06 maio 2010

NICOLE! (uma história nojenta)

Hoje a Nicole cagou na banheira. Foi após o jantar, eu estava na sala, estirado no sofá, a ler confortavelmente um livro do Henry James e esticando de vez em quando o braço até ao chão para, sem que por isso tivesse que desviar os olhos da página, tomar na mão livre o cálice de whisky irlandês com que ia pontuando a leitura; quando, como ia relatando, rompendo o absoluto silêncio em que me achava imerso, me chegou aos ouvidos um som estranho, persistente, como proveniente de uma superfície a ser riscada.
Descansei o livro sobre o peito e escutei um pouco, tentando descortinar, por um processo de justaposição com o meu arquivo mental de sons, ao que aquele ruído poderia corresponder. É certo que não pensei logo nela, mas também não me sobressaltei. Era noite, estava sozinho em casa, mas há sempre a possibilidade de ouvirmos barulhos no meio do silêncio. Sei lá: um estremecer do motor do frigorífico, um trinco de postigo solto que vibra com o passar de um carro; uma vez estive até intrigado por mais de dez minutos antes de descobrir que uma arrepiante sonoridade, semelhando palha-de-aço a roçar metal esmaltado, era, afinal, provocada pelo arrastar da casca de um caracol que se passeava ao longo da vidraça da janela do escritório.








Mas aquele som, senhor de certa secura no timbre, não se esclareceu com esta primeira análise e, então, levantei-me, de livro na mão – o indicador  a servir de marca à parte onde tinha suspendido a leitura, caminhando pelo corredor e acendendo as luzes à medida que progredia noutros espaços da casa. O som vinha da casa de banho, percebi-o logo que passei junto à porta, mas ao inverter o sentido da patilha do interruptor e observar o espaço que se iluminou não vi, assim de imediato, nada que esclarecesse a minha curiosidade. Também é verdade que se acabámos de levantar o braço e a mão até um nível que ronda o do ombro, a plausibilidade de o olhar seguir a perspectiva aberta por esse gesto é porventura a mais frequente. Pelo menos assim o julgo e comigo assim aconteceu até o raspar se tornar de novo mais forte no campo de consciência e, então, o meu olhar foi puxado para um nível inferior.
Ela estava dentro da banheira, na metade mais próxima do ralo, e o ruído que me interrompera a leitura provinha do movimento das unhas das patas dianteiras sobre a fibra de vidro com que, hoje em dia, são moldadas as banheiras mais comuns.
O que Nicole tentava com esse esgravatar era, absurdamente, ocultar, cobrindo-as, fezes que destoavam no branco intenso da banheira. Mais do qualquer outro pormenor, nesse primeiro instante, chocou-me a incongruência dos seus movimentos, os quais, se produzidos num contexto que inclua terra ou areia sanitária, nos levam ao louvar do grande asseio dos gatos na resolução da situação pouco confortável que resulta de fazerem as suas necessidades, por assim dizer, em público; e, paralelamente, a discorrer sobre a inteligência prática de que são dotados, virtudes que, não raras ocasiões, vemos traduzidas em expressões sentimentais por parte de donos embevecidos. 
E afigura-se genuíno esse procedimento dos felinos domésticos se o defecar (também sucede com o urinar, mas a densidade do bolo fecal, por mais substantivo, sublinha melhor a demonstração) ocorre em terreno aberto ou até nas suas caixinhas de areia especial, mas como tudo se modifica quando nada há com que os pobres bichos possam cobrir os indecorosos resíduos! É quase doloroso presenciar essa incapacidade do animal e, sobretudo, assistir ao desossar de um comportamento que involui de algo que parecia alicerçado na inteligência e se manifestava de um modo tão ternamente antropomórfico, para um determinante arcaico, um esgar automático desprovido de sentido. 
Como, em ocasião posterior, confidenciei ao meu amigo Teodoro van Brizgarten, também ele senhor de um magnífico Persa e interessado nestas coisas da etologia, de tão estranhamente patético só me ocorria, à escala animal, o quadro em que, durante a cópula entre canídeos, o receptor decide avançar uns passos deixando o pobre remetente contorcendo-se nos aflitivos espasmos de uma ejaculação não apoiada.  
Fui arrancado a estas cogitações pelo odor nauseabundo que entretanto me agrediu as narinas e que acompanha a deposição recente de fezes de gato. É odor tanto mais terrível quanto mais temporalmente próxima se produziu a defecação e que se vai tornando mais tolerável à medida que as fezes vão secando e perdem a potência volátil inicial, mas, em qualquer circunstância, diria que “não é flor que se cheire”... É, na realidade, difícil caracterizar com exactidão a fedença do material fecal recente de um gato, uma mistura infeliz entre o já de si peculiar recender a fezes ao qual se acrescenta um perfume profundamente enjoativo, como o de certos frutos exóticos que povoam os expositores das ruelas de Hong Kong ou Banguecoque.
Foi assim que se me tornou clara a necessidade de acção como correctivo para aquela situação. Nicole tinha já saltado da banheira, pois considerava a sua missão de ocultação terminada e ali estava eu perante um diagnóstico que era preciso completar para, a seguir, definir prioridades de actuação e as estratégias a desenvolver para pôr fim ao perturbador episódio.
Em primeiro lugar, havia o problema 'cheiro' e eu sabia, de incidentes anteriores com Nicole e com T’ang, o seu predecessor, os pródromos de vómito que me assaltariam quando, forçoso era, me debruçasse na banheira para recolher as fezes, pois, e isso era uma evidência que se impunha sem necessidade de julgamento aprofundado, estava fora de questão abrir a torneira da banheira e esperar que tudo se resolvesse através de um milagroso dilúvio... Não, as fezes eram demasiado volumosas, demasiado sólidas para tal solução, a não ser que ajudasse ao seu fraccionamento com algum objecto que as tornasse passíveis de atravessarem os orifícios do ralo, mas isso, lá está, amplificaria de modo insuportável o odor da questão.
Eram três peças, duas delas semelhando no feitio pequenas salsichas de um castanho chocolatado (chocolate de leite, dado que o chocolate com um teor de cacau que ultrapasse os 70 % é de tonalidade praticamente negra) e perfeitamente moldadas nessa imitação de charcutaria, e uma terceira, aposta sobre as anteriores, com a mesma coloração mas uma consistência de puré de maçã, obviamente (pela posição cimeira e pela menor consistência) a última a ser expelida. 
Na emergência, trouxe da marquise a pá de plástico que uso para recolher pó e à casa de banho de serviço tomei emprestada a vassourinha de piaçaba que repousa dentro do vaso de porcelana por trás da sanita. Sentia-me um nada inseguro quanto à capacidade da vassoura para empurrar de forma eficiente a porção de fezes mal moldada para dentro da superfície da pá, o mais provável seria que ela se esbarrondasse e lambuzasse todos e cada um dos pelos da piaçaba, mas logo se veria, não podia ser tão pessimista a priori! Podia, ao invés, ter sorte, e empurrando a massa fecal por baixo – fazendo pressão sobre os dois segmentos moldados, conseguir afinal arrastar tudo, em bloco, para dentro da pá sem grandes sobressaltos. Há sempre um intervalo de incerteza em tudo o que se leva a cabo.
Já na casa de banho, ralhando em voz alta a Nicole que aparecera à porta atraída pelo cheiro que flutuava no ar, sentei-me na sanita a construir dumas mechas com papel higiénico retorcido, as quais introduzi nas narinas o mais fundo que pude.
“Sua feia”, invectivei-a numa voz fanhosa, “então não sabia ir à sua caixinha!? Má, quem é que é muito porca e má?”
As coisas, como tantas vezes sucede na vida, correram um meio-termo entre aquilo que temia e aquilo que desejava, isto é, não foi tão difícil quanto isso fazer deslizar as fezes para dentro da pá, embora a vassourinha tenha, no final do processo, ficado um tanto viscosa com os resquícios do terceiro poiozinho. 
Atirei com tudo para dentro da sanita, puxei o autoclismo três vezes e deixei uma pastilha desinfectante de WC-Tabs a borbulhar no fundo. Já na marquise, enfiei a pá e a vassourinha dentro do pequeno tanque de cimento, o todo bem afogado numa solução de lixívia perfumada.
A alma, porém, caiu-me aos pés quando, ao atravessar a marquise para regressar à sala, o meu olhar chocou com os domínios da Nicole. A tigela de água estava pela borda, o pires de comida atafulhado de biscoitos em forma de peixinho, mas a caixa de areia estava vazia e o plástico cor de rosa brilhava nu e acusador! 
Corri ao frigorífico e, com mãos trémulas de remorso, esventrei uma latinha de paté de salmão. Pobre querida, tão aflita, a caixa sem areia e eu a ralhar com ela! E, que tocante, o modo tão asseado como torneara a situação. Mais razoável do que eu! Oh, quanto mais...
“Nicole”, chamei, comovido, a lata de paté numa mão, o telemóvel na outra. Ela lá veio, do fundo do corredor, trotando nas suas pantufinhas de pelo branco, o guizinho dourado da coleira soando argentino como o trenó do Pai Natal.  
“Teodoro, espero que estejas sentado! Tu nem imaginas o que acabou de me acontecer...”, disparei mal ele atendeu.

(Novembro, 2002)


Primeira fotografia: © Pedro Serrano, 2010.

© Mia, fotografias de Pedro Serrano, 2006 (segunda foto) e 2007 (foto acima).