12 junho 2012

O IMPERADOR CHINÊS


Hoje o Imperador Chinês ladrou-me!
Estava lá fora, na rua, a enfiar qualquer coisa na mala do carro, quando senti ladrar nas minhas costas. Era ele, a uns dois metros de mim, a ladrar na minha direcção, mas, mais do que em minha intenção, parecia que ladrava ao ar em volta.
“Então!”, admoestei-o com brandura, batendo com a mão na coxa, nesse gesto ancestral que sossega os cães e até faz saltaricar alguns de regozijo. Ele acalmou, esboçou um abanar tristonho do rabo, avançou um passo para mim. Aproximei-me, uma mão estendida, no aviso de uma carícia, mas ele deu meia volta e entrou pelo portão, contíguo ao meu, que leva à casa dele.
Coitado do Imperador Chinês, está de luto mas ninguém lhe disse nada.
O Imperador Chinês é um dos três cães dos meus veneráveis e estimados vizinhos Luísa e Fernando Baltasar. Para além dele há um perdigueiro de temperamento folgazão e uma cadelinha branca e fofa, mas seria pouco delicado da minha parte deixar os dois gatos da família fora da listagem: o gato preto, que vai envelhecendo e tem brancas no negrume perfeito da pelagem; e a gata branca de olhos claros, com uma expressão de perpétuo espanto, e que me assombra o peitoril das janelas com frequência. Mas voltando ao Imperador Chinês...
O Imperador Chinês não se chama mesmo assim, fui eu que lhe atribui o cognome por causa do aspecto geral, da pose. É um bicho já entrado nos anos, com a rolicez do corpo que perdeu formas, de pêlo amarelado e olhar semicerrado, distante, nos olhos algo em bico. Às vezes, quando se senta, imóvel, a tomar sol no jardim da frente da casa ao lado parece mesmo um imperador chinês a contemplar o seu império através da fenda dos olhos.
O Imperador Chinês era a sombra do Sr. Fernando Baltasar, que nos morreu na passada quinta-feira. Eram um par clássico aqui na Praia e podíamos cruzar-nos com eles todos os dias, partindo ou regressando do seu passeio pelas cercanias, ou encontrá-los sentados num murete à beira-mar vendo rolar as ondas ou passar os automóveis. Já não me lembro de ver o Sr. Fernando sem ele ou ele sem o Sr. Fernando, a não ser na situação em que, em separado, podiam estar a tomar sol sentados no patamar da entrada da casa ao lado da minha. Mas, até nessa atitude solitária, penso que esperavam um pelo outro.
Pois agora o Sr. Baltasar foi-se e ninguém deve ter explicado convenientemente ao Imperador Chinês o que se passou. Não o vi na sala dos velórios da igreja do Seixal, nem sequer, no Sábado, no funeral que levou uma procissão de carros e mais de uma centena de pessoas ao cemitério da Lourinhã. Estava um dia azul, de sol, e não foi dada ao Imperador Chinês a oportunidade de olhar uma última vez para o seu dono, como fez a D. Luísa, nem pôde despedir-se da sua companhia mais certa lançando um punhado de terra surda sobre o envernizado do caixão.
E agora, que são quase quatro da manhã e não há uma lua no céu, ouço lá fora o latido solitário, rouco e esparso, do Imperador Chinês lamentando o desaparecimento do seu amigo.

© Fotografias de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, Junho 2012.