26 outubro 2013

O REGRESSO DE NIKITA


Ao fim de uma tenra semana a morar em nossa casa, Nikita desapareceu sem deixar rasto.
Foi coisa de uma hora, nada mais. Após alguns dias sem querer sair de casa, apenas vinha espreitar à porta – como uma velhinha que fareja o tempo e se recolhe assustada com as correntes de ar – deu de experimentar empoleirar-se no banco de pedra da varanda e, tentada pelo exemplo da Mia, começou de dar voltas no jardim e mordiscar  ervas.
Quando a vi pela última vez, ela espreitava a rua e quando regressei de umas compras breves já não estava à vista. Até à hora do jantar não me preocupei, pois supu-la entretida na exploração de quintais vizinhos. Mas, noite cerrada, quando a chamámos lá fora, apenas o silêncio respondeu e a visão da Mia, enroscada para a noite na cadeira ao lado da lareira, só contribuiu para me apertar o coração de inquietude.
Isto passou-se uma quinta-feira e, nos dias seguintes, batemos as redondezas esperando o choque de poder encontrá-la atropelada numa esquina; o corpo despedaçado por cães impiedosos; ou batendo os antigos territórios onde a recolhêramos do abandono. Nada, ninguém a vira, nem de perto nem de longe.
Entretanto a Carlota e a Dona Luísa, a fiel empregada e a extremosa vizinha (ambas muito amigas e donas de extensa bicharada) começaram a tecer e estender a sua teia de influências, e durante o fim de semana dei-me conta de que toda a Praia da Areia Branca sabia do drama da gatinha perdida e as primeiras notícias foram-me chegando. Um dos pontos altos deste boca a boca foi a revelação dos detalhes do desaparecimento da gata, primeiro suspeitados por uma vizinha vigilante e depois confirmados pela própria arguida!
G., sexo feminino, casada, ex-padeira de profissão, ao passar à porta de minha casa e ao ver Nikita encarrapitada no muro do portão, resolveu – por a saber uma gata previamente abandonada - pegar nela e ir devolvê-la aos primitivos donos, os tais que moravam no andar em frente à paragem das camionetas. Claro que os façanhudos inquilinos limitaram-se a dizer nada ter a ver com a gata, julgando, até, estarem já livres dela com carácter permanente!
G. não esteve com mais aquelas, desfez-se da gata no local, a perigosa avenida onde passam os expressos para Lisboa e metade do trânsito da Praia.
Entretanto, em casa, entristecido e preocupado com a ausência, mas alentado pela rede comunitária que continuava a conspirar e a manifestar-se interessada no destino de Nikita, confeccionei um aviso, encimado por um dramático DESAPARECEU DE SUA CASA, impresso em letras gordas, onde constava a foto que abre este texto, seguida de uma descrição das características da desaparecida, de um resumo dos factos do seu desaparecimento, telefone de contacto, e a promessa de uma gratificação. Afixei um dos avisos no poste da EDP que há rente ao muro de minha casa, outro na montra da papelaria da Linda, e o Ricardo e a Denise fitacolaram um terceiro exemplar na própria paragem das camionetes. Na segunda-feira, encantada com a riqueza e clareza do AVISO, a Dona Luísa pediu uma cópia para levar à escola primária (a escola onde andou o Zé João, situada mesmo ao fundo da nossa rua), a mostrar a gata aos alunos, pois miúdos pequenos são sempre uma boa fonte de informação quando se trata de gatinhos encantadores e pormenores ocorridos ao nível das sarjetas.
E foi por esse lado do contexto que tudo se veio a resolver: exactamente uma semana depois recebi uma chamada telefónica em que uma voz desconhecida me confiou:
“Estou aqui ao pé da escola e acho que tenho a sua gatinha em minha casa...”
E o pedaço do fio da meada em falta desenrolou-se diante dos meus  ouvidos ávidos: quatro dias antes, uma gata aterrada, perseguida por dois cães assanhados, entrara pelo Tásse Bem dentro e procurara refúgio debaixo das mesas do café. Condoída com a cena, os netos a puxarem-lhe pela manga e pela saia, a dona do estabelecimento condoera-se e levara a gatinha consigo, adoptara-a de coração, afeiçoara-se, fazia já planos para os cuidados a ter com a instalação definitiva da bicha.
Mas uma manhã, ao levar o neto à escola, dera com o aviso que a Dona Luísa lá deixara, reconhecera a gata sem sobra de dúvida...
“Durante dois dias hesitei sobre se a havia de entregar ou não, é que já estava tão afeiçoada à gatinha; os meus netos iam ter um desgosto tão grande se a entregasse...”
É sábado à tarde e Nikita torra aqui ao lado numa poça do sol de outono, como se nunca tivesse conhecido outro lar que não esta casa.
É claro que este final feliz, a aconchegante gratidão que sinto pela ajuda que toda a gente deu ao desfecho do pequeno drama, tem a sua excepção: a Mia, que andou escandalosamente regalada nos dias em que Nikita desapareceu e em que retornou ao estatuto de dona absoluta da casa, tem outra vez de suportar as investidas da juvenil intrometida, que clama por brincadeira e, sem nenhuma espécie de respeito pela precedência, chafurda em trincadelas ronronantes a tigela de comida da inquilina mais velha. 

Agradecimentos: D. Luísa Baltazar, Carlota Rodrigues, Linda e Sofia, Ricardo e Denise, Rosa, Idalina, D. Suzete, professora da Escola Básica da Praia da Areia Branca, e D. Alice (que devolveu a Nikita).    
© Fotografia de Pedro Serrano, Outubro 2013.