15 março 2013

NA ETERNIDADE, DE MANHÃZINHA


É dos sonhos que tiro esta impressão.
A minha mãe morreu há quase quinze anos, o meu pai há – hesito – cinco... Durante este tempo todo, sempre que surgiam nos meus sonhos, apareciam-me como seres mortos, estado que se traduzia quer por se comportarem estranhamente (levando-me a olhá-los de lado, noutro patamar que não o da intimidade; sem receio, mas não como carne da minha carne) quer por aparecerem ostentando avisos físicos de não-vida:  permaneciam como seres em silêncio e incapazes da frase, demasiado brancos ou pulverulentos na cor da pele ou, ainda, vestidos de um escuro que não lhes era habitual. E eu, que visto de fora, seria objectivamente caracterizado por estar a dormir, dizia a mim próprio, à minha consciência sonhante e compassiva:
“Ah, coitadinhos, estão mortos e não o sabem...”
Tudo isso parece estar em mudança. Não quero dizer que essas poses de fantasma tenham deixado totalmente de me assombrar, mas dou comigo a sonhar com eles num recuperado estado de ressurreição, voltando à vida que, em tempos que já lá vão, vivi com eles e me devolve o infantil à vontade de entrar, de rompante, por um quarto dentro e dizer:
“Mãe, já acordei...”
É claro que, nas manhãs reais, só o silêncio branco dos quartos vazios acolherá o meu entusiasmo, mas, aos meus sonhos, foi devolvida a possibilidade das antigas pastagens da eternidade.  
© Fotografia: Pedro Serrano, Goa, 2013.