25 abril 2012

A MINHA NOITE EM CASA DE MAGDA


All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Lennon/McCartney (Eleanor Rigby)


1. Cores

Magda foi uma consequência da necessidade de Filipe Ferreira viajar para Bangalore. Engenheiro informático de uma pequena firma dedicada à importação de componentes de hardware para computador assistiu, em três ou quatro anos, ao crescimento exponencial do volume de encomendas e ao triplicar dos contactos internacionais.
Um dia, o seu chefe, um gestor não muito mais velho do que ele e de igual modo aturdido com o crescimento do negócio, atirou-lhe um molho de papéis para cima da secretária:
“Estuda isto e prepara-te para ir a Bangalore...”
Como qualquer um que não fosse completamente cego, ele estava a par do desenvolvimento tecnológico dos indianos na área da electrónica e sabia que Bangalore era uma espécie de Silicon Valley da Índia, mas daí até pensar que pudessem ser estabelecidas parcerias com aquelas lonjuras, com aquela gente que ainda usava turbante; imaginar sequer ir lá! Depois da viagem decidida, de esmiuçados os detalhes e estimado o número de dias para os contactos, sobrara a parte logística do assunto: a marcação da data de ida e de regresso, reservas de avião, hotel...
“É melhor seres tu a tratar disso directamente, Filipe, sabes que a gaja não atina a planear, pelas mãos dela ainda vais parar ao Bangladesh...”,
aconselhara-lhe o chefe quando sugerira endereçar a Tânia, a secretária-telefonista do escritório, a responsabilidade pelos pormenores da viagem.
Pressionado pelo encargo, Filipe visualizara uma agência de viagens na António Augusto de Aguiar onde uma vez parara a olhar os cartazes da montra, atraído por um all inclusive de seis dias e cinco noites em Cabo Verde.
À entrada da agência havia uma mesinha baixa com prospectos, à qual estava sentado um tipo à espera, e, mais resguardadas, duas secretárias por trás das quais se atarefavam duas funcionárias, uma ao computador, a outra ao telefone. Quando resumiu ao que ia, a empregada que estava mais perto da porta, indicou-lhe a outra com um gesto de cabeça e um sorriso atencioso:
“Se não se importa, fale ali com a minha colega Magda, está mais por dentro das viagens para o Oriente...”
A tal Magda, teve ainda tempo de entrever antes de se sentar na cadeira em frente, era uma mulher a escorregar para os trinta, com um busto generoso a espreitar pela fenda vertical de uma camisa larga de decote debruado com um bordado laranja, a condizer com o acobreado-henna do cabelo.
Quando se apercebeu do destino que Filipe Ferreira porfiava, a rapariga abriu muito os olhos, sorriu como se já o tivesse visto antes e dirigiu-se-lhe num tom de voz que tinha algo de acariciante:
“Ah, para a Índia, muito bem... E, permita-me que pergunte: vai em lazer ou em negócios? Com essa informação é mais fácil adequar um pacote....”
“Infelizmente, vou em negócios...”, deu por si a mentir; ele a quem a comida picante assanhava o refluxo gastro-esofágico, que nunca na vida escolheria destino tão pedinte para férias.
Ela suspirou e assentiu com a cabeça, enquanto as suas unhas, de um vermelho quase negro, voavam sobre o teclado.
“Há mais do que um voo da Lufthansa nas datas que pretende, uns com escala em Frankfurt, outros via Munique... Há também voos da British e da AirFrance, mas, se quer que lhe diga, os alemães ainda são, atendendo ao binómio preço-qualidade, quem voa melhor para aquelas paragens.”
Filipe tirou a agenda do bolso, pôs-se a olhar o calendário do mês de Janeiro, quis também saber preços.
“Janeiro é época alta por lá, os preços são sempre mais caros que no resto do ano, mas deixe ver o que se consegue...”
Ele não imaginava, sugeriu que, para tentar poupar, os dias de viagem fossem limitados ao mínimo.
Magda, que parecia saber tudo sobre a Índia, aconselhou-o a não fazer isso, a não viajar em tão curto intervalo...
“É muito longe, sabe, são – sem incluir as escalas – mais de doze horas para cada lado e, depois, há o biorritmo de cada um: por muito circadiano que seja o seu é sempre preciso contar com algum jetlag, particularmente na viagem para lá. Vai chegar muito maçado e andar com os horários trocados um dia ou dois... E depois”, acrescentou com um tom sonhador nas pálpebras azul-cauda-de-pavão, “já que lá está podia, talvez, aproveitar um bocadinho para disfrutar do país; das cores, dos cheiros, dos sabores... As tarifas ficam até mais em conta se permanecer um fim de semana...”
Enquanto ela contrastava horários de voo e tarifas, ficou a cogitar na proposta, o olhar perdido no decote que se entreabria de cada vez que ela se inclinava sobre o monitor do computador.
“E hotéis, como é? Vocês também podem tratar disso...?”
“Claro”, sorriu, generosa e indulgente, como se estivesse a responder a pergunta ingénua de criança, “tratamos-lhe de tudo o que vier a precisar...”
Filipe Ferreira saiu confortado da TravelSafe. Ao despedir-se, ela levantara-se, dera a volta à secretária e viera estender-lhe a mão. Era um mulher alta e a saia roxa, pregueada e comprida, parecia sublinhar a estatura, mais do que dissimular a anca larga. Mas, simultaneamente, havia uma timidez que apercebeu no aperto hesitante, levemente suado, da mão dela, no modo como baixou os olhos esverdeados depois de o fitar um momento:
“Pois, senhor Filipe, foi um prazer... Vou então tratar de contactar os nossos agentes, para ver dos hotéis... Entro em contacto consigo logo que tenha novidades, o mais rápido possível...”  
Magda cumpriu a promessa e, no dia seguinte, havia um mail dela na Correspondência Recebida do computador:

Data: 20 Novembro 2011 16:45:32
Assunto: Viagem India
Senhor Filipe Ferreira,
Conforme combinado informo que, tendo em consideração o local da sua estadia em Bangalore, o Gold Finch Hotel seria um alojamento apropriado em termos de preço-qualidade. anexo junto link para o site do hotel, onde poderá verificar melhor todos os detalhes de instalação e preços. Junto também informação sobre outras alternativas de alojamento para que possa optar em conformidade.
Vai também necessitar visto para entrar em território indiano. apesar da viagem ser de negócios, sugeria-lhe que pedisse antes, tendo em conta os poucos dias que irá permanecer, um visto de turista, pois é menos burocrático de obter. A Travel Safe (mediante taxa d serviço) poderá tratar da obtenção do visto junto da embaixada. aguardo as suas instruções.
Atentamente ao dispor
Magda Azevedo

Data: 21 Novembro 2011 09:55:23
Assunto: Re: Viagem India
Magda,
Obrigado por resposta rápida.
1. Gold Finch parece bem, pode reservar então as 5 noites? Não percebi bem se o preço inclui transbordo do aeroporto e pequeno-almoço. Pode esclarecer?
2. Estou interessado em que tratem do visto, por favor informe preço e documentação necessária. Vou precisar fotografias?
cumprimentos
Filipe Ferreira

Magda respondeu prontamente, inclusive enviou pdf. com o formulário para o visto. Filipe podê-lo-ia devolver pelo correio, acompanhado do passaporte e de duas fotografias tipo passe ou, se não quisesse correr o risco de extravio, podia passar pela agência a entregar tudo. Preferiu ir lá, a agência não ficava muito fora do seu circuito diário e subindo a António Augusto de Aguiar nessa manhã gelada de Novembro, deu por si a imaginar se o frio teria boicotado o decote.
Magda estava ocupada com um cliente, a colega livre, mas o sorriso que irradiou lá do fundo fez com que se sentasse na mesinha de espera, informando a colega desocupada:
“É por causa de uma viagem à Índia...”
Ficou por ali a folhear um prospecto de Circuito Balcânico + Cárpatos e depois um outro de Visite a Terra do Pai Natal na Época Natalícia! Quando acabou de atender o cliente, Magda levantou-se, veio buscá-lo à mesinha. Trajava uma camisola de gola-alta angorá, eriçada de pelinhos brancos como o pelo de um gato, e uma saia comprida de lã verde a condizer com a cor dos olhos. Filipe reparou sobretudo no modo como o angorá dava um toque de conforto àquele peito onde apetecia aninhar-se numa manhã como aquela.
“É servido de um cafezinho...?”
Não quis dar trabalho, mas ela assegurou não ser maçada nenhuma, na agência costumavam tomar um mais ou menos àquela hora.
“Enquanto trato disso, poderá ir consultando o seu dossiê, preenchendo o formulário para a embaixada...”
Pousou-lhe à frente uma capa de cartolina com o seu nome escrito no canto superior direito, e desapareceu por trás de um biombo forrado por um tecido azul-escuro de onde, pouco depois, se ouviu o tilintar acolhedor de louça.

Data: 19 Dezembro 2011 17:03:27
Assunto: Viagem India – Visto e bilhetes
Caro Senhor Filipe Ferreira
Serve para informar que o seu visto já se encontra na agência e que vou hoje mesmo emitir as passagens aéreas e o voucher para o Golf Finch Hotel.
toda esta documentação pode ser levantada na nossa sede a partir de amanhã
Atentamente ao dispor
Magda Azevedo
PS: Aproveito época festiva para desejar um Feliz Natal e Óptimo Ano Novo :)  

Data: 19 Dezembro 2011 17:04:18
Assunto: Re: Viagem India – Visto e bilhetes & Boas Festas
Cara Magda,
Muito obrigado pelo mail.
Passarei aí a levantar a documentação ainda antes do Natal, de modo a poder retribuir os seus votos de Boas Festas ao vivo!
saudações
Filipe Ferreira

2. Sabores

Na sexta-feira, após dois dias intensos de reuniões e visita ao complexo industrial, os indianos levaram-no a jantar ao Coconut Grove, um restaurante-esplanada separado da rua por umas escadaria de tijolo.
Magda tinha razão, o tempo era maravilhoso para um Janeiro, mal dava para acreditar que 48 horas antes estava numa Lisboa chuvosa e gelada e que agora, em mangas de camisa, jantava ao ar livre sob as pás de grandes ventoinhas que giravam pachorrentas!
Aqueles tipos! Filipe passara os dias anteriores sem se conseguir aperceber do desfecho, bom ou mau, para que se dirigiam as negociações, sem conseguir captar a tonalidade afectiva de uma possível orientação dos indianos, pois, sentados à mesa de trabalho, assumiam uma postura pétrea, falavam muito mas não diziam nada de substancial e nunca, nunca, se comprometiam.
E então, na sexta-feira, a meio da tarde, avisaram Filipe que estava convidado para um jantar de celebração do acordo com o qual, pelos vistos, estavam muito satisfeitos.
“This deal will bring big money for everyone...”, exultava Kumar, o engenheiro chefe, no sotaque ascendente e meio cantado com que todos os indianos se exprimiam em inglês.
Às oito da noite Kumar e Hari passaram a buscá-lo no hotel e, pelo tom da conversa, ficou a julgar que seriam três à mesa. Qual quê! No Coconut Grove a mesa estava posta para doze pessoas e uma meia-dúzia já se instalara, emborcando ruidosas canecas de cerveja!
No Sábado, com a cabeça um pouco pesada, acordou sem saber onde estava. Depois, o crocitar omnipresente das gralhas lá fora devolveu-lhe as coordenadas. À tarde, para entreter o tédio, resolveu ir às compras e perguntou na recepção onde seria mais apropriado. O rapaz atrás do balcão tirou um mapa da gaveta, desdobrou-o e desenhou na trama de ruas e cruzamentos um círculo e uma elipse:
“You are here”, informou apontando o círculo com a ponta de esferográfica, “best shops in MG Road...”
MG Road era a avenida circunscrita pela elipse e no táxi, ao ler as informações nas costas do mapa, percebeu que o “MG” era de Mahatma Gandhi e não alguma referência de tipo industrial como ficara a pensar.
Comprou duas fronhas de almofada, bordadas à mão, para a irmã e, para a mãe, uma echarpe de pashmina, uma tira em caxemira cinza-azulada que lhe custou os olhos da cara mas a cuja macieza não resistiu. Para além disso, deu por si a arrematar uma colcha de cama cheia de passarinhos bordados, que não fazia ideia a quem impingir! Aquelas compras, que imaginava simples e rápidas, mais o calor impiedoso, deixaram-no estafado! Na Vaishali–Silk House, apesar de ter apontado prontamente para a almofada que queria, sentaram-no numa cadeira e fizeram-lhe desfilar diante dos olhos uma quantidade e uma variedade de almofadas que dariam para recostar um harém... Farejando o cliente indeciso e potencialmente gastador que tinha entre mãos, o Sr. Poppatt, o dono da loja, bateu as palmas e mandou um dos empregados ir buscar um chá de Masala ao café mais próximo. Enquanto aguardavam perguntou se, sem compromisso algum, ele não estaria interessado em ver alguns outros produtos: pashmina, raw-silk, banaras saree, traditional bed covers... Filipe tentou resistir:
“No, thank you, I just need cushions...”
O Sr. Poppatt desceu as escadas carregando as compras de Filipe, acompanhou-o até meio da calçada e, esperando voltar a vê-lo numa próxima visita a Bangalore, passou-lhe para as mãos os sacos de plástico.
Arrasado, afastou-se um quarteirão da loja antes de ousar sentar-se numa esplanada e pedir uma Coca Cola gelada para desincrustar da garganta o sabor da merda do chá. Foi aí que, readquirindo a pouco e pouca alguma tranquilidade, viu o escaparate rotativo com os postais e decidiu enviar um a Magda. A verdade é que já na loja se lembrara dela, estivera até quase para lhe comprar uma fronha de almofada, pois já não sabia mais a quem levar tudo o que lhe tentavam vender e aquela loja era a cara dela com a sua fixação na Índia, nas saias esvoaçantes e nas lantejoulas... Ela daria tudo para estar ali, no meio daquele caos de cores, cheiros e sabores!
Fez rodar o expositor e acabou por comprar um postal com um daqueles ridículos deuses que eles veneravam aos milhares, um tipo de cara azul a tocar flauta e rodeado de nenúfares por todos os lados.

Olá Magda
Aqui estou em Bangalore!
O hotel é bom. Foram buscar-me ao aeroporto, mas avisaram que levam uma taxa por isso. Não interessa, que o aeroporto ainda é longe e é tudo bastante confuso.
Tenho tentado disfrutar, como me recomendou, as cores, os sabores e os cheiros, mas o que mais gostei foi da comida, pois o cheiro geral não é nada que se recomende!
Saudações indianas do Filipe Ferreira  

3. Cheiros

Magda morava na periferia da Amadora, a janela da sala do seu apartamento, no 2.º andar, dava para um pilar do viaduto da auto-estrada. Era sexta-feira,  regressavam do jantar num restaurante indiano perto do Poço do Borratém de que ela gostava muito. Para além de Bangalore, Filipe nunca jantara num restaurante indiano, mas, quando a convidara fraquejara nessa possibilidade:

Data: 6 Fevereiro 2012 10:00:35
Assunto: Re: Agradecimento
Cara Magda,
Ainda bem que o postal chegou! Pedi na recepção do hotel para mo meterem no correio, mas, sabe como é, a gente nunca fica com a certeza!
Como lhe disse, em Bangalore correu tudo bem e a sua ajuda foi importante para o sucesso de toda a viagem... Para a por a par do que se passou e  contar pormenores, alguns dos quais podem até ser úteis para o seu trabalho, não quer jantar comigo um dia destes? almoçar ou jantar, como lhe der mais jeito, mas penso que ao jantar sempre teríamos mais tempo de conversar em codições! Podemos até ir a um restaurante indiano (lol).
Filipe Ferreira

Data: 5 Fevereiro 2012 20:39:27
Assunto: Agradecimento
Caro sr. Filipe Ferreira,
Foi com surpresa que recebi hoje o seu gentil postal!
Obrigado pelo envio e, mais do que isso, por se ter lembrado de mim em terra tão distante e tão especial...
espero um dia poder voltar a ser-lhe útil nalguma nova viagem que venha a fazer.
sinceramente
Magda

Acompanharam a refeição com vinho e como a comida era toda para o picante pediram mais uma meia-garrafa para completar a primeira, o que fez com que descessem as escadas do restaurante muito risonhos. Cá fora chuviscava e Magda, com um arrepio, cerrou o casaco comprido sobre o top decotado. À saída do estacionamento, ao meter a marcha-atrás, a mão de Filipe, que se oferecera para a levar a casa, escorregara por sobre o joelho dela.
“Desculpe”, pediu com um toque de riso na voz
Ela optou por não responder, apenas se sorrira interiormente.
Magda tirou o casaco comprido, foi pendurá-lo, junto com o kispo de Filipe, no bengaleiro em ferro forjado da entrada, aproveitou o espelho para ajustar a echarpe de seda violeta ao pescoço.
“Queres um chá de Masala...?”, perguntou quando regressou à sala.
“Pode ser...”, respondeu, não podendo impedir-se de reparar que ela o tratara por tu.
Enquanto Magda se dirigia à minúscula cozinha ele pôs-se a olhar em volta, comentou, em voz alta para ser ouvido por sobre o silvo da chaleira:
“Estar aqui, em tua casa, ou na Índia é praticamente a mesma coisa...”
“Gostas...?”, perguntou ela quando apareceu na ombreira, equilibrando nos braços um tabuleirinho de vime entrançado onde flutuava o vapor saído de duas chávenas sem pega.
Ele acenou com a cabeça, depois desviou o olhar para o pilar da auto-estrada, para os faróis que iluminavam em tom laranja os sarrabiscos de uma chuva miudinha.
“Quase tudo o que tenho nesta sala foi comprado na Loja do Gato Preto e na Natura... O quarto é a mesma coisa, depois do chá mostro-te...”
Acomodou as almofadas em patchwork do sofá, convidou-o a sentar-se e começou de acender uma vela prismática que estava sobre a mesinha em bambu e vidro onde pousara as chávenas.
“Cheira bem...”, comentou ele quando a chama tremeluziu.
“Esta é de Cedro do Oriente, um dos meus odores preferidos, um aroma tradicionalmente associado à serenidade do espírito...”
O chá era forte e de sabor intenso, como uma especiaria, e o cheiro trouxe-lhe Bangalore à memória. Reflexamente, franziu o nariz, ela deu por isso:
“Não gostas, é? Queres que faça outro? Tenho lúcia-lima, melissa, camomila...”
“Não, não é isso; é de estar habituado a bebê-lo com açúcar...”
“Ah, mas eu vou buscar, desculpa; estou tão habituada a bebê-lo assim que nem me lembrei. Só tenho é do mascavado, não te importas...?”
Depois do chá, de lhe ter perguntado se tirara fotografias na Índia, a conversa esmoreceu. Filipe ainda não as passara da máquina para o computador, prometeu mandar-lhas por mail, perguntou se podia fumar, acrescentou logo:
“Se calhar não fumas e eu aqui a querer empestar-te a casa...”
“Não, não; podes estar à vontade. Tenho amigos que vêm aqui e fumam como chaminés, por isso...”
Ao mentir, sentiu as faces a arder e, levantando-se, dirigiu-se à porta do quarto, informando que ia em busca de um cinzeiro para ele.
Encostada ao lado de dentro da porta, Magda olhou o quarto como se o estivesse a ver pela primeira vez.
Atirou para o guarda-vestidos alguma roupa dispersa pelo chão, acendeu o globo de vidro da mesinha de cabeceira, cobriu-o com um lenço cor de açafrão, de pano muito fino; gostava daquele camuflado de luz adamascada. Depois ligou a coluna da aparelhagem, olhou no visor do mp3 a lista de músicas. Acabou por escolher uma selecção de música de Vivaldi com efeitos de ondas de mar em fundo, selecção que ouvia com frequência antes de dormir. Escolhendo a opção repeat pôs a música a tocar baixinho e dobrou a colcha da cama, de modo a deixar a descoberto a dobra dos lençóis e as grandes almofadas de pelúcia beringela.
Antes de encostar a porta do guarda-vestidos, Magda olhou-se no espelho interior, passou um toque de eau de toilette Opium na base da palma das mãos, aspergiu um borrifo nas covinhas das clavículas. Gostava de ser mais morena, aquela pele translúcida, cor de leite! Afastou as alças do wonder-bra e afundou o decote do top – durante o jantar (e mesmo antes disso naquela primeira vez, na agência) ela bem reparara como os olhos de Filipe eram tentados naquela direcção. Antes de abrir a porta acendeu um pau de incenso de café, bufou a brasa e equilibrou-o no queimador. Depois virou para baixo a caixa do incenso, em cuja tampa se lia Despierta Un Deseo Apasionado; orou por sorte a si própria e rodou o puxador.
A sala deserta cheirava a tabaco, uma nesga da janela fora deixada entreaberta. Quando encostou a cara ao olho de vidro da porta já não viu ninguém no átrio, mas conseguiu ainda ouvir o chiado do elevador a travar no rés-do-chão, logo seguido do bater metálico da porta do prédio.

Nota: O título do conto é piscadela de olho ao filme A Minha Noite em Casa de Maude, de Eric Rohmer, 1969.

© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1) Índia, 2012; (2) Lisboa, 2012; (3) (4) (5) (6) Índia, 2012.