08 junho 2012

CEREJO


É tão aristocrática que se deixa apenas ver ao longo de pouco mais de um mês em cada ano. Tudo nela ronda a perfeição: a cor, tão dela que define uma cor; o pé (que se deixa arrancar algo contrariado) produz um sonido que fica para sempre na memória dos estampidos; uma consistência, gerada, no breu de noites ainda geladas, a pensar no encontro com os dentes. E, por fim, o sabor, tão gostoso e viciante que uma pede pela seguinte e essa apela à  próxima, que arrasta a seguinte até que a taça, há minutos transbordante, se volveu um cemitério de caroços ainda palpitantes que foi um gosto cuspir.
“Ó dona Luísa, a cereja é boa?”
“É uma riqueza, D. Graciete, pode levar à confiança...”
“E não será ácida...?”
“Não, é uma doçura – olhe que nos temos fartado de a comer lá em casa.”
“E não terá bicho...?”
“Oh, D. Graciete, a senhora acha que eu lhe ia vender cereja bichada!? Faça favor de provar uma, não quero que vá enganada...”  
“Então pese-me aí um quilinho... Olhe, ponha antes dois que a minha Graça é doida por cereja...”


Nota: Cerejo é termo transmontano para 'o tempo da cereja'.
© Fotografia de Pedro Serrano, Junho 2012.