14 janeiro 2014

VOU-TE CONTAR: 62. RUA DO TREVO, 27

Planta do Bairro do Ameal, 1948.
     Something in the way she moves
     Attracts me like no other lover
                                        Harrison

Confesso que não sei por onde comece. Se pela pessoa, se pelo tempo em que tudo isto sucedeu ou se pelo lugar onde as coisas se passaram.
Se optasse pela pessoa diria que tal como a maior parte dos nomes com quatro ou mais sílabas ela era tratada por um diminutivo. Ainda para mais sendo um nome meio atravessado, que quem o carrega não aprecia. Conheço uma Angelina, que só responde por Gina e se eriça toda quando fala do nome que Deus lhe deu. Eu cá gosto, sempre gostei, talvez tenha a ver com a sorte nas Angelinas que conheci, certamente a hermética canção do Dylan “Farewell Angelina” (de 1965) acrescentou um toque misterioso, de Sul, à minha fidelidade ao nome.
O ano de ouro do que vos falo foi o de 1969, digo já o porquê da minha certeza tão longínqua: em Setembro saiu o álbum Abbey Road, dos Beatles, e a sua canção “Something” é uma música que lhe associo, lembro-me de a dançar com ela num magusto que sempre havia por Novembro numa quinta de lavradores perto da casa dela, perto da minha casa..., concluo agora que consigo ver tudo de cima como se fosse um Google Earth ou um ser alado que se entretém nas nuvens.
Na realidade pouco mais de quinhentos metros separariam a minha casa da rua dela. Entre ambas enfileirava-se o Bairro da Garantia, a casa dos Bessa Ribas, os terrenos de uma fábrica de curtição de peles, a fábrica de malhas, uma dezena de vivendas e logo depois estávamos em pleno bairro do Amial, uma rede de pequenas vivendas económicas de um só piso que o tempo foi transformando em casas de dois pisos, à medida que os moradores foram subindo na vida e tomando posse das propriedades. Um bairro cujas ruas tinham nomes florais: rua das Dálias, rua do Trevo, rua Florinha da Abrigada. Ela morava no número 27 da rua do Trevo, uma álea sem saída próxima da capela, mais uma travessa do que uma rua.
É claro que no princípio eu não fazia ideia de nada disto, era tão acabado de sair da casca e do quintal da casa dos meus pais que nem me apercebia de como tudo era próximo no Porto dos anos 60. Foi a ida para o liceu que me fez começar a perceber como havia outro mundo fora do cosmos do meu quintal, mundo do qual, inebriado pelo controlo que ia sentindo sobre os percursos, ia estabelecendo as ligações.
Perto do meu liceu só de rapazes havia um liceu só de raparigas, bastava subir uma rua a correr pelo fim da manhã e lá estavam elas a brotar dos portões como flores enchumaçadas em batas de um azul acinzentado, baças, pois que por si já tinham brilho que chegasse para manter os pais e os professores em alvoroço.
Uma dessas manhãs, tocada a sineta de saída do meu liceu, ao chegar, ofegante, ao cimo das escadas que desaguavam no liceu Carolina Michaelis, ela cruzou-me pela primeira vez. O tempo ia frio e ela encravara os cabelos negros na campânula da ampla gola levantada do casaco azul-negro, de tecido pesado,  chamados de à marinheiro, os próprios botões tinham âncoras gravadas. No silêncio que se fez em volta dos passos dela reparei ter olhos escuros e uma boca carnuda de onde se esvaía um tom desdenhoso e altivo que, como um manto, se estendia ao próprio modo de andar.
Passou, eu rodei cautelosamente a mirar-lhe as pernas nuas e bem feitas onde umas meias vermelhas de elásticos cansados se enrolavam, desmazeladas, descaídas sobre os tornozelos.
Nessa manhã senti-a tão inalcançável, tão distante das minhas posses como um barco à vela que cruza uma praia e deixa os banhistas de boca aberta. Como era possível nunca a ter visto antes? E onde moraria ela, essa deusa que pisava o empedrado de calcário com um passo tão altivo, sozinha, sem rancho de colegas crocitando em volta, como se fosse impossível mais alguém caber naquele cenário?
Apertei com a minha prima Nunu, que andava no mesmo liceu, descrevi-a o mais friamente que consegui: os cabelos compridos, o porte altivo, as meias vermelhas enroladas nos tornozelos, o cachecol axadrezado a condizer.
“Como é que ela se chama?”, perguntou a insensível.
“Sei lá! Isso gostava eu de saber...”
E depois, um dia, regressava eu a casa sentado no banco atravessado que havia perto da porta de trás dos eléctricos, eis que distingo, no magote de gente que se alcandorou para dentro do veículo naquela paragem, estacionar em frente aos meus trémulos joelhos o anjo misterioso. Ali, a centímetros de mim, agarrada a uma das pegas de metal que se penduravam do tecto do eléctrico, o olhar indiferente e a boca desdenhosas fixados no vidro da janela por trás da minha cabeça. Levantei-me, ofereci o lugar e neste meu gesto não cabia o pó da estratégia, só antes a impossibilidade do servo em deixar seguir apeado um ente tão divino.
Agradeceu com um menear da cabeça, sem uma palavra, apenas uma centelha de reconhecimento irónico luziu nos olhos escuros, como quem pensa, como quem regista:
“Olha-me o cabrão do pigmeu...”   
Imaginem agora a minha surpresa quando, apenas duas frugais paragens antes da minha, a vi levantar, pedir licença ao vulgo e sair pela porta de trás do elétrico.
Mas então ela era quase minha vizinha?! Oh, céus, tinha de haver ali o dedo do milagre, o selo da coincidência que reúne os corações adolescentes em lugares cativos.
Vim a saber mais tarde que todos a conheciam por Lina, e nesse mesmo ano, a coberto das macias noites de Verão, haveríamos de errar, mãos dadas e olhares cintilantes, pela quermesse que nos santos populares era erigida no jardim em frente à escola primária do bairro do Amial.
© De cima para baixo: (1) e (3), blog O Porto e Não Só; (2) Pedro Serrano, Maio 2013.