tinham de ir jantar para continuarem a função da noite noutro local. Quanto a nós, sem programa definido, acabámos por ir jantar com um deles num restaurante clandestino a funcionar dentro de um quintal murado, onde fomos os únicos clientes, e que, por acaso, era pertença do marido de uma prima dele.

Trinidad (Cuba), Casa da Música, Setembro 2004
 Canção: "Hermosa Habana", bolero de Rolando Vergara.  
© Filme: José João Serrano.