01 novembro 2011

SERPENTINANDO


Dir-se-ia que a finalidade de tudo estava concentrada em fazer mover pelo mundo aquela tira infindável de tecido. A faixa tinha uma largura uniforme, mas os seus motivos mudavam a cada três metros, ou por aí, como se fossem saris, capulanas ou outros panos estampados costurados numa sucessão infinita.
Agora eu e X fazemos parte de uma fila de gente que, em passo rápido, percorre uma estrada que ladeia um monte e serpenteia até ao cume. Há gente que transporta a faixa á nossa frente, vemos gente a empunhá-la nos braços estendidos nas curvas da estrada abaixo de nós. Aquela serpentina sem fim dá forma a uma bela imagem, todas aquelas pessoas contrastando em cor e movimento no verde luxuriante da montanha.
Fascinados, um tanto eufóricos com toda aquela azáfama, X e eu desatámos a correr por ali acima com os nossos metros de faixa, como se quiséssemos fazer levantar no céu um papagaio de papel, ultrapassando o pedaço de fila que nos antecede e caminha ordeiramente em direcção ao cume.
Ao chegar ao cimo avistámos um enorme edifício, envidraçado, parece-nos um centro comercial com mais luz do que o habitual. Umas dezenas de metros antes de o alcançar somos interceptados por alguém que é responsável pelo fluxo da marcha e nos diz:
“Então? Têm de ter calma! Já tivemos de abrandar o passo dos outros para que isto não se ensarilhe tudo!”
E, de facto, as pessoas que no chão cor de colorau da estrada se aproximam do edifício movem-se em câmara lenta, algumas avançam um passo para logo o recuar.
Entrámos no hall do edifício com os nossos pedaços de faixa bem esticados expostos nos braços. Uma rapariga morena, de cabelo encaracolado e húmido, dá mostras de estar ali para preferir, naqueles km de pano estampado, o meu pedaço. Estendo-o na direcção dela, ela dá um passo atrás.
“Não faças isso”, segreda-me X. “Assim os outros vão pressentir que ela quer o teu bocado, vão antecipar-se e roubar-lho...”
Encolho o gesto até passar ao lado dela, chegar a sua vez, e ela abrir os braços para tomar o meu pano. O meu pedaço, reparo agora, ostenta um padrão xadrez, uma combinação de cores em vermelho e negro.
“Tenho em casa uma mala de viagem, em napa, que condiz mesmo bem com o seu pano”, digo quando ela começa a envolver na cintura o pedaço de faixa quadriculado.

© Fotografia de Pedro Serrano, Porto 2011.