05 novembro 2011

Sobre putas e vinho verde


Aos dezoito anos acreditava na redenção das putas e nas virtudes da escrita automática, actividade que praticava com três amigos numa mesa de sala de jantar ali perto da Rua da Quinta Amarela. Em substância, todas essas putas eram vagas como a lua que, em meses ímpares, cintilava no verniz da mesa.
Quando Aloísio lhe passou o bloco de papel, para excitar o gatilho da sua contribuição na nova rodada de escrita automática, leu a última linha que o amigo escrevera, depois a penúltima, e a antes dessa...
Uma tarde de Verão indolente, abatida sobre mim, que quedava espapaçado sob uma tília numa cadeira de convés, contou-me como fora violada numa passagem de ano num pequeno hotel de Londres, onde se entediava com a mãe e umas tias de província. Parece que o baterista da banda que tocava na sala anexa ao hall, um tipo despenteado e com a barba por fazer, já um pouco entrado nos anos e nos copos, a fitara toda a noite com insistência. Depois, sem que ela soubesse como, bateram à porta do quarto, a mãe já roncava no novo ano. Ele olhou com um ar descarado para a camisa de noite dela, para o ar ensonado e as coxas nuas e disse que tinha um quarto no andar de baixo, entre a recepção e a sala do pequeno-almoço. Ela (e achou na altura que apenas por tédio) disse “espera aí” em inglês, foi vestir umas calças e uma camisola por cima da camisa. A noite, contou-me, a boca enfiada na minha orelha, os cabelos negros a comichar-me os cantos do nariz, fora uma merda: o gajo estava incoerente dos copos, tratou-a com a brutalidade que entendeu conveniente a uma concordância tão rápida, e uma primeira foda nunca é nada de jeito, como toda a gente sabe mas ela não sabia ainda. Tinha ficado muito traumatizada, confessou-me a coitadinha, puta que a pariu e eu quase a pedi em casamento nessa tarde de Verão indolente sob a tília.
As putas que ele imaginava, pelo contrário, falavam pouco e moviam-se com o modo ausente de fantasmas, a cabeça meio inclinada, como se ocultassem um segredo iluminante; todas carregavam olhos angélicos e mãos de dedos finos cujos gestos ficavam gravados a preto e branco na memória como um filme das fronteiras da nouvelle vague. Respondiam a nomes simples como Joana ou Maria, havia uma estrangeira chamada Jeanne e uma canadiana sardenta chamada Marianne. Moravam em apartamentos quase vazios, um colchão no chão, esquálidos guarda-vestidos; nas noites invernosas rolos de cotão corriam pelo chão como as bolas de ervas sem raiz que rolam nos filmes americanos. Insone, escutando o vento nos estores, apanhava um livro dela do chão, onde ficara abandonado: eram os Pensamentos, de Pascal, na versão original francesa. Sim, podia ir longe com uma puta daquelas, ela podia até redimi-lo de um futuro incerto e demasiado teórico.
Em silêncio passou o bloco a Alexandre, levantou-se, foi espreitar pela vidraça. Lá fora, a chuva caía sem parar, alaranjada como gasolina no tracejado de chuveiro em torno dos candeeiros. Um carro passou, os passageiros embaciados fora de vista. Apeteceu-lhe uma francesinha, olhou para trás. Alexandre terminara o seu contributo, estendia o bloco a Álvaro; este fitou-o e, como se adivinhasse, disse:
“Prepara-te, a seguir és outra vez tu, André.”

© Fotografia de Pedro Serrano, Cabo Verde, Setembro 2011.