13 abril 2013

TIGRES MARÍTIMOS


Na prateleira de cimento e gesso, apoiada nos poiais do lado exterior da janela aberta, havia uma floreira rectangular onde crescia, numa profusão não regrada pela meticulosidade de um jardineiro, um tufo de chorões; um renque daquelas plantas de folha carnuda que se encontram nos taludes que levam à praia e ajudam a tornar as dunas sedentárias.
Ele estava sentado e olhava pela janela, pois uma premonição de movimento parecia estremecer as folhas de onde, alguns momentos depois, começaram a rastejar uns seres que conservavam o formato das folhas mas as iam substituindo, evoluindo do quente verde vegetal para um acinzentado de animal de sangue frio. Mas, mesmo antes de atingirem o peitoril e correrem o risco de o inquietar, eis que aquelas lagartas coriáceas, uma por uma mas sem excepção, se volviam em pequeninos tigres que ascendiam no céu azul da manhã, tremeluzindo como fumo, e se volatilizavam num ondulado fulvo com riscas negras.
Ele nem queria acreditar na sequência de metamorfoses que os seus olhos testemunhavam e levantou-se a correr, em busca da máquina fotográfica; conseguindo, não muito antes de o fenómeno se desvanecer, disparar a máquina sobre uma nova fornada de tigres flutuantes, comprovando na ampliação que as lentes proporcionavam que eram mesmo minúsculos tigres, vivos, perfeitos, a quem se distinguia até o pormenor de terem todos bigodes brancos. Chamou a mulher, apontou os chorões, atabalhoado explicou o que se passava, mas tudo quanto ela conseguiu testemunhar foi umas, escassas, folhas carnudas dos chorões a transformarem-se em monótonas lagartas acinzentadas. Passou-lhe a máquina para as mãos, esperançoso que algo tivesse ficado gravado na memória fotográfica, mas admitindo que pudesse nada ter restado, uma vez que ectoplasmas e efeitos de sonho são entidades fugidias e pouco impressionáveis.
“Tens razão”, disse ela com um olho no visor, “está aqui uma fileira de tigrinhos, todos alinhados! Tão fofos, olha só: tão pequeninos mas já com bigodes brancos...” 

Fotografias: (1) Chorão (Carpobrotus edulis), © Blog Verde; (2) © Nazareth Dávila.