16 maio 2011

VOU-TE CONTAR: 36. O mistério das agendas pretas




Quando, logo após a sua morte, fomos obrigados, por circunstâncias legais, a mexer nas coisas do nosso pai, encontrei, numa das gavetas da sua escrivaninha, as agendas que usava para apontar os afazeres da vida diária. Estas agendas cobriam os anos entre 1949 e 2007, o ano da sua morte e, a uma primeira vista, todas pareciam ser do mesmo modelo: pequenas agendas de 10 cm de altura por 7 de largura, isto é, ocupando à justa a palma de uma mão, concebidas para caber no mais pequeno dos bolsos de um casaco ou de umas calças. 
Como não eram de utilidade prática imediata e tapavam, como um revestimento de ladrilhos, os documentos que se acumulavam sob elas na gaveta, amontoei-as, sem grandes escrúpulos e literalmente às mãos cheias – pois eram mais de meia centena – num dos compartimentos da estante do escritório. Logo se veria o que fazer com elas. 
Quase três anos depois, numa tarde abrasadora de Julho, dei comigo a dispô-las sobre a mesa da sala de jantar da casa do meu pai, casa a quem tinham sido escancardas portas e janelas para que eu aí passasse uns dias de férias, longe de mofos e sombras tristes. 
Sem um propósito demasiado consciente comecei a agrupá-las pelas seis décadas a que se referiam e, ia a tarefa pela metade, dei-me conta que, no monte geral, havia duas agendas que, por serem um tanto maiores, destoavam do tamanho monotonamente uniforme de todas as outras. Eram ambas de capa preta, uma delas, a maior e mais espessa, com o ar esbarrondado de objecto que foi muito manuseado. Na parte inferior da capa, uns números desbotados pareciam indicar o ano de 1935, mas o último algarismo estava de tal modo sumido que a abri para confirmar o ano. Ao fazê-lo, um pequeno pedaço de papel mata-borrão cor-de- rosa tombou sobre a mesa, revelando o intricado padrão tecido pelas manchas do excesso de tinta absorvidas ao longo desse ano. Com ele, aterrando mais longe por ser muito fino, um pedacinho de papel onde se dispunham, manuscritas, aquilo que, supus, seriam as classificações obtidas na disciplina de Ciencias de uma série de indivíduos: Barbosa, Caria, Franklim, Matos, Serrano, Paiva, Fonseca, Pereira, e Ribeiro. 
A agenda era, efectivamente, de 1935 e, num folheio rápido, verifiquei que estava densamente povoada de anotações. A outra agenda, melhor conservada e menos preenchida, dizia respeito a 1937, isto é, aos dias em que o meu pai tinha entre 20 e 21 anos de idade. Não havia, em todo o lote, mais agendas desta época da vida dele e a agenda cronologicamente mais próxima destas duas referia-se ao ano de 1949, ano em que nasceu a minha irmã mais velha. 
Sendo o meu pai um tipo metódico, que começou a registar os seus dias tão precocemente, seria de supor que tivesse continuado a fazer registos ao longo dos restantes anos da década de 30 e durante todos os nove anos da década de 40 que precederam o nascimento da Clarinha. Assim sendo, quais as razões que o teriam levado, em detrimento de possíveis outras, a conservar aquelas duas agendas tão díspares, em cronologia e aparência, das outras todas? 
No final da tarde, o calor ganhara uma intensidade absurda e, durante a noite, chegou mesmo a trovejar, uma tempestade seca que se acabou em mais calor ainda. Deitado na cama que fora a do meu pai, sem conseguir dormir por causa de um ar pesado como chumbo onde os meus pulmões abriam caminho à força, a meio da noite desci ao rés-do-chão para preparar água com gelo e umas pingas de limão. Na mesa da sala de jantar, imóveis no silêncio nocturno, destacadas das pilhas ordenadas, as agendas pretas chamaram por mim. Tomei-as e levei-as para cima. Quando, finalmente, apaguei a luz o quarto não retornou à escuridão que pensava esperar-me, mas uma luz acinzentada infiltrava-se pelos interstícios dos estores e um som de água corrente chegava do jardim. Levantei-me e espreitei: no quintal, as grandes folhas estacadas dos feijoeiros tremeluziam sob um jacto transparente, mas, da minha atalaia, não conseguia ver quem as regava.


© Fotografia de Pedro Serrano, Porto, 2010.