21 dezembro 2011

O CANTAR DAS CHÁVENAS


Da direita para a esquerda: Domingas, Chitungo, Ana Cristina.
O encerramento do curso teve lugar no Sábado, mas já quinta-feira lhe nascia uma lágrima ao canto do olho.
“Então, Domingas...?”, repreendia-a carinhosamente a Ana Cristina.
“Já viu, doutora”, lamentava-se ela, “prá semana já não vai estar cá ninguém...”
E enquanto nós e os alunos rodopiávamos de azáfama, achando o tempo curto para o muito que ainda faltava concluir, ela antecipava uma eternidade silenciosa e solitária.
A Domingas é uma mulher jovem, baixinha e tímida, apagando-se na modéstia da sua função e, na soma disso tudo, demorei a dar-me conta da dimensão daquela pessoa que me saudava com um sorriso envergonhado todas as manhãs quando, ao bater das oito e meia, eu atravessava o átrio, enfeitado com plantas a crescer em garrafas de plástico cortadas ao meio, que levava à cave onde decorriam as aulas. Por volta das dez e um quarto ela descia contidamente as escadas e, pouco depois, ouvia-se um discreto tilintar de chávenas por trás do biombo azul que separa a sala da mesa redonda onde era posto o lanche do meio da manhã. Café, chá, sumos de fruta e, consoante os dias e as subscrições, bananas, bolachas, mel, cuscuz de milho com manteiga, ou rissóis de atum, pizza de atum, pastéis de atum, que o atum é um peixe popular e abundante em Cabo Verde.
“Domingas”, dizia eu, brincalhão, “corta-me uma fatia de bolo de atum?”
Ela ria, transformando os olhos amendoados e inteligentes numa fresta, devolvendo-me a piada na próxima oportunidade. Depois, a cada dia que passava, fui notando a presença daquela rapariga que, no intervalo dos lanches e das limpezas, se sentava no topo da mesa da biblioteca, compenetrada num dos abundantes portáteis do Centro de Formação e Especialização Médica.
“Que é que você procura aí?”, perguntava, curioso.
Ela encolhia os ombros, acanhada e modesta, mas traindo-se no à vontade com que usava o rato.
“Coisas... Notícias, o Messenger...”
“Nunca pensou em estudar?”, queria eu saber, achando que lhe calhava bem aquele fundo de estantes de livros e a atenção dedicada à tarefa de navegar no éter, tão distinta da pose com que nos servia o café e os bolos, com que nos ia cumprir um recado.
Acenou que sim. Tinha estudado até ao sexto ano, depois interrompera, tivera dois filhos, inscrevera-se outra vez nas aulas mas desistira por falta de tempo, de estímulo.
“Aproveite agora, pense nisso”, insistia, pois ia percebendo como era sagaz aquela pequena mulher que, com o assentimento amistoso de todos os alunos do Curso, iniciava a preparação dos nossos lanches pela reserva de uma porção do mesmo para os filhos pequenitos que a esperavam em casa.
No Sábado de manhã, lá andava ela, impecável na sua camisa branca debruada a anil, na saia azul do seu uniforme de servente, apagando-se naquela multidão de ministros, embaixadores, directores, representantes, a TV de Cabo Verde, mas sempre desperta para os pormenores e pequenas necessidades.
Antes da debandada, todos quisemos tirar fotos com ela, o Chitungo (um médico angolano, do Huambo), na seu jeito generoso, não a esqueceu nos embrulhos de Natal que distribuiu por todas as colegas do Curso. Depois das fotos tiradas, ela continuou junto de nós, servindo de fotógrafa a todas as possíveis poses do grupo, pegando, à vez, em cada uma das cinco máquinas digitais enfileiradas sobre o gerador com o à vontade de uma profissional, disparando sem hesitação e vindo-nos mostrar cada um dos enquadramentos a que chegara.
No último beijo, no último abraço, ela voltou à sua ideia fixa:
“Ai, doutor, já viu como vai ser na segunda-feira? Nem vou ter que fazer, aqui sem ninguém na sala lá em baixo...”
Sim, saudade era uma palavra e um sentimento que todos os presentes conseguiam partilhar, e cada um no seu jeito angolano, português, cabo-verdiano, guineense, são tomense, ia ter saudades daquele ano passado junto, mas ninguém as iria sentir morder na pele como ela quando, por volta das dez e um quarto da manhã, lhe faltasse o tilintar das chávenas na sala lá de baixo.

© Fotografias: (1) Almeida Chitungo; (2) Pedro Serrano. Praia (Cabo Verde), Dezembro 2011.