04 abril 2012

VOU-TE CONTAR: 49. AQUI HÁ GAJA


Em 1968 as coisas corriam mal, muito mal, entre John Lennon e a então sua mulher, Cynthia Lennon. Há já dois anos que Yoko Ono, a japonesa com que John viria a casar, andava por ali a fazer estragos e, nesse mesmo ano, o casamento estourou de vez.
Quem estava tremendamente amarfanhado com tudo isto era Julian Lennon, filho de John e Cynthia, na altura um menino com cinco anos de idade. Impressionado com a tristeza do miúdo, Paul McCartney escreveu uma canção inspirada na situação. Primeiro chamou-lhe “Hey Jules”, diminutivo de Julian, mas depois o título evoluiu para “Hey Jude”, a própria letra ganhou roupagem de história de amor e quem ouvia a canção sem mais informação, que era o nosso caso, ficava a cogitar:
“Aqui há gaja...”
          Hey Jude don't make it bad
          Take a sad song and make it better
          Remember to let her into your heart
          Then you can start to make it better
          Hey Jude don't be afraid
          You were made to go out and get her
          The minute you let her under your skin
          Then you begin to make it better
          And any time you feel the pain, Hey Jude, refrain
          Don't carry the world upon your shoulders
          For well you know that it's a fool who plays it cool
          By making his world a little colder
          Na na na na na
A canção, gravada pelos Beatles nos últimos dias do mês de Julho de 1968, estourou nas rádios no final de Agosto e eu gravei-a mesmo a tempo de a levar para a quinta do meu pai onde sempre passávamos os trinta dias do mês de Setembro.
Em Setembro de 1968 tinha uns recentes quinze anos e um gravador de fita Gründig que, provavelmente, não fora comprado para mim mas de que me apropriei com rapidez e ferocidade, de tal modo que nenhuma das minhas irmãs se lhe atreveria a tocar sem que eu as estraçalhasse por violação de propriedade alheia.
Era um belo gravador de duas pistas, num tempo em que não havia ainda sequer gravadores ou leitores de cassetes, aparelhos que também já não existem nos dias que correm. Um gravador de fita consistia num caixote, pesado, e na sua face superior espetavam-se dois pinos onde se enfiavam bobinas de plástico, uma delas preenchida por uma delgada fita castanha que ia correndo para a outra, vazia. Neste caminho a fita passava por um sistema complexo de carretos e magnetos e reproduzia a música que tinha sido previamente gravada. O meu Gründig tinha duas pistas, o que queria dizer que cada uma daquelas centenas de metro de fita podia ser gravada de um lado e do outro, bastava meter a fita ao contrário no aparelho! Horas e horas de música numa rodela com o tamanho de um prato de sobremesa… A felicidade proporcionada por aquele bichinho fiel e robusto. E imaginar que havia gravadores daqueles com quatro pistas à venda nas lojas da especialidade; saber que os Beatles tinham usado um de oito pistas na gravação do Hey Jude! Ó tempos de prodígios.
Nesse Verão arrastara comigo até Queirã o Renato e o Alexandre, os meus grandes amigos do liceu e dizer amigos é dizer muito pouco, pois numa dessas noites quentes firmámos um juramento de sangue, escrito com um alfinete embebido no sangue picado à polpa espremida dos nossos dedos e redigido num pedaço de papel que, depois de devidamente chamuscado nos cantos para conseguir um toque medieval, foi enterrado, numa caixa de charutos Cogetama e ao rondar da meia-noite, debaixo do castanheiro ao fundo do quintal. Sim, dizer amigos é dizê-lo por defeito, irmãos para sempre seria mais apropriado e ainda hoje o poderia semiprovar se não tivesse perdido a metade do mapa que me coube e onde constavam as coordenadas exactas do local de inumação.
Nesse Setembro, durante as quietas tardes de torreira, sentávamo-nos os três na frescura da sala de jantar que, graças às paredes com um metro de espessura, conservavam a sala num frescor de cave e aprisionavam-na numa paz de nave de igreja. No peitoril profundo de uma das janelas, a fita do Grundig, pachorrenta como um regato estival, serpenteava de bobina para bobina, e eu levantava-me de sete em sete minutos para manter o “Hey Jude” a tocar ininterruptamente.
Sentados em volta da mesa, ouvindo a canção e folheando aplicadamente revistas já lidas em busca de imagens e fundos interessantes, um de nós suspirava e comentava o poderoso som que jorrava das colunas incorporadas no gravador:
“É do caralhão, não sei como os gajos conseguem...”
“Pedro," pedia o Alexandre de tesoura no ar mal os na na na começavam a esbater-se no passado, "põe outra vez...”.
Legítimo proprietário do Gründig, corria a levantar-me para que o desprazer da música seguinte não irrompesse a perturbar o estado de espírito de profundo recolhimento em que aqueles na-na-na-na hipnóticos nos mergulhavam.
“Passa-me a cola”, requeria o Renato, que acabara de dobrar em formato de envelope mais uma página recortada.
Já não sei quem inventou a moda, mas assim que soubemos que as cartas chegavam ao destino e que “sim, os Correios não se importavam com isso” foi um furor com o artesanato dos envelopes caseiros, fabricados a partir de folhas de revistas que tivessem motivos e cores cativantes: bolas cor de rosa de anúncios de detergentes, pastagens verdes de reclames de iogurtes, nuvens azuis de publicidade a pensos higiénicos – que belas lombadas, que belos remetentes, tudo isso proporcionava. Nem mais um dos insípidos envelopes brancos de papelaria no marco do correio! Arrancada a página ao Paris Match, calculado o tamanho, vincadas as arestas, colados os cantos, era só enfiar as cartas lá dentro e escrever o nome das destinatárias em letra bem marcada.
Passámos grande parte desse Verão a produzir envelopes e a escrever cartas, a responder às cartas que recebíamos: cartas para namoradas, cartas para potenciais namoradas, cartas para irmãs ou primas que pudessem interceder ou fazer-nos chegar notícias sobre essas potenciais namoradas; cartas para aquelas raparigas que, por estarem verdes ou demasiado maduras, tratávamos de irmãs...
“Nunca o disse a ninguém, mas tu, para mim, és como uma irmã e isso é um feeling quase sagrado.”
A resposta chegou num envelope em que o meu nome e morada estavam escritos sobre o bojo azul-mentolado do corpo de uma garrafa de água mineral em que se lia Mon foie, connais pas:
“Era de mais se me passasses a tratar por sister, que dizes...?”
Para além disto, sobre que mais falávamos nós nessas cartas? Não faço ideia, não me lembro do que escrevia nem do que me respondiam elas naquela letra muito redonda, pontuada de bolas rechonchudas em cada i, os cantos livres do papel rematados com corações ou estrelinhas desenhados a caneta de feltro.
Todos os dias corríamos aos correios da aldeia, que funcionavam numa casa particular, onde éramos recebidos com grande pasmo e respeito (num par de dias dávamos cabo da provisão de selos do posto) e onde, em troca, nos entregavam o chorudo e colorido maço que esperava por nós. Depois, de regresso a casa do meu pai, atravessávamos em sentido oposto o terreiro do posto dos correios, fofo no seu atapetado de carqueja e estrume de vaca, onde picavam galinhas e fossava um leitão cor-de-rosa que, com um selo colado no lombo nacarado, daria um belo envelope.

© Última foto (contadas de cima para baixo): Maria João Pinto Basto, Porto, 2015.