27 abril 2013

NA ARCA, COM NOÉ


Com raras excepções, são geralmente excelentes os documentários da National Geographic sobre vida animal. No outro dia, na RTP2 (entre as 9 e as 10 da noite, que é quando passam) vi um sobre amizade entre animais de diferentes espécies.
De espanto em espanto, a minha perspectiva do que estava a assistir foi resvalando para um estado entre o emocionado e o maravilhado com o que as imagens pareciam significar. Mas deixem, antes de me dedicar às generalizações, contar um pouco do que vi. Havia um pouco de tudo: Havia o macaco-gibão, de cor branca, braços desproporcionados e pêlo comprido de boneco de peluche, que era meio autista e não conseguia dar-se nem ser aceite por macacos da mesma espécie. Então, um dia, esse solitário descobriu que se comprazia na companhia de macacos-capuchinho, uns bichitos bastante mais pequenos, de cor, hábitos e espécie diferente e que olhavam o intruso algo espantados, mas o toleravam na proximidade dos ramos onde saltaricavam.
“Mas isso sempre era entre macacos, não é lá muito esquisito”, dirão os ouvintes, “afinal são todos meios primos... até nossos!”
OK, e o que me dizem a uma amizade entre uma tartaruga e um ganso? Era uma tartaruga grande que, como quem se desloca à força de remos, se movia pesadamente em terra, e um ganso, vá lá saber-se o porquê, escolheu-a como companheira inseparável, seguindo-a para todo o lado e atacando, num proteccionismo histérico de mãe, qualquer outro ganso ou tartaruga que se aproximasse do réptil enquanto este se alimentava ou espadanava nas águas. Seguiu-se a história do chacal e do leão, predadores incompatíveis, criados juntos desde a infância num centro para animais abandonados. No começo houve uma altura em que ambos tinham porte semelhante, pois todos os bebés, mesmo os órfãos, são pequenos e fofos. Mas depois o leão desabrochou numa bisarma e, à beira dele, o chacal não era mais do que um animalzeco fanhoso e despenteado, de dentuça arreganhada e expressão desdenhosa, que o outro destruiria numa única sapatada. Mas era vê-los brincando em companhia, o chacal em provocação permanente do leão, e este abocanhando-o com ternura e controlando na perfeição a consciência das mandíbulas ou a energia das patadas.
Agora o cenário era uma quinta, vizinha de uma floresta, e os donos da quinta, lavradores sensíveis, eram-no também de uma cadela grand danois, quase negra. E eis que, surgida do mistério do bosque, aparece uma manhã no quintal uma pequena gazela cor de mel, provavelmente órfã, que se abandona à cadela como se esta pudesse ser a mãe perdida, tentando até mamar nas tetas da surpreendida cadela! Cadela que, como é vulgar nos cães, encarou toda aquela carência com serena naturalidade e tratou de educar a trêmula bichinha nos sólidos princípios que qualquer cão bem-educado deve seguir. O tempo passou, a gazela cresceu e o apelo da floresta, ali ao lado, tornou-se poderoso. A gazela desapareceu, a cadela passou a olhar com renovada atenção para o lado das árvores, de vez em quando dava uma volta pelo bosque. Até que um dia, perfeitamente adulta e já mãe, a gazela reapareceu para visitar a antiga casa e rever a mãe adoptiva. É de uma beleza que não necessita legenda, vê-las ambas em marradinhas ternas, em entrelaçar de pescoços ou, numa felicidade volvida movimento, em correrias sobre a erva verde do terreiro nas traseiras da floresta.

No entanto, a sequência de que mais gostei foi a do cavalo e do bode. O cavalo andava nos 40 anos, o que é muita idade para um animal destes, pode considerar-se que era um cavalo centenário. E as marcas do tempo tinham-se feito sentir: artroses nas articulações, uma catarata num olho, depois no outro e eis o animal sem autonomia, inclusive a de procurar alimento e se alimentar. Consternados, os donos chegaram à conclusão que não restava outra solução se não a de abaterem o ancião. E eis que o milagre desce e se revela num personagem da própria família que vivia na propriedade: por lá coabitava também um velho bode que, de súbito, pareceu dar-se conta do drama e passou a considerar como sua a função de tomar conta do diminuído companheiro. O filme ilustra bem a situação: todas as manhãs o bode vai ter com o cavalo e, mantendo-se sempre à sua frente e a uma distância que o outro possa sentir, controlando com um olho se o outro o segue convenientemente, condu-lo aos locais de melhor pasto, onde, pacientemente, fica à espera que o amigo se alimente. Em seguida leva-o a passear por ambientes adequados à condição do cavalo, orienta-o por terrenos pouco acidentados, mostra-lhe clareiras onde o sol banha a terra de um calor benéfico a quem já está na idade de resguardar pernas com mantas... E, ao fim do dia, condu-lo de volta ao estábulo. Este procedimento manteve-se, diariamente, por vários anos, até que um dia o cavalo morreu naturalmente, de velhice.
“E o bode?”, sinto todos vocês questionar. Pois o bode passou a comportar-se como sempre se comporta um bode: voltou à vida na quinta, nunca mais percorrendo os caminhos em que pastoreara o cavalo, enfim, agindo como se nunca tivesse existido um cavalo cego que não conseguia alimentar-se sozinho.
Bem, agora que a história está contada, cada um que pense o que quiser disto tudo, mas não me venham mais dizer que sentimentos ou estados como a amizade, a compaixão ou a consciência do mundo que nos rodeia é exclusivo da raça humana. O que talvez seja exclusivo da raça humana, como parece apontar o comportamento final do bode velhote, é o sentimentalismo piegas, lá no fundo mais centrado em nós do que no interesse pelos outros.

© Fotografias: National Geographic.