05 agosto 2012

UM DOMINGO BEM PASSADO


Ao Domingo, há missa às onze na igreja de Nossa Senhora da Graça. Da esplanada do Morabeza, no Plateau, consegue-se ver a porta da igreja, pelo que me sentei por ali a tomar o pequeno-almoço, à espera que a missa acabasse e pudesse ir ter com a Maria da Luz, com quem combinara encontrar-me para me despedir, pois deixo hoje Santiago.
Este ritual de esperar alguém que foi à missa a partir da esplanada do Morabeza já o praticara com a Ana Cristina, que é católica e vegetariana. Sentava-me por ali à espera dela, até que pelas três portas, uma principal e duas laterais, da igreja começava a jorrar uma colorida hemorragia de fiéis. Que diferença, em quantidade e qualidade das missas portuguesas, que, à hora do fecho, apenas purgam meia-dúzia de beatas, roucas de ganir acompanhamentos e indispostas com a azia provocada por terem engolido a hóstia a seco, sem um golinho de água... Aqui, os fiéis são muitos, de predominância jovem, e vestidos a preceito para a cerimónia. Lá de dentro chegam ecos de cantos felizes e uma satisfação serena espraia-se nas faces de quem, no final, se espalha pelo jardim Alexandre Albuquerque onde o coreto, pintado em azuis e rosa, lembra um bolo de noiva.
Hoje, ao meu lado, nas mesas da esplanada, um casal consulta demoradamente o menu, ela folheando um dicionário de bolso alemão-português sob o olhar atento do hirsuto marido que, vermelhusco, parece correr o risco de explodir a qualquer momento sob o calor inclemente do Agosto cabo-verdiano.
Finalmente, decidiram-se e chamam o empregado. Tudo parecia estar a correr muito bem com o processo de encomenda até que o rapaz informou que o prato escolhido pelo senhor se tinha acabado. Agitação e impasse, o homem folheia de novo a lista, afogueado, enquanto olha em volta, como um náufrago, procurando inspiração nas mesas adjacentes. Súbito, o olhar ilumina-se e inclina-se para comunicar à mulher, que é quem serve de tradutor simultâneo, que ambiciona um prato igual ao que está a comer uma moça local, de vestido kaikai, uma combinação com um ar bem calórico e coroada por um ovo estrelado.
Num português prenhe de gestos e cuja sonoridade faz lembrar espanhol desossado, a senhora informa o paciente rapaz que o seu marido quer algo semelhante. O empregado regista o pedido com acenos de compreensão, o alemão remexe-se na cadeira como um javardo com pulgas, a esposa desfaz-se em sorrisos ambientais e abandona, com alívio, o dicionário sobre a mesa.
Mas eis que o empregado, que já avançava para o balcão, retorna e pergunta em bom português:
“O ovo estrelado é bem ou mal-passado?”
Na mesa ao lado, quase tive piedade ante o novelo de incompreensão e paralisia que acometeu os alemães e inclinei-me um pouco para a frente num prólogo de ajuda, pois a senhora pegara outra vez no livrinho de capa amarela, porventura à procura do significado de “mal-passado”. Mas, depois, lembrei-me a tempo que não seria pior ideia deixar à sorte o desfecho daquele confronto gastronómico norte-sul e ficar a ver em que resultaria a habitual supremacia germânica.
Infelizmente, num olhar de relance por sobre a praça, apercebi uma onda de gente que começava a atapetar de cor as escadas da igreja da Senhora da Graça e levantei-me, apressado, da minha mesa.

© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago, Cabo Verde, 2011.