07 setembro 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 10. O Amor em Fuga

Meses passados, por inevitabilidade, Zita mudou-se das mesas da Rua de Cedofeita para o Piolho, cognome de um café que não se chamava assim, mesmo ao lado da Faculdade de Letras e ponto de encontro árduo de evitar: parecia não haver encontro ou pré-encontro que não fosse ajustado para ali. Ela já conhecia o sítio de estadias acidentais, mas jamais lhe passara pela cabeça estudar àquelas mesas! Seria forçada, incontornavelmente, a levantar a cabeça das sebentas minuto a minuto, tal era o vendaval de entradas e saídas. Depois descobriu que, ao fundo do café, havia uma escada em caracol por onde via gente desaparecer e conduzia a uma tranquila sala no andar superior. Lá, onde as janelas deitavam para a fachada lateral da Faculdade de Ciências, havia uma espécie de contiguidade universitária e sossego, e tudo quanto chegava e partia tinha de o fazer pela escada, o que trazia uma confortável sensação de segurança e controlo sobre os acontecimentos, pois conseguia identificar quem se aproximava mesmo antes da pessoa desaguar na sala: a cabeça antecipava o corpo no remoinho dos degraus!
Fora deste modo que, um fim de manhã, vira emergir a cabeçorra despenteada de Raul no patamar das escadas, o que lhe dera tempo para esconder a cara entre os cabelos e concentrar o olhar sobre os apontamentos que ia sublinhando com o auxílio de uma régua. Esteve assim uns minutos, até que o baque pesado de algo a bater no tampo de uma mesa a fez – a ela e às outras mesas – levantar a cabeça numa surpresa justificada. O tipo sentara-se defronte e olhava-a com um sorriso descarado: ficou sem a certeza se o barulho provocado pelo calhamaço não fora propositado para a expulsar do seu refúgio capilar.
“Hoje estou certo que não vou embarrar na tua mesa”, disse ele levantando umas manápulas afastadas que pareciam quantificar a distância entre eles. Ela esboçou um sorriso, fugaz e gelado, e baixou a cabeça, focando-se na tarefa de clicar mais meio centímetro de mina para fora do bico da lapiseira. 
O que mais a incomodara naquele começo de namoro tinham sido os dias em que ainda não havia intimidade, em que não saíam sozinhos, pois ele mostrava prazer em agitar o espaço em volta, não parecendo ralar-se que toda a gente ficasse a olhar e que as colegas dela se achassem no direito de fazer perguntas, de se referir a eles como se, antes de o serem, fossem já um par.
Raul, por seu lado, sentia que empurrara o namoro sozinho, que fizera toda a despesa da transacção, havia até um detalhe, impossível de partilhar, mas que funcionara como rastilho da aproximação urgente a Zita, nesses dias em que se começara a cruzar com ela nas mesas de estudo dos cafés do Porto. Próximo à rua em que morava havia um apartamento onde se entupiam outros universitários, desterrados na cidade como ele, e cujas traseiras deitavam para as janelas de um lar 'para meninas', que viviam ali, entaladas entre freiras e horas de recolher obrigatório. À noite, algumas delas, com a luz acesa, persianas por correr e cortinas entreabertas, despiam-se demoradamente enquanto se preparavam para dormir ou aguardavam vez para as abluções no quarto de banho comum. Entretanto deambulavam nuas, parcialmente nuas ou intervaladamente nuas, num à vontade que, pela naturalidade doméstica, incendiava a imaginação no prédio em frente. A notícia das sessões privadas, embora avaramente contida pelos  descobridores, chegou por boca a boca aos locatários do apartamento de Raul que, dada a vizinhança com o mítico local, passaram a visitar regularmente os colegas e a apinhar-se no quarto às escuras onde as camas tinham sido arredadas das janelas e estacionava já um par de rudimentares binóculos, pois um dos espreitas, precisamente aquele cujo nome constava no contrato de arrendamento, era ferozmente míope e os seus queixumes de não estar a ver o suficiente ameaçavam a continuidade da fruição dos restantes voyeurs. Uma noite quente, por breves instantes, esses binóculos estiveram nas mãos de Raul que, com a incredulidade do sitiado durante um assalto inesperado, viu surgir nas lentes um par de mãos a percorrer demoradamente umas virilhas (precisamente ao longo do trajecto onde se terminava o bordo de umas cuecas) e, na segunda onda de choque, observou uma dessas mãos a afastar o diminuto rectângulo de tecido branco que cobria o mons pubis para passear duas pontas de dedo da mão livre por uma superfície pilosa que lhe pareceu luxuriantemente macia. Trémulo, ao levantar um pouco o ângulo de observação dos binóculos, teve ainda tempo para aperceber uns cabelos pendentes, uma fatia de face atenta olhando para baixo, e um dedo ascendendo que se encostava a umas narinas.
“É, pá, topaste-me a gaja a cheirar a própria rata?”, comentou um espectador de modo pouco preciso.
“Não! Qual delas? A loura?... É, Barbosa, passa cá isso! Já estás aí há séculos”, protestou alguém no escuro, ansioso por, ao menos, vislumbrar uma ampliação dos despojos. Mas ele fizera orelhas moucas e pousara os binóculos em cima da mesa de cabeceira mais afastada das janelas, como se o que acabasse de ver fosse demasiado íntimo, uma revelação, um encontro, indigerível ainda, ocorrido entre ele e a rapariga do lado de lá da escuridão, a qual, de facto se limitava a inspeccionar as virilhas massacradas pela funda de um ensaio onde estivera duas horas, pendurada no palco pela cintura, a fazer de enforcada. 
Raul só ser dera bem conta de tudo isso, da simplicidade esquálida do episódio, do encadeamento de momentos e do tricotar insidioso do destino, em Penaformosa, quando a ligação ao Porto se fora esbatendo e a solidão insuportável do apartamento do Fundo de Fomento lhe permitiram tirar os toscos bonecos de dentro de si e, gradualmente, ir expondo-os pelo espaço vazio: na sala, pelo corredor, no quartito de arrumos, no seu quarto, no espelho do quarto de banho. Podiam ficar por ali, à mostra, sem ter de ser recolhidos, sem perigo: ninguém ia aparecer; o telefone não ia tocar a não ser por incumbências de trabalho, ninguém ia bater à porta com o semblante satisfeito de quem faz uma surpresa a um amigo ou a alguém que nos é querido. 
Sim, empurrara tudo aquilo sozinho, por alguma razão distante decidira que era aquela a sua linha de costa, fundeara a âncora e correra pela areia sem se certificar de quem espreitava entre as árvores. Ignorara todos os indícios e iludira a falta deles, construíra a sua imagem dela, aquilo servia-lhe e ela só podia ser assim; havia de vir a ser assim, o tempo se encarregaria de esbater as arestas dela, asperezas que ia adoçando com a miragem de uma maneira de ser onde até a possibilidade de descobrir uma sexualidade misteriosa trazia um inebriamento especial. E o tempo foi passando.
----
Na véspera dera-se o desastre. Raul era já médico estagiário da especialidade de Infecciologia, Zita finalizava a licenciatura. Misteriosamente, querendo parecer natural, mas repetindo-se tanto que ela ficara de sobreaviso, convidara-a para um fim de semana fora da cidade. “Onde?”, quis ela saber, pois detestava improvisos, não poder alinhar as expectativas por entre quadriculados de orientação.
“Ah, isso...”, respondera querendo parecer misterioso, mas com uma capa a que estava sempre a levantar as dobras. E mesmo antes de se meter no carro, que conseguira emprestado de um amigo, já ela tinha inferido pelas pontas soltas que iam para Norte e que ele teria algo importante a dizer-lhe.
Mas com o que não contava – e que a levaria a recusar o convite ou a preparar uma mala diferente – era com o local onde iam ficar hospedados: o Hotel de Santa Luzia, em Viana do Castelo; um sítio chic, poiso de gente endinheirada ou da alta burguesia! Também ele não contava que ela estivesse nos dias rubros do período menstrual, pelo que a ambientação lua-de-mel em que tencionava envolver as duas noites no quarto com vista para o mar acabou por andar sempre a esbarrar nesse constrangimento, pelo menos na barreira física, pois à outra ambos fingiam ignorá-la. E a manhã de Domingo terminara com um desanimado Raul a deixar um recado no luxuoso papel de carta do hotel, pedindo desculpa às camareiras pelo estado lastimoso em que deixavam os lençóis, bilhete acompanhado de uma gorjeta que Zita achou excessiva e ofensiva, quer para a sua condição de mulher quer para as trabalhadoras. Mas acontece que ele sabia quem eram as tais trabalhadoras, tinha-as visto, no Domingo, quando deixaram o quarto, já em cima da uma da tarde, e elas esperavam que ficasse vago para o limpar, e fora a intensidade visual desse conhecimento que o empurrara a dar alguma explicação.
Na noite da chegada, durante o jantar, propusera o casamento, o motivo central de todos aqueles preparativos. Não era assunto virgem entre eles: às vezes falavam nisso, mas ela enrolava a decisão, empurrando-a, sem dizer sim ou não, para o final da licenciatura. Desta vez, sentindo-se encurralada nas circunstâncias, antes de responder e pressentindo que toda a sala de jantar do hotel os olhava por estarem tão desconformemente trajados, levantara-se e fora aos lavabos, uma vez que o premeditado da proposta provocara-lhe uma violenta dor de estômago. Enquanto se estorcegava na retrete, aparando o par de lágrimas com o pedaço de papel higiénico que já tinha entre mãos para limpar o rabo, Raul ficara-se à mesa, beberricando vinho. O “sim” só fora dito no quarto, mas mantivera uma mão medianamente entrelaçada na dele durante o resto da refeição, particularmente para o manter sereno, pois um homem daquele tamanho dava nas vistas quando irrequieto.
Apesar de todos os cuidados, sentira o tal “sim” tão pouco consistente que teve receio que ele – o seu querido desajeitado – se desse conta da falta de entusiasmo e essa foi a principal razão pela qual se abandonara aos ímpetos comemorativos e tinham deixado os lençóis num estado a que ele, com anatómica imprecisão, se referia como “uma cagada”. Aparentemente consolado, Raul dormira o resto da noite como um bebé, mas ela ficara acordada no escuro, a pensar se não teria sido inaugurado naquele quarto de tecto alto e motivos florais nas sancas o maior disparate da sua vida. A quem estava a enganar? 
Ao amanhecer, Raul acordou com sede e viu uma silhueta nua especada à janela de sacada, a aurora lambendo de dourado o corpo lívido e esguio da noiva.
“Que estás aí a fazer, madrugadora?”
Ela voltou-se como se tivesse apanhado um choque eléctrico de alta voltagem, ele ficou algo surpreso mas tomou a reacção como resultado do excesso de emoções acumulado naqueles dois dias.
“Anda, volta para a cama; ficas gelada!”
Nem tu sabes quanto, pensou, respondendo em vez: “Vou tomar um banho rápido, sinto-me suja.”
E passou a correr para o quarto-de-banho, para não lhe dar hipótese de a colher na travessia. Raul encarou a possibilidade de se levantar e ir ter com ela à banheira, pois, na contraluz da aurora, o volume dos seios contra o corpo magro, oscilando na corrida, tinham-no exaltado. Mas algo o reteve, algo nascido no branco lacado da porta cerrada, na sensação geral que lhe deixara a noite e o sexo inerte que ela consentira. Foi então, ao virar-se na cama e ao puxar a coberta sobre si, que notou as manchas avermelhadas que enodoavam o lençol de baixo, que repassaram o lençol de cima, que tinham, inclusive, atingido o canto da fronha de uma das almofadas. Aquilo era tão totalmente indisfarçável que lhe surgira a ideia de deixar um bilhete às empregadas - elas iriam compreender, tinha até pena de não poder descer ao detalhe de anunciar que o incidente era o começo de uma outra vida para ambos; de implorar a bênção delas.
Desceram o monte já passava do meio-dia. Raul quis levar Zita a conhecer a Praça da República, a comer uma empada ao Natário, a escolher uma caixa de almendrados para a viagem de regresso ao Porto, o que sobrasse ela levaria para o apartamento em Faria Guimarães, onde agora morava com duas colegas. Zita manteve-se calada o tempo todo, pensativa, e ele viu a alegria de estar ali com ela, do que lhe ia mostrando naquela cidade que conhecia desde sempre, esvair-se aos poucos. Não teria sido assim tão diferente se tivesse ido comemorar o noivado sozinho, matutava, quando Zita, ao reparar na placa que indicava Ponte de Lima, exclamou:
“Leva-me lá...”
“Onde? A Ponte de Lima? Queres ir lá? Temos tempo de sobra...”
Fez pisca e virou na estrada mesmo a tempo, ainda surpreendido pela sugestão, mas sem dizer fosse o que fosse, pois farejava um clima peculiar dentro do carro. Teria sido a porra do bilhete? A gratificação excessiva?
Ao chegar a Ponte de Lima viajaram ao sabor das ruas e ao desembocarem perto da ponte dos arcos ela pediu que parasse o carro, ficando ali, absorta, a olhar o rio. Depois comunicou:
“Fico aqui. Podes ir embora, escusas de esperar por mim; não volto contigo.”
E saiu do automóvel, deixando-o tão atónito que quando recuperou, estacionou o carro e se pôs à procura dela, já não a conseguira encontrar. Ponte de Lima não era assim tão grande, insistiu na busca por mais de uma hora e só parou quando começou a repetir ruas. Exausto, com as plantas dos pés a latejar, sentou-se na esplanada de um café e trincou qualquer coisa, podia ser que ela passasse, entretanto, já distraída de se esconder, já farta de estar sem companhia. Nada disso aconteceu e regressou ao Porto sozinho.

(continua)

© Fotografias, de cima para baixo: 1) pedro serrano, Porto, 2014; 2) Manuel Campos Monteiro, Viana do Castelo 2020. Pintura:Felice Casorati, Notturno.

Sem comentários:

Publicar um comentário