15 julho 2012

MISTÉRIOS DO COSMOS


No meu quarto do hotel Kosmos, em Leipzig, na parede fronteira à cama, estavam penduradas duas fotografias emolduradas de um casal, e que, apesar de serem duas e separadas pelas respectivas molduras, formavam um todo, de tal modo constituíam um casal. Eram, ou tinham-se tornado, até fisicamente parecidos.
Pela roupagem, sou levado a supor que a fotografia data do fim do século XIX, dealbar do séculos XX, e a senhora tinha uma presença impressionante, aqueles olhos claros e intensos deixavam marca na memória e dava comigo a olhar para ela de soslaio quando, à noite, regressava ao quarto, como se estivesse a prestar contas a pessoa que tivesse um qualquer ascendente familiar sobre mim.
Para além desse mistério, a moldura dela encerrava um outro: uma mancha de humidade parasitara o quadro, instalara-se, com a fixidez das presenças definitivas, cristalizada no formato exacto de um copo de pé alto. Que faria ali e que se teria comemorado antes de eu, num fim de tarde incerto do século XXI, ter rodado a chave do quarto 31 do Hotel Kosmos?
© Fotografias de Pedro Serrano, Leipzig (Alemanha), Junho 2012.