24 março 2013

SANTO ANTÃO: VISTA PARA O INFINITO


Camuflado no horizonte, Santo Antão avista-se logo que, aterrados na ilha de São Vicente, descemos em direcção à cidade do Mindelo. A outra ilha lá está, nas traseiras de um cenário de mar que no dia da chegada se agitava verde de raiva e espumado nos cantos da boca. Mas os cambiantes da luz sobre os relevos da ilha vizinha produzem no céu uma paleta de brancos, lilases e ocres que se confundem com as imprecisões do horizonte, uma miragem que por instantes se revela como terra à vista para logo se esbater na bruma mística dos arquipélagos.
Se um dia for a São Vicente, visitar a incontornável cidade do Mindelo, não deixe de ir a Santo Antão, fique mais um dia ou dois para visitar Santo Antão como deve ser. Não se deixe preguiçar por não haver avião para Porto Novo ou para a Ponta do Sol nem intimidar pela viagem de barco entre as duas ilhas, pois durante a escassa hora que dura a travessia, o ferry ronrona, ensonado como os passageiros, e o nosso destino mantém-se sempre à vista, o que reforça uma sensação de segurança. E, depois, se é do tipo enjoativo, tem sempre à mão o saquinho de plástico que uma simpática menina lhe oferece ao entrar no barco e que a maioria das pessoas, por inútil para o fim a que se destina, acaba por usar para guardar os restos de alguma refeição leve consumida a bordo.  
Ao paladar, Santo Antão é como uma daquelas pastilhas em que uma metade é de cacau amargo e a outra de chocolate de leite. O que vemos, quando o barco se vai aproximando da ilha, é terra árida, em nada diferente da ilha que acabámos de deixar, como se um vulcão tivesse arrefecido apenas na semana passada e nada tivesse deixado senão a amarga tonalidade do basalto solidificado, uma memória de cinzas. No nosso caso, a linha divisória entre a metade amarga e a doce tem o significativo nome de Delgadinha, uma escarpa a altitude de águias, em que a largura do terreno mal chega para a faixa da estrada de empedrado onde zigzagueia o nosso transporte; crista que, de um e do outro lado dos retrovisores laterais, mergulha em ravinas que nos provocam a nostalgia própria dos seres desasados. Sim, como o gume estreito de uma faca, a Delgadinha corta-nos a respiração e dá o mote para definir a ilha de Santo Antão, uma majestosa filigrana de rocha suspensa no mar.
“Quem não gostar de rochas e montanhas é melhor não vir a Santo Antão”, dizia-me o Paulo puxando o travão de mão no meio da estrada, para que saíssemos do jipe a espreitar os vales profundos e as formigas que, por carreiros pendurados no ar se dirigiam para as suas casas com vista para o infinito.
Continuámos viagem, parando aqui e ali para dar uma boleia, como deuses assistindo ao esfarrapar das nuvens que, aos nossos pés, se rasgavam contra cordilheiras afiadas como dorsos de dinossauros. De surpresa em surpresa mal acreditava estar em África, pois a vegetação ia-se adensando em matas de pinheiros, eucaliptos, criptomérias e outras árvores dos climas temperados. E, lá em baixo, faiscando num azul esmaltado que contrasta com o anilado anémico do céu, sempre o mar, a recordar-nos que tudo podia não ser mais do que um sonho que uma vaga deixou a descoberto por agora.
Anoitecera, a paisagem desapareceu. Desfiz a mala pelos armários do meu quarto da residencial Top d’Coroa (o nome de um monte de formato curioso da ilha) e fui jantar um polvo guisado ao Cantinho d' Amizade, o sítio adequado para se comer na povoação da Ribeira Grande. Adormeci no meio do pessoano latir esparso dos cães na noite que, mais do que perturbar, pontuavam o silêncio.
No dia seguinte, como quem fora mudado de cenário por espíritos benfazejos e brincalhões, acordei entre mangueiras, jacarandás, bananeiras, tufos de buganvílias e plantações de cana-de-açúcar. Mas isso é a outra metade desta história que, em rubrica fora do local habitual, dedico ao Paulo Graça, um natural de Santo Antão que, com hospitaleira naturalidade, me recebeu e mostrou a sua terra.

© Fotografias de Pedro Serrano, Santo Antão (Cabo Verde), Março 2013.