17 março 2020

CUIDE DOS SEUS: os acamados em casa e os cuidadores externos (Covid19)

Há em Portugal muitos milhares de pessoas acamadas (ou dependentes) em casa, que recorrem diariamente ao apoio de cuidadores que vêm do exterior prestar cuidados de enfermagem, fisioterapia e, a maior parte das vezes, simples cuidados gerais de higiene, alimentação e manutenção. Muitos destes cuidadores externos não são sequer profissionais de saúde, ou seja: a sua preparação em termos de conhecimentos de como evitar o contágio de doenças ou cuidados de higiene (exemplo: como mudar uma fralda e desfazer-se dela) é pouca ou inexistente. Uma não pequena proporção deles são estrangeiros, e imigrados recentes, e ou dominam mal o modo portuga de falar a língua portuguesa ou vêm de países onde a denominada literacia em saúde é rudimentar; estão ainda a adaptar-se ao país de acolhimento, e tudo isso dificulta ou atrasa a interiorização dos conhecimentos que vão adquirindo sobre higiene ou etiqueta preventiva - têm de ser orientados pelos empregadores (as empresas de cuidadores) e pelas famílias onde trabalham, que devem ser vigilantes e usar de pedagogia e paciência para com eles: não se pode exigir a quem não sabe - façamos também esse trabalho, explicando com calma quais são os aspectos particulares da nossa casa e do nosso familiar acamado/dependente. 
Acresce que alguns destes cuidadores mudam com grande rotatividade, seja ou porque o trabalho é pesado, ou porque é mal pago e uma consequência prática é que as pessoas que entram em nossas casas diariamente (mais do que uma vez ao dia, às vezes cuidadores diferentes ao longo do mesmo dia) estão constantemente a mudar e, pior do que isso, visitam várias casas no mesmo dia. 
Tanto quanto se vai sabendo, esses cuidadores externos têm estado a trabalhar - na grave e presente situação provocada pelo coronavírus - sem protecção alguma, isto é sem máscaras ou luvas. As empresas que os empregam, elas próprias aflitas a tapar os buracos dos que não se apresentam ao trabalho à hora combinada ou simplesmente se foram embora sem aviso, quando confrontadas com a ausência de protecção dos seus trabalhadores escudam-se no argumento de não terem orientação específica sobre o assunto por parte dos responsáveis nacionais do Ministério da Saúde, da Segurança Social ou de quem devia desempenhar este papel. 
Tendo em consideração a segurança geral das famílias e, sobretudo, a das pessoas muito fragilizadas de quem cuidam, é essencial que todos os cuidadores domiciliários usem protecção individual: máscara (é suficiente a simples máscara cirúrgica, tipo FFP1) e luvas descartáveis, para além de anteciparem e terminarem a sua tarefa em cada casa com a lavagem cuidadosa e demorada das mãos. Na fase em que nos encontramos de transmissão comunitária do vírus, qualquer pessoa deve ser encarada como podendo estar infectada (mesmo que não tenha sintomas ou sequer o saiba) e todas as precauções são poucas. # Fique em casa, mas cuide também de si e dos seus e ajude os cuidadores externos a cuidar.
Assim, e numa perspectiva eminentemente prática, olhando para o que fizeram os países que já conseguiram suster o primeiro embate do Covid19, e à luz do velho princípio 'o seguro morreu de velho':
1. Pressione as empresas de prestação de cuidados a acamados/dependentes no sentido de fornecerem e instruírem os seus cuidadores a usar equipamento de protecção (máscara e luvas). 
2. Se puder, e enquanto as empresas não se decidem, compre você mesmo esse material (eu sei que é difícil encontrá-lo), pois estará a antecipar a protecção dos seus, e subtraia a despesa à factura da empresa! Considere esse material como seu, isto é: não o deixe sair de sua casa.
3. Obrigue a que o cuidador lave as mãos mal entre a porta de casa (lavagem tipo profissional de saúde: durante 30 segundos; água quente; palma e costas até ao pulso, entre os dedos, esfregar as unhas contra a palma da mão, e usando neste procedimento água e sabonete/sabão, produto que é mais adequado e mais barato do que álcool ou géis alcoólicos). 
Nota: Deixe o álcool e o gel para situações em que não possa lavar as mãos no momento, por exemplo: quando veio de algum lado público (supermercado, farmácia) e entra para o automóvel e só vai chegar a casa meia-hora depois. 
4. Depois das mãos lavadas, o cuidador deve calçar as luvas, que devem ser retiradas no final dos cuidados e deitadas ao lixo.
Nota: se não houver luvas descartáveis, use das outras, de borracha por exemplo e desinfecte-as no final (solução de água com lixívia) depois de o cuidador se ir embora. Ponha-as a secar usando o método descrito no ponto seguinte.
5. A máscara deve, em seguida, ser posta a tapar boca e nariz, tentando a colocação sem tocar no tecido, mas apenas usando os elásticos e o rebordo da própria máscara no ajustamento. Deve ser mantida durante todo o tratamento. 
Nota: Se a máscara for de tipo descartável e tiver as suficientes, deve ser deitada fora no final de cada sessão de cuidados. Se tiver muito poucas e não tenha outro remédio senão voltar a usá-las (o óptimo é inimigo do bom) faça o seguinte: pendure a máscara usada, longe da circulação de pessoas ou o alcance de crianças, do lado de dentro de uma vidraça exposta ao sol. O sol irá secá-la e a luz solar tem um efeito ultravioleta desinfectante. Nenhum vírus gosta disto, os vírus (incluindo o corona) sobrevivem mal fora do corpo humano e perante o calor, a secura e os raios ultravioletas. Não é um remédio milagroso, nem garantido a toda a prova, lembre-se disso: mas é 'melhor que nada' e a vida real obriga-nos muitas vezes a este tipo de escolha. Se conseguir, mantenha esta máscara assim por uns dois dias antes de pensar em usá-la de novo.
6. Será preferível que seja você a fazer a gestão das máscaras, isto é: o cuidador usa a máscara que espera por ele em sua casa, ao invés de usar uma que ele/ela já trás e você desconhece por onde andou e em que estado de contaminação pode estar (a não ser que o veja tirar a máscara de uma embalagem inviolável, aberta à sua frente). A excepção será quando se pode confiar na empresa de cuidadores: médicos, enfermeiros ou fisioterapeutas dos serviços de saúde oficiais ou privados terão, à partida, os conhecimentos, o treino e os cuidados necessários, sem necessidade de orientação por parte das famílias. Neste caso, aprenda com eles, observando bem para que possa repetir estes gestos em caso de necessidade futura.   
7. O cuidador deve lavar bem as mãos (seguindo o método descrito) no final da visita a sua casa. Deste modo não irá contaminar as suas superfícies (puxador de porta, por exemplo) na saída e diminuirá a probabilidade de contaminar a visita na casa seguinte.
8. Quando a porta se fechar sobre ele, vá ao quarto de banho e lave as mãos conforme o explicado. Depois, e se tem a obsessão das limpezas, pode-se entreter a passar um papel de cozinha molhado em álcool ou lixívia por todas as superfícies onde acha que ele tocou.
9. Tente despejar este lixo gerado todos os dias (à noite de preferência e pensando que ele deve permanecer o menor tempo possível no contentor público).

Nota final: As considerações feitas acima, mais do que sustentadas na evidência científica do último paper/artigo publicado, baseiam-se nas práticas aconselhadas em termos de medidas de precaução em Saúde Pública, conhecidas e testadas há muitos anos, e no bom-senso doméstico.

© Fotografia: pinheiro novo num círculo de proteção. Fotografia de pedro serrano, Praia da Areia Branca, março 2020. 



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