27 dezembro 2011

SAUDOSAMENTE


Como todas as mulheres cabo-verdianas, a Ministra Adjunta e da Saúde é uma mulher bonita, particularmente quando lhe é permitido relaxar da pose fechada dos momentos oficiais e nos brinda com um sorriso expressivo e um olhar inteligente e incisivo.
A senhora chama-se Cristina Fontes e aquele ‘Adjunta’ que antecede o  cargo de ‘Ministra da Saúde’ quer dizer que é também adjunta do primeiro ministro do país. Mas, afinal, que é isso para quem já foi Ministra da Reforma do Estado e da Defesa ou seja, para quem já mandou em todos os homens armados do arquipélago?
No dia 17 de Dezembro, enquanto por aqui se batia o dente, a cidade da Praia amanheceu azul e quente e, ainda não batiam as dez da manhã, já eu suava em bica, estrangulado pela gravata de cerimónia que o encerramento do Curso, de que era um dos responsáveis, aconselhava e a presença de duas ministras e meia (duas da Saúde, mais o tal acrescento de ‘Adjunta’) tornava obrigatório.
Durante a tarde soubemos da morte de Cesária Évora e pensei até que o jantar para que a Ministra, gentilmente, nos tinha convidado poderia ser cancelado perante tal desgosto nacional e a perspectiva de três dias de luto.
Quando a Ministra chegou ao hotel onde decorreria o jantar, meia-dúzia de portugueses comentavam o emblemático e recém-cometido gesto do Futebol Club do Porto: no início do jogo dessa noite fizera-se um minuto de silêncio no Estádio do Dragão e as dezenas de milhares  de pessoas que enchiam o recinto puseram-se de pé e entoaram o “Saudade”. Juntando-se ao pequeno grupo, a Ministra ouviu a história e vi, pela sua expressão e pelo pedido de repetição de alguns detalhes, que a homenagem portuguesa a tinha impressionado.
Mais tarde, já durante o jantar, o grupo musical que abrilhantava o fundo sonoro, tocou o “Saudade” e a Ministra, mal eles terminaram a canção, pediu o microfone ao cantor e falou o que lhe ia na alma. Sobre Cesária, fundamentalmente, e o que ela acabara por ser ao tornar-se, pela música, embaixatriz de Cabo Verde no mundo. Não deixou, como eu sabia que aconteceria, de referir o que se tinha passado, escassas horas antes, num estádio de futebol português e o quanto isso lhe fora grato conhecer.  Encaixado entre benfiquistas e sportinguistas, que os meus comparsas portugueses no jantar eram todos do Sul, senti o quentinho que subia em todos nós daquela salva de palmas e, adjunto, um suplemento de brilho pela iniciativa mais bonita daquele dia ter brotado em gente da cidade onde nasci.   

© Fotografias: (1) Expresso das Ilhas, Cabo Verde; (2) Pedro Serrano, sobre convite do Ministério da Saúde de Cabo Verde, 2011.