09 agosto 2012

UMA HISTÓRIA ILUSTRADA


Ilha de Santiago: vista que se tem da Senhora da Luz e, ao fundo, a ilha do Maio.
Quando os portugueses lá chegaram, por volta de 1460, não havia hotéis, resorts ou modalidades de alojamento tipo all inclusive. De facto, não havia lá ninguém!
Não sei porquê, a gente fica sempre um pouco agarrada à ideia de que os descobridores (agora é correcto chamar-lhes achadores, sob o pretexto ovo-de-Colombo de que não se descobre uma terra que já existia), ficamos a pensar, dizia, que os descobridores chegam sempre aos novos mundos pela capital e tendemos a imaginá-las como são agora, com os cristos de braços em cruz incluídos, como a prenda no bolo-rei... Mas não, os portugueses chegaram à ilha de Santo Iago pela enseada que se vê na foto e percebe-se porque resolveram chamar ao sítio de Cabo Verde.
Fomos espreitar aquilo uma manhã de Sábado tórrida e, depois de deixar a cidade e o asfalto para trás, andámos às voltas por uma estrada vagamente empedrada, ladeada de paisagem árida e austrálias comidas pela poeira. Numa bifurcação, o Oswaldo perguntou a um rapazito de bicicleta para que lado era a capela. Ele esticou o braço numa direcção e tentou seguir-nos durante uma centena de metros.
Depois a paisagem animou-se, pintalgou-se do verde das palmeiras, dos recortes de terra semeada, da roupa a secar, e beijou-nos as narinas, ainda mesmo antes do odor da maresia, o bálsamo húmido da proximidade de água.
E, enfim, do cimo de uma escarpa onde se equilibravam aldeias em linha recta, vimos aquilo que em 1460 eles devem ter visto quando se apinhavam na amurada: uma abrigada baía, onde a água se prateia em suave ondulação e, prolongando-a, terra dentro, um vale luxuriante, a prometer água potável, lenha, e a bicharada que apetece por a rodar num espeto e que sempre habita estes sítios abençoados. No cimo da escarpa, arriscando-se o mais possível a espreitar o mar, mandaram construir uma capela, que dedicaram à Senhora da Luz – que designação tão apropriada. A capela, que continua local de peregrinação e culto, pelos vistos estava a desfazer-se nos seus esquecidos séculos à beira-mar e não estiveram com meias-medidas: cimentaram o todo, como quem recama um bolo de creme. Que crime arquitectónico, contra o património! Pois, mas a capela continua lá, pelo menos não se esboroou falésia abaixo. Fecharam um dos pórticos com grades e, espreitando entre as barras, onde, pouco raladas com a nossa presença, pousam aves a descansar, espreitam-se bancos de culto muito alinhados na sombra apetecida do meio-dia. 
Como quem procura o recolhimento de uma mijadela privada, cada um de nós os três se afastou numa direcção solitária e, embora tenhámos visto e coscuvilhado o mesmo, fizemo-lo em separado, em silêncio, que é o que aquele local, pelo muito que já viu, aconselha. Quando nos sentimos saciados, regressámos à cidade onde, no ponto mais alto, mais debruçado, o velho descobridor estrangeiro, com o seu olhar de bronze, perscruta o mar sob a bandeira nacional.



© Fotografias de Pedro Serrano, Santiago (Cabo Verde), 2011 e 2012.