15 julho 2020

ÀS VEZES, À NOITE: 7. Cor local

O Centro de Saúde seria inaugurado dali a quinze dias e, apesar da tarde ser de Sábado, viu, por trás dos vidros onde espreitava, por entre mobiliário encostado a paredes e caixotes esventrados, um grupo de mulheres em atarefada azáfama.  
Uma delas, uma fanchonaça de ar prazenteiro, levantara-se do apoio de madeira onde, ajoelhada, esfregava o chão e veio abrir a porta em que desaguara na sua ronda ao longo do exterior do edifício.
“Boa tarde”, cumprimentou, embaraçado por ver tanto par de olhos fixos nele, “desculpem estar a incomodar, mas venho para aqui trabalhar, sou...”
“Ah, será o senhor Dr. Raul, eu bem lhes dissera...”, respondeu ela abrindo um sorriso da ampliação esverdeada dos óculos. “Sou a Joaquina, pertencemos a aqui, também.”
As outras duas mulheres que esfregavam o chão, embora se mantivessem de joelhos, tinham interrompido a tarefa e miravam-no de baixo para cima, curiosas. Por sua vez, ele não conseguiu deixar de reparar nos magníficos olhos verdes de uma delas, no decote da outra. Por motivo incerto, o conjunto não era característico do pessoal auxiliar a que estava habituado nos hospitais, onde havia sempre um estropiado ou um pobre de espírito a abrilhantar a casta dos trabalhadores menores. 
A rapariga dos olhos verdes levantara-se, apresentou-se:
“Sou a Alcina, seja muito bem-vindo. Se calhar, o Dr. Raul estará interessado em dar uma volta pelo Centro...”, disse tomando o assunto em mãos. E logo que ele assentira, ela, movendo-se com aprumo ao longo dos corredores, ia esclarecendo, enquanto confirmava com uma mirada rápida as pequenas placas que identificavam as divisões.
“Aqui é a Secretaria; por trás fica o gabinete do Director; por aquele corredor são os gabinetes médicos e a Sala de Vacinas. Para o outro lado é o Internamento, mas aí está tudo ainda mais atrasado, as camas nem sequer estão montadas; a roupa nem está desenfardada, anda a Elizabete a fazer o inventário...” 
“Mas vocês estão a tratar disto sozinhas? Ou anda alguém de Vila Real a orientar?”
As duas mulheres entreolharam-se e Joaquina, que tinha um fácies com propriedades de espelho, recuou dentro de si e deixou que Alcina, mais nova e atrevida, se encarregasse da resposta. A rapariga fechou a expressão, passou uma madeixa dos cabelos negros, talhados pelo pescoço, para trás da orelha.
“O que posso dizer é que ficámos contentes de o ver aparecer, Dr. Raul; que, por muita boa vontade que a gente tenha, não conseguimos dar conta do recado sozinhas..., nunca nenhuma de nós trabalhou nisto antes... Espero que, agora que chegou, não nos desapareça como os outros...”, atirou numa ousadia que desencadeou em Joaquina um trejeito embaraçado.
“Não, agora que cheguei, cheguei. Vou instalar-me na vila mal possa”, respondeu sentindo cair-lhe em cima o peso do que prometia e a consciência — recordada mais tarde — que fora naqueles momentos iniciais, naquela visita, que elas tinham fixado o modo como o passariam a tratar: ao contrário do que acontecia no Joaquim Urbano – onde era “o Barbosa” ou o “Dr. Barbosa” – elas tinham decidido honrá-lo com o cognome baptismal de “Dr. Raul”.
Já anoitecia quando regressou ao Porto. Uma das mulheres desejara boa viagem, outra – num sibilo em que detectou malícia – que tivesse cuidado nas curvas, pois a humidade do entardecer tornava-as escorregadias; Joaquina desejou voltar a revê-lo “bem logo”.
O tempo voara! Andara toda a tarde por ali, a espreitar salas e a lamentar não ter vindo mais cedo; deu consigo a abrir caixotes e a ajudar a colocar instrumentos nas prateleiras das arrecadações, escandalizado por descobrir que a preparação da abertura do Centro – dali a dias! – estava no ponto zero; aliviado ao perceber que conseguia dar resposta e orientação ao que sentia ser preciso ir fazendo, abençoado estágio.
A meio dessa tarde, estava ele, guiado por uma mulher angulosa, de lenço na cabeça, que se apresentou como a futura cozinheira, a percorrer a desmesurada cozinha - o Internamento teria oito camas apenas! -, a verificar com assombro o tamanho industrial de panelas e batedeiras, quando surgiu, no passo apressado de quem fora alertado, um tipo novo e branquinho que se apresentou como o  electricista do Centro de Saúde, mas que, na prática, se comportava como uma espécie de gerente daquilo tudo; pressentiu, ao aparecimento do outro, retraimento no comportamento até aí expansivo e caloroso das mulheres. Irritado ao captar que o gajo, no seu apuro atarefado, visava usurpar e desmerecer o papel de guia e companhia que as mulheres tinham espontaneamente desempenhado, atirou:
“E diga-me uma coisa, Ramiro, onde fez você o seu curso de electricista?”
O outro encolheu-se, inquieto, deu uma risadinha.
“Isto é tudo uma coisa que se vai fazendo, percebe Dr.? O senhor Presidente achou que era importante aproveitar esta oportunidade para o concelho: criar emprego, preencher todas as vagas do quadro de pessoal antes que começassem a mandar gente de fora...”
“E você acha que uma coisa tão pequena como esta precisa de um electricista em permanência...?”
“Logo se verá... Mas o quadro de pessoal prevê que possa haver um.”
“Sim, já percebi. Mas o que eu gostava de saber era se o quadro eléctrico pensará o mesmo.”
Já de saída, acompanhado à porta por toda a gente, foi ainda apresentado a um velhote gorducho que, em passo acelerado, subia a rampa para a porta da Urgência sob evidente esforço físico. 
“Artur...”, dissera o homem, esbaforido, mostrando o cabelo branco como a neve ao retirar o boné, “às ordens de Vossa Excelência; vou ser o porteiro aqui do Posto.”
“Posto, não, Centro...”, corrigiu Ramiro com um risinho. E como que a atenuar o deslize do recém-chegado: “O Sr. Artur é cunhado do Sr. Presidente.”
“Ah, prazer...”, concedeu Raul estendendo a mão. “E, então, o senhor já trabalhava no antigo Posto da Caixa, é?”
“Não, não...”, respondeu o velhote com simplicidade. “Eu até estava, a bem dizer, sem fazer nada, para além de cuidar dum lameiro e dos animais. Mas apareceu-me isto...”
Raul Barbosa escondeu o sorriso gerado pelo dito e condimentado pela aflição de expressão que Ramiro tentava domar. Então era assim? Ainda nem tinha chegado, nem começara, e já havia uma teia de interesses e vigilantes directamente conectada ao poder autárquico! 
Alcina, Joaquina, Elizabete, Teresa, Ramiro, Artur, recapitulou estrada abaixo. O nome da futura cozinheira sumira-se-lhe completamente, só se recordava da consternação dela perante o tamanho da varinha mágica e das panelas, da complexidade do fogão a gás.
Gastou as quase três horas do regresso ao Porto a pensar naquele dia, a reordenar as pessoas que conhecera à medida que iam emergindo na memória e o seu aparecimento lançava uma nova luz sobre a teia de relações. Por exemplo: Alcina e Teresa – outra das empregadas da limpeza – eram cunhadas, o marido de uma delas trabalhava para a Câmara manobrando grandes máquinas, um trabalho que já exercia em Angola, mas em empresa própria. Tinham ficado sem nada, era uma frase que ouvira a várias delas. Teria ela dito Benguela ou Lobito? Uma das filhas de Alcina, uma morenita magricela ainda na muda dos dentes, aparecera à hora do lanche com um saco de plástico para a mãe, ficara por ali a voltear sobre as tranças negras, aproveitando o linóleo quadriculado do corredor do Centro de Saúde como terreiro de macaca. Esse era o lado sorridente, depois havia o desleixo que parecia desmentir toda aquela propaganda do ‘projecto-piloto’ e a teia que se fazia adivinhar nos emissários do Senhor Presidente, embora Ramiro lhe parecesse pouco mais que um videirinho tonto e Artur um velhote simpático que pronto se lhe começou a queixar da diabetes e da perda de sensibilidade num dedo do pé.
Pelo lado direito da estrada conseguia avistar, ao longe, o contorno de grandes serranias  desdobrando-se, paralelas como o eco; do lado esquerdo, a escarpa da montanha acercava-se até à faixa de rodagem e parecia querer desabar sobre ela em arvoredo e fraga nua, as tais rochas que, tinham as mulheres avisado, projectavam as sombras que tornavam o piso húmido e traiçoeiro a partir do entardecer. 
(continua)

© Fotografia de pedro serrano, Penaformosa, 2016.

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