11 dezembro 2013

VOU-TE CONTAR: 60. REVELAÇÃO

O quarto de banho dos meus avós maternos era uma divisão mais longa  do que larga e, embora só tivesse uma janela a iluminá-lo, rasgada aos pés da banheira que ocupava toda a parede do fundo, era um aposento rico em claridade graças ao reflexo da luz no seu revestimento  em mármore branco e rosado.
Para além de ser uma divisão embutida no interior do próprio quarto, e por isso de acesso dificultado a partir do exterior, era um espaço interdito a menores, ou seja aos meus primos, à minha irmã e a mim, pelo que se tornava duplamente atraente atravessar o limiar da porta em vidro martelado que o separava do quarto propriamente dito.
Legalmente, o pisar dessa fronteira só se fazia quando a minha avó o estava a usar e um de nós, na esteira das saias da mãe ou na companhia de uma tia, aproveitava a boleia da distracção de uma conversa entre adultos para penetrar toda aquela brancura e pasmar para os enigmáticos objectos cuja utilidade associávamos difusamente às práticas irracionais da gente grande. Um desses aparelhos misteriosos era conservado pendurado atrás da porta, mais ou menos atabafado entre roupões, e consistia num cilindro de vidro protegido por uma vistosa casca de metal esmaltada a vermelho e adornada com arabescos dourados. Da base do cilindro, como uma cauda perversa, pendia um tubo de borracha flexível com uma torneirinha na ponta e foi por dolorosa revelação de uma barriga entupida por demasiado algodão-doce que descobri um dia para que servia aquilo que eles referiam gravemente como o irrigador.
Mas o que eu gostava mesmo de espreitar, até por perceber que era artefacto de mulheres que não se me aplicava, eram os ferros de tonalidade calcinada e vago odor infernal a chamuscado, escondidos num armarinho branco com altura própria para poder ser usado por um daqueles gnomos que geralmente habitam cogumelos. Mais tarde vim a compreender, não sem alguma desilusão pela finalidade tão inócua, que não eram aparelhos de tortura mas sim ferros de frisar cabelo!
Embora, em tempos de inventário, cada um de nós preferisse o seu particular no recheio do quarto de banho havia algo para onde fugia toda a nossa predileção colectiva. Sobre o tampo da cómoda principal uma caixa redonda de prata esperava, paciente, o momento em que os meus avós decidissem levantar a tampa e retirar um dos rebuçados medicinais, envolvidos em papel imaculado a que sobravam uma grandes orelhas brancas por onde se desembrulhavam, drops que ajudavam a acalmar o catarro matinal de fumador do meu avô. Mas, por vezes, numa das visitas rituais ao quarto de banho, um de nós era presenteado com um exemplar da poção. Os meus preferidos eram aqueles em que algum do caramelizado já repassara o papel, pois que sabia serem os que estavam num estado de madurez perfeita para escorregarem pela garganta em absoluto deleite. Na sua peganhice aqueles rebuçados eram tão tentadores que valiam o pecado mortal de serem surripiados numa surtida clandestina à casa de banho...
Durante estes anos pensei naqueles rebuçados sem conseguir concretizar o que seriam, de onde viriam; pensei-os até extintos.
No outro dia comprei num supermercado um pacote de rebuçados da Régua, guloseima que costumo adquirir longe a longe. Mas a este pacote específico resolvi despejá-lo todo numa tacinha que estava pousada sem serventia sob os meus olhos. E foi no final desse gesto, cinquenta anos depois, ao olhar os caramelos acondicionados que vim a concluir que rebuçados eram aqueles que crepitavam como uma promessa na caixinha de prata dos meus avós.

 © Fotografias de Pedro Serrano, Dezembro 2013.