23 abril 2014

VOU-TE CONTAR: 66. UMA BOA HORINHA

Rezam os actuais itinerários da internet que Ribeira de Pena, um concelho do distrito de Vila Real ainda encostado ao Minho, dista do Porto 106 km e que esses km se percorrem em uma hora e seis minutos.
Pois em 1980, ano em que fui viver por lá, Ribeira de Pena, um lugarejo perdido no nordeste, distava cerca de 130 km do Porto e em dias simpáticos um automóvel demorava duas horas e meia a chegar, tal as curvas serpenteavam do Porto até lá. Nessa altura, Ribeira de Pena era, literalmente, um beco sem saída: entrados na vila e querendo continuar para outras paragens era forçoso dar a meia volta e regressar à estrada por onde tínhamos chegado. Dali, a não ser penantes, não se podia furar noutra direcção e Vila Real, a capital do distrito, nos seus cinquenta km de distância, ficava a uma hora de nós.
No final de Outubro de 1980 Ribeira de Pena inaugurou um Centro de Saúde novinho em folha, pago na sua totalidade por coroas norueguesas. Apesar da bandeja, as peripécias que rondaram a construção, o equipamento e a abertura deste serviço de saúde (feito a pensar numa população que nada tinha) davam para escrever um livro, tendo-se as atribulações passeado pela falência e fuga do empreiteiro, pela construção de estufas de esterilização de material médico feita por fabricantes de fogões de cozinha reconvertidos e, claro está, o todo temperado pelo ingrediente clássico da panela lusitana: a pasmada ineficiência das autoridades de saúde do nível distrital.
Quer pelo isolamento nas serranias, quer pela distância a outros estabelecimentos de saúde mais sofisticados (Vila Real e, sobretudo, o Porto) foi decidido que o Centro de Saúde disporia de um pequeno internamento, o qual incluiria uma sala de partos e respectivas acomodações.
Tendo o Centro de Saúde sido inaugurado à pressa, sob a pressão política do costume, ainda sem o equipamento de que necessitava (abrimos ao público, por exemplo, sem um único medicamento no serviço que ostentava uma tabuleta iluminada a dizer URGÊNCIA), ficou acordado entre mim (o jovem director da coisa), o patronato distrital e os sensatos noruegueses, supervisores do andamento do projecto, que a maternidade só seria aberta uma meia dúzia de meses depois, dando tempo a que se terminassem as obras ainda em curso no sector do internamento, a que o equipamento em falta chegasse e as restantes valências prioritárias (consultas, seguimento de grávidas e crianças, vacinação, urgência) estivessem estabilizadas e a rolar a velocidade de cruzeiro.
Ao povo da Noruega, Ribeira de Pena agradecida 25.10.1980
Chegou o inverno, um daqueles invernos gelados como só Trás-os-Montes os concebe, e o aquecimento do Centro de Saúde mudo como um mármore: o esquecimento dos construtores em adicionar anticongelante fizera gelar a água na tubagem dos painéis solares que cobriam o telhado e rebentara, para todo o sempre, com o moderníssimo aquecimento sustentável. Sim, é certo que havia a possibilidade de remendar o inconveniente recorrendo ao aquecimento a gás, pois o Centro estava equipado com um enorme reservatório, resguardado numa cerca das traseiras. Mas a enorme botija ecoava de vazia: faltava-lhe o contrato com a firma fornecedora, ninguém tratara disso e eu não tinha nem dinheiro nem autonomia para o poder assinar – era mais um daqueles papéis que ganhavam pó nos sepulcros de Vila Real.
Numa dessas manhãs geladas, em que percorríamos os corredores batendo os pés para os manter minimamente quentes, a Graça, a nossa energética e competente enfermeira-parteira, sapateou da consulta de Saúde Materna até ao meu gabinete, que franqueou afogueada:
“Doutor Pedro, temos uma mulher em trabalho de parto na consulta...”
Saltei da cadeira, fui dizendo, enquanto corria ao lado dela:
“Temos de dizer ao Albano para ligar aos bombeiras: chamar uma ambulância, mandá-la já para Vila Real...”
“Não vai dar tempo, está em dilatação máxima, é expulsão para menos de meia-hora...”
“Mas por que é que ela não apareceu antes!?”, dirigi toda a minha raiva sobre a cliente, “não andava a ser seguida na consulta?”
Ela abanou a cabeça:
“É um prematuro, pelas minhas contas à volta de sete meses e pouco. A mãe não fez uma única consulta de seguimento, não está sequer vacinada, nada!”
“Então parece que só nos resta inaugurar a maternidade, Graça...”
Num ambiente gelado, na sala sombria e quase nua, a marquesa foi preparada à pressa e o menino (era um rapaz) caiu-nos nos braços quase em silêncio, sem o choro que num momento destes é bom de ouvir. Sim, era um prematuro e pesava 1.600 gramas, um kg abaixo do que deveria pesar um recém-nascido normal! E estava roxo de frio, calado de entupimentos, evidenciando sinais nítidos de quem não se ia safar sem cuidados especiais, um dos quais seria ser enfiado de imediato numa incubadora que o aquecesse, arejasse e resguardasse do mundo exterior. Incubadora que não tínhamos, pois todo o nosso equipamento a vir estava pensado para gravidezes e partos normais. Olha a porra!
“Ai, doutor Pedro, temos de o por andar daqui para fora depressa, que senão ele vai-se-nos!”
“Eu sei, Graça, mas como vamos remeter o embrulho até ao Porto?!”
Não sei se foi a palavra embrulho que despoletou o caminho a tomar, o certo é que a Graça era uma profissional prática e eu um tipo com imaginação. Foi por aí que o nosso olhar caiu sobre a mesinha de cabeceira ao lado da cama onde gemia a parturiente, ainda dorida de um esforço prestes a volver-se inútil.
E assim construímos a nossa incubadora: mandámos o pessoal da cozinha ferver água, encher duas botijas; e que nos trouxessem um rolo de papel de alumínio, daquele de embrulhar a comida que vai ao forno. Depois entalámos as botijas na gaveta, uma daquelas gavetas de metal de mesinha de cabeceira de hospital, e atulhámo-la com rolos de algodão, de modo a parecer-se com um ninho. Finalmente, enrolámos o presente em papel de alumínio, só os olhos e o nariz ficaram de fora, e enfiámo-lo na gaveta com a nossa bênção. A ambulância já ronronava à porta da urgência, as traseiras muito encostadas de molde a diminuir a distância a percorrer pelo bebé sob o gélido ar exterior. A Graça também saltou lá para dentro, para fazer uma entrega mais esclarecida da encomenda aos atónitos olhos do pessoal da Neonatalogia do Hospital de Santo António. 
Graça Tavares, Pedro Serrano e o embrulho, 1981.
Uns meses volvidos, já a primavera ia adiantada, a Graça e eu fomos padrinhos de baptismo do menino e tudo acabou em bem. Mau padrinho como sou, nunca mais soube nada dele, mas calculo que ainda circule por aí – deve andar pelos seus 35 anos, agora. Nem ele imagina a boa horinha que teve quando aterrou neste mundo.     


© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, Ribeira de Pena, 1983; (2) Per Hjortdahl, Ribeira de Pena, 2008; (3) e (4) fotógrafos desconhecidos, Ribeira de Pena, 1981.