26 janeiro 2014

GISELA JOÃO

Tento pôr-me na pele dela e imagino que se terá sentido uma parte surpreendida, uma parte contente e duas partes nervosa ao dar-se conta que a sua estreia nas grandes salas de espectáculo do país tivera como resultado a venda de todos os bilhetes no Porto (Casa da Música) e em Lisboa.
Ontem à noite, um Sábado frio de Janeiro sarrabiscado de chuva, o Centro Cultural de Belém (CCB) estava cheio como um ovo para ouvir Gisela João, uma cantora cujo primeiro CD foi considerado a revelação do ano, já por aqui falei disso há uns bons meses num texto a que chamei A Noção dos Blues. Quando ela apareceu por aí a cantar houve logo quem se apressasse a classificá-la como fadista, coisa que eu não faria de ânimo leve pois Gisela é isso mas vai para além disso e, por ser mais do que isso, tenho a certeza, não faria a triste figura que fez a Amália ao atrever-se a cantar êxitos da Broadway, esmagando as canções ao não conseguir mais do que espartilhá-las na gargantilha de fadista.
Quem, quase às nove em ponto, nos entrou pelo palco do CCB, onde uma guitarra portuguesa e duas guitarras acústicas de acompanhamento aguardavam, foi uma moça pequena, loura, de cabelos soltos, saia curta e ténis nos pés, uma pose rasteirinha como ela própria escolheu para se retratar à audiência. A voz, quando conversa com o público, é a voz tímida e de vincado sotaque nortenho de uma rapariga que está algo nervosa, que diz esperar que o público goste dela e espera que tudo corra bem.

Começou a cantar e a garota foi varrida do mapa por uma mulher a quem esquecemos a estatura, que se agiganta quando sublinha o fraseado com gestos veementes e inevitáveis, que anula o tempo com o seu cantar, como se tivesse sido possuída por algo que lhe ultrapassa o contorno ou o seu controlo, uma presença impossível de explicar apenas em termos de dotes da voz ou de técnica de interpretação, embora a técnica esteja lá no pronunciar da cada palavra. Meu Deus, está-nos a ser dado assistir a um milagre, isto é, a algo que não tem explicação lógica, que é mais do que a soma das visíveis partes. Aquilo não é só fado, aquilo é música no que a música tem de mais transcendental. Ela poderia estar a cantar blues, supõe-se, ou baladas ou standards de jazz ou seja o que for, pois foi-lhe concedido o dom raro de conseguir vestir canções.
Fechei os olhos durante “Maldição” (um fado soberbo que a Amália também cantava), e a magia mantém-se sem a imagem, o arrepio do momento único está lá, a corporização do trágico que o poema invoca é-me soprada ao ouvido como se fosse o único espectador sentado na sala.
Quanto ao público, rendido desde os brancos lençóis de “Madrugada Sem Sono”, a belíssima canção que escolheu para abrir o show. Podia ouvir-se cair um alfinete durante a interpretação da dama, fenómeno raro numa audiência lusa, que, mesmo fora dos meses invernais, tossica muito e, agora que já não se usam leques, tem o tique de se abanar à media luz dos telemóveis.

© Fotografias de Pedro Serrano, Lisboa, 25 Janeiro 2014.