10 dezembro 2011

O TÁXI HUMANO

Aqui, na cidade da Praia, vou todos os dias tomar o pequeno-almoço ao Pão Quente, um café-pastelaria de índole fortemente caseira, onde me sento e peço, em português sonolento, a uma das empregadas de turbante cor-de-laranja: "Queria uma carcaça com queijo, sem manteiga, e um Ucal de chocolate fresco..." No estrangeiro, melhor do que isto, é difícil de imaginar, não?
Pois o Pão Quente do Plateau, aquele que frequento de manhãzinha antes de começar o trabalho, está pujante e abriu agora duas filiais na cidade: uma no Palmarejo, lá para os lados do Palácio do Governo, e outra na Achada de Santo António, mesmo em frente aos nossos apartamentos da Cooperação Portuguesa.
Hoje, que é Sábado, fui lá tomar o meu pequeno-almoço tardio e, enquanto esperava, fui reparando que, por cima da caixa, havia uma fotografia emoldurada de um velho senhor sorridente, na qual, como legenda, se lia "DÁTI, Táxi humano". Curioso, como sou, não demorei a perguntar quem era e porque ali estava aquele retrato. 
A moça do turbante cor-de-laranja de serviço aos trocos explicou que Dáti era um homem que transportava, fosse o que fosse, de um local para qualquer outro local, cobrando sempre a quantia de 2$00 escudos (cerca de 17 cêntimos), independentemente da distância percorrida e da carga ser um bidão de água, uma bilha de gás ou um saco de cimento.
Dáti morava numa casinha modesta, situada no local onde agora inauguraram o Pão Quente da Achada de Santo António, e, embora já falecido, continua a ser um personagem querido na zona.
"Ah, então foi uma espécie de homenagem que vocês lhe resolveram fazer..."
Ela abanou o turbante afirmativamente e fechou a gaveta da caixa registadora sobre o troco que pousara na palma da minha mão.






Fotografias de Pedro Serrano: (1) Praia, Santiago, Dezembro 2011; (2) Pão Quente do Plateau, Praia, Santiago, Setembro 2011.