14 maio 2014

HOMOFOLIA

A FNAC, a multinacional francesa com nome de sindicato, tem, na sua loja do Chiado, em Lisboa, uma área reservada a livros picantes. Essas estantes são encimadas por uma tabuleta, antecedida pela bolinha vermelha que na TV alerta o espectador para conteúdos chocantes ou linguagem extrema, onde se lê: GAY/ERÓTICO.
Não sei o que outros pensarão, mas, para além do provincianismo mal disfarçado em ousadia comercial, esta mistura no mesmo promíscuo saco de uma certa orientação sexual + conteúdos entesoantes, traz-me à memória a reacção inicial do mundo em relação à SIDA no início dos anos 80. Nessa época, se bem se recordam, a SIDA era coisa de panascas, uma moléstia ligada a práticas indecentes e de que estavam a salvo todos aqueles que se contentavam com uma posição de missionário sobre a patroa. Os resultados desse preconceito ignorante depressa se fizeram notar nas tendências da epidemia que alastrou mundo fora. Assim, e pela mesma bitola, a FNAC parece considerar que o ser gay é pose que se resume exclusivamente a uma prática sexual e, simultaneamente, matéria muito excitante e pecaminosa. Dito de outro modo: essa gente não é bem gente, apenas caricaturas sexuais como os livros eróticos para donas de casa, agora tão na moda, que incluem sempre, para grande excitação das glândulas salivares, roupas de couro e umas chicotadas no tutu.
Eu já achava mau, nas livrarias em geral, as estantes LGBT (acrónimo de Lésbicas-Gays-Bissexuais-Transgéneros), onde, sob esse estandarte, se passaram a alinhar as lombadas dos livros sobre a “temática” e, por arrasto, todos os livros de escritores que pertenciam ao clube! E, então, de repente, e por exemplo, o magnífico As Horas (de Michael Cunningham) desapareceu das estantes comuns e da antiquada ordem alfabética por autor, para aparecer na secção gayzola. E a arrumação  não mais parou e os autores passaram a ser catalogados pela sua orientação sexual, mesmo que os seus livros falassem apenas do que acontece às pessoas nesta breve passagem pela terra.
Ainda por cima, diga-se, o trabalho dos livreiros deixa muito a desejar, pois a catalogação está a revelar-se grosseiramente incompleta! Então o que ainda fazem nas prateleiras “normais” nomes como Virginia Woolf, Katherine Mansfield, Jane Bowles, Djuna Barnes, Edith Warton, Susan Sontag, Marguerite Yourcenar e Patricia Highsmith (para começar pelas senhoras) ou Eurípides, Sófocles, Sócrates, Platão, Aristóteles, Virgílio, Ovídio, Montaigne, Molière, Lord Byron, D. H. Lawrence, Oscar Wilde, Thomas Mann, Voltaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, Jean Cocteau, Jean Genet, Andre Gide, Marcel Proust, Federico García Lorca, Henry James, Herman Melville, Walt Whitman, Tennesse Williams, Truman Capote, Yukio Mishima, Yasunari Kawabata, E.M. Forster, Somerset Maugham, Paul Bowles ou os nossos Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Frederico Lourenço? Embora já sair da prateleira!
© Fotografia de Pedro Serrano, Lisboa, Abril 2014.