21 maio 2010

AMOR À SEGUNDA VISTA

Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Deixa-me deixar-me de rodeios e praticar, por uma vez, aquilo que advogo nas minhas palestras de marketing: as palavras-chave devem, em qualquer tipo de comunicação, aparecer em posição-forte, isto é, logo a abrir o discurso.
Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Sinto não estar a dizer-te nada de novo, meu bem, acho que estás cheia de o saber. Passei este tempo todo a dizê-lo por outras palavras, algumas delas bem tangentes ao discurso directo. Mas, com estas coisas, a gente nunca tem a certeza, pelo menos a absoluta. (Já te disse isto num mail recente, enroupado em outras vestes como às vezes acontece com o  que te quero dizer e não sou assim tão suposto fazê-lo.) Com estas coisas… Gente apaixonada nunca tem a certeza da reciprocidade, precisa de confirmação constante. É um estado inseguro, de tonturas, como andar em saltos altos pela passadeira de ripas de madeira que leva à esplanada do bar da praia onde te vi a primeira vez, onde me foste apresentada de raspão e tomámos uma bebida lenta ao fim da tarde. Admito, pois, que não tenhas a certeza absoluta, que, pelo menos, não saibas exactamente quando e como isso aconteceu. Mas eu digo-te, querida insolúvel.
Apaixonei-me por ti a segunda vez que te vi.
Posso encaixar a ocasião com uma precisão de meia-hora, sabias? Foi numa sexta-feira, entre as oito e meia e as nove, de uma gélida e nítida noite de Janeiro. 12 de Janeiro, que dois algarismos tão bonitos. Iria jantar a tua casa, devíamos encontrar-nos na Confeitaria Imperial, o local público mais perto dela e acessível ao meu conhecimento geográfico na vastidão de Lisboa.
“Não consigo estar lá antes das sete e meia…”, disseras ao telemóvel.
Sete e meia… Agora sei o que são as tuas sete e meia da tarde, o sair da empresa, a travessia do eixo Norte-Sul. É aquele intervalo em que, tantas vezes, recebia uma mensagem tua a dizer “olá”, ou outra perguntando “o que estás a fazer?”, um sinal para que um de nós discasse o número do outro e ficássemos ali a falar, esquecidos, eu, num sorriso mental, ouvindo o pisca do teu carro a piscar em Lisboa, os teus “mas este tipo não conhece o código da estrada?!”, os teus “sabes como é?”. 
Mas à época, a segunda vez que te ia ver (a primeira após o nosso encontro na convenção do Alvor e a bebida lenta na esplanada), não sabia nada de nada sobre ti e, ainda antes das sete e meia, o meu Passat desaguou suavemente nas proximidades da confeitaria. Era fim do dia, havia carros a abandonar o local e estacionei mesmo naquele espaço em frente à esplanada, no separador central, entre as árvores, sabes onde é. Entrei na confeitaria, que, afinal, é maior do que o imaginava pela tua descrição, sentei-me a comer à pressa uma castanha de ovos, estava morto de fome. Não comia nada desde o almoço, muitas horas antes, no Porto, num restaurante manhoso de Santa Catarina, perto da esquina com o Marquês.
Despachei o bolo a toda a velocidade. Não queria ser apanhado a atafulhar-me de comida, uma sem-delicadeza para quem foi convidado para jantar, como se desconfiasse que pudesse passar fome chez toi! Mal sabia que poderia ter comido aquele bolo e muitos outros… 
A confeitaria quase vazia, os dois empregados mal reparavam em mim, entretidos a ver na TV as notícias da prisão de um dirigente político que já fora ministro da Justiça. Para não estar ali sem nada nas mangas, pedi um café. No meu relógio, as oito da noite aproximavam-se.
“A que horas fecham?”, perguntei, temendo que estivessem a entreter o fecho do estabelecimento deserto por minha causa.
“Oh, só às nove”, descansou-me o tipo que parecia mais compatível com a figura de gerente.
A mesa onde me sentara era ao lado do balcão, vizinha de uma janela que dá para o exterior e por onde podia ver quem chegava. Sem a perder de vista, pus-me a estudar a montra envidraçada do balcão, por trás da qual se arrumavam doces e guloseimas: ovos Kinder, cigarros de chocolate, gomas coloridas, caixas de chicletes, tubos de Smarties… A mercadoria interessava-me, sabia que a minha anfitriã tinha um filho pequeno, um menino de idade incerta, mas qualquer coisa como entre três e quatro anos. E eu não trazia nada de nada nas unhas: nem umas flores para a dona da casa, uma garrafa de vinho para o jantar, uma lembrança para o menino… Tinha ali a minha última oportunidade de remediar a rudeza e a pressa em chegar a horas. 
O mais fascinante em todo aquele sortido era, sem dúvida, os cigarros de chocolate. Belos maços de cores bem afirmadas, vagamente semelhantes a cigarros verdadeiros mas com ar atraentemente artesanal, cada um dos cigarros do maço embrulhado em papel de prata… Mas como seria encarado tal presente? Eu sabia lá dos enquadramentos, possivelmente politicamente correctos, do pai e da mãe do menino? Poderia escavacar anos de educação em segundos, causar uma decepção fatal, ser excomungado por isso. E se fosse os ovos Kinder?
Ovos Kinder era uma opção também muito interessante. O chocolate é bom, castanho por fora e branco-brilhante por dentro, uma surpresa aninhada em cada um deles, um brinquedo em pequenas peças que, depois de montadas, se transforma no milagre de algo que não poderia nunca ter cabido em espaço tão exíguo, uma magia semelhante à contorcionista que se consegue enfiar num aquário para peixinhos vermelhos… Imagine-se a alegria risonha, as palmas da criança. Mas seria o menino suficientemente crescido para lidar com ovos Kinder? É que aquelas peças mínimas, o perigo de sufocação se engolidas, o interditas a menores de 36 meses… Acabei por me decidir pelos ovos Kinder. Oito e um quarto…
Oito e vinte e eu sem mais com que me entreter. Castanha de ovos, café, água sem gás, ovos Kinder, o nervosismo de olhar pela janela de cada vez que um carro parava. E em sérios riscos de gelar ali mesmo, o frio, que se mantivera apenas vizinho na primeira meia-hora, apossara-se de mim com violência. Que frio, porra, parecia até que atravessava o vidro!
Resolvi mudar de estratégia. Paguei, saí, desloquei o carro para ainda mais perto e  deixei-me ficar dentro, o aquecimento a lamber-me os pés congelados, a janela mais do lado do café com o vidro aberto para a poder ver chegar com nitidez. Se ela viesse, claro, pois às oito e meia começava a duvidar de tudo. Será que teria dito “oito e meia” e eu tinha entendido “sete e meia”? Será que teria desistido daquilo tudo e ia deixar passar a noite sem aparecer, telefonando-me no dia seguinte com uma desculpa qualquer? Que se enganara na data? Que o palm-top ficara sem pilhas? Que se arrependera? Todas estas interrogações, adicionadas ao torpor árctico que o pobre ar condicionado não conseguia resolver com a janela aberta e à fome que voltava a rondar, estavam a fazer-me escorregar para pensamentos desanimados.
Que estupidez tudo aquilo! Que estava eu ali a fazer, parado no meio de uma cidade meio estranha, uma sexta à noite, a 300 Km de casa? À espera de uma desconhecida que, num longínquo telefonema três semanas atrás, me pedira para dizer alguma coisa quando fosse a Lisboa. Mas que estúpida importância eu atribuíra àquilo tudo! Palavras de mera e formal cortesia, tomara-as eu por algo de concreto e agora estava à espera de alguém que, dava conta com desespero, não sabia quem era. Mails e sms! Podia ir parar a um local onde me fosse sentir tão deslocado como um camarão no deserto; invadindo a privacidade e o fim-de-semana de pessoas que, era o mais seguro, prefeririam não me estar a aturar numa sexta à noite! Uma delas, sem contar com a criança, não me tinha nunca visto, sequer! Oxalá ela não aparecesse, comecei a desejar. Claro que tinha o telefone dela, mas não me ia pôr a telefonar, a saber se se esquecera de me dar de jantar! Ia esperar quanto mais? Eram quase nove menos um quarto, talvez já fossem até nove menos um quarto.
Pensava eu em tudo isto, virado para a janela e acompanhando com suspiros de desânimo que se materializavam no ar gelado, quando vi um vulto rápido caminhar para a confeitaria, entrar e, momentos depois, voltar a sair para a noite. Era ela. Não podia ter a certeza só pelo que via – uma figura ao longe, no escuro – mas tive a certeza que sim. Saí do carro, atirei um vocativo por sobre o tejadilho. Ela olhou na minha direcção. Dei a volta ao carro e vi-a, do outro lado do passeio, aproximar-se, a gola de um casaco de cabedal levantada, o cabelo meio embutido nela. Um pouco antes de me alcançar atirou ao chão o cigarro que vinha a fumar, pôs-se a pisoteá-lo com a biqueira da bota. Depois levantou a cabeça e olhou-me.
Era ela, sim; tive então a certeza. Era a mesma pessoa da convenção no Alvor e surgiu como uma revelação: eu iria com ela para qualquer parte do mundo. Não havia ali nenhum equívoco. E, assim, nesse estado de iluminação e graça, a segui para onde decidiu levar-me.
© Fotografia: Pedro Serrano, Lisboa 2012.