01 maio 2010

TUDO SE ARRANJA

© Fotografia de Pedro Serrano: Baixo Alentejo, 2008
J'habite seul avec maman
Dans un trés vieil appartement
Rue Sarasate
J'ai pour me tenir compagnie
Une tortue, deux canaris
Et une chatte.

Charles Aznavour (“Comme Ils
   Disent”)

Passou-se por altura do Natal e isso explica muita coisa, já vão perceber. Acabara de me separar da minha mulher e atravessava um deserto de profunda melancolia. Nesse fim de dia vi o meu filho partir pela primeira vez, sobraçando uma malita de roupa, para passar uns dias com a mãe.
Quando o carro arrancou fiquei no meio da rua a acenar até o ver desaparecer na esquina e voltei para casa, uma lágrima atrevida ao canto do olho. Lá dentro instalara-se um silêncio de tumba e percorri todas as dependências como um autómato, apanhando um ténis no meio do corredor, recolhendo uma revista escancarada no banco da casa de banho e, após dobrar uma camisola que jazia de braços abertos sobre a escrivaninha, apaguei a luz e fechei a porta do quarto dele.

Ainda era cedo para jantar, mas não para cozinhá-lo. Abri o frigorífico à procura de inspiração, o olhar focando e desfocando-se no seu recheio, a mente perdida noutros pensamentos, o meu interior tão desolado como o besugo que me retribuía o olhar na prateleira de cima. Bati a porta, que se fechou num silêncio amortecido de borrachas.
Não, não ia ficar em casa; não tinha alento para decidir o que comer, para cozinhar para mim próprio e, depois de tudo pronto, para me sentar à mesa em frente a mim próprio, como um vaso que está a ser regado sem saber porquê. Iria jantar fora, a qualquer lado. Olhei o relógio. Sete menos dez. Ainda muito cedo, demasiado cedo – quem é que me dava de jantar a uma hora daquelas? Em qualquer lado onde entrasse ia encontrar os empregados sentados perante o seu próprio jantar. Não era bonito ir arruinar-lhes a vida só porque a minha estava à deriva. Sentei-me na sala de estar, na borda do sofá, a folhear um jornal atrasado como se estivesse na sala de espera do dentista. Às sete e meia vesti o sobretudo, pus um cachecol e saí para a noite gelada com uma pose de grande iniciativa.
A sala do restaurante estava, com excepção de um tipo com sequelas de caixeiro-viajante, deserta. Sentei-me, olhei o menu e na secção “sabores dos nosso mares” flutuou-me na memória o olhar resignado e solitário do besugo. Encomendei uma sopa e meia-dose de pato à antiga. O empregado trouxe uma garrafa de água, deixou sobre a mesa um cesto de pão, manteiga, paté de sardinha e desapareceu na porta da cozinha. Na outra ponta da sala o outro cliente continuava a folhear catálogos.
“Devia ter trazido um jornal ou uma revista”, pensei. Ser-me-ia útil para passar o tempo ou para me esconder se aparecesse alguém conhecido que pudesse ficar tentado em se sentar na minha mesa...
Tirei o telemóvel do bolso e entretive-me a percorrer as últimas mensagens que tinha recebido, para duas delas fui rever, nas ‘mensagens enviadas’, as respostas que dera. Uma das mensagens do dia era da minha prima Gabriela que, de Braga, me perguntava:
“Kuando vens cá cima? Tmos saudads tuas.” 
“Sei lá! Natal, tlvez.”
Achei a resposta estúpida, apeteceu-me dar um sinal qualquer de temperatura mais morna. E por não saber o que dizer, por não ter nada a dizer, por as bolas coloridas e as pinhas douradas no balcão, o ramo de azevinho em plástico em cada uma das mesas me sublinharem com crueldade que já estávamos em pleno desvario natalício, carreguei na tecla de ‘mensagem nova’ e martelei no teclado versos de uma velha canção de Natal:
Ó bom pinheiro, ó bom pinheiro
Pinheiro do Natal.
E no Inverno, és só tu
Que brilha quando tudo é nu
Ó bom pinheiro
Depois abri a lista de ‘contactos’ e percorri com o olhar os nomes que surgiram nas letras ‘F’ e ‘G’. Lá estava o nome dela... Nesse mesmo instante ouvi ranger a porta de vai-vem da cozinha e vi surgir o empregado com um prato de sopa a fumegar. Devia ser o meu creme de couve-flor. Despachei a mensagem e carreguei na tecla ‘enviar’. E mal o fiz, o meu cérebro inteiriçado acordou, acelerou-se e, num único vislumbre, percebi o que acabar de fazer e imaginei até algumas das suas possíveis consequências. O que até aí eram peças soltas, isentas de sentido, pareceu cristalizar-se de repente como um acontecimento de monta! Ainda pensei em desligar o telemóvel (não, isso não serviria para nada), em abrir febrilmente a tampa e arrancar a bateria, mas não tive tempo para que tudo isso ultrapassasse mais do que o pensamento. Eficiente e frio, o telefone confirmou: “Gabriel (carp) – mensagem entregue”.
Ao longo de dez anos, a minha mulher e eu recorremos algumas vezes aos serviços de um carpinteiro da vila, sobretudo para a manufactura de peças de mobiliário: prateleiras, pequenas estantes, mesinhas. De facto, o homem é mais marceneiro do que propriamente carpinteiro e recusa trabalhos que o arrastem para fora da sua oficina, limita-se a entregá-los depois de prontos na morada dos clientes. Para além de cumprir os prazos que acordava, fenómeno raro entre carpinteiros e electricistas, tinha a qualidade de ser capaz de seguir com sensibilidade a ideia do cliente e produzia um produto final bem acabado em todos os detalhes. 
Cruzava-me com ele quase diariamente numa das ruas ou num dos cafés do centro da vila, mas quando tal não acontecia e precisávamos dos seus serviços, passava por casa dele. Morava com a mãe na parte antiga da vila, perto do castelo, numa casa de altos muros esboroados onde se cruzavam trepadeiras e gerânios. A zona do castelo é a parte mais sossegada da vila e parece que entramos noutro tempo se lá vamos. Ali não passam automóveis e para se chegar é preciso subir uma rua estreita de calçada em calcário claro, ladeada por vetustos pinheiros de copa redonda e macia.
O portão da casa é largo, de madeira reforçada por chapa ondulada, protegido por um telheirinho e não há campainha. A rotina era dar três pancadinhas de aviso na chapa e, ao mesmo tempo, puxar a ponta do cordel que atravessava a chapa para soltar o trinco e ir penetrando no pátio.
“Senhor Gabriel...?”
É sempre a mãe que atende, anunciando a sua existência numa interjeição aguda e logo surgindo na figura de uma velha pequenina, sorridente, que chamava no mesmo timbre agudo:
“Gabriel, está aqui um senhor à tua procura...”
O Gabriel é um daquele tipo de pessoas esculpido pela pachorrência e tudo nele, desde o discurso pausado que parece ser causado por uma língua demasiado pesada, ao modo como se move, tem uma característica lânguida. Recordo uma tarde em que entrei na Junta de Freguesia, mais ou menos em simultâneo com ele, e de ter reparado no andar com que subiu as escadas à minha frente, alçando os calcanhares à vez e movendo as ancas numa amplitude e num ritmo todo feminino.
Tão só anunciava a nossa presença, a mãe regressava aos seus afazeres com um gorjeio e um “ele já vem” Enquanto escorriam os três ou quatro minutos que necessitava para interromper o que estava a fazer na oficina para além do pátio e me atender, eu demorava os meus olhos naquele pátio folgado onde, no pedaço de chão iluminado pelo sol que escapava ao toldo da videira que o cobria, tostava uma gata, zebrada de mel e negro como uma abelha. 
Por cima do gato, na parede caiada onde o sol pintava manchas de luz voláteis, pendurava-se uma profusão de gaiolas de madeira, cada uma delas contendo uma família de aves canoras nas quais eu só conseguia identificar os canários e os periquitos.
E então, arrancando-me à observação dos pássaros e daquele espaço idílico pejado de vasos de flores e de avenca, aparecia o Gabriel no seu passo lânguido, na sua pose mole, esboçando um sorriso e olhando-me dos seus óculos de míope que lhe transformavam a face num aquário onde ondulava um par de olhos azulados e mansos. 
O empregado pousou a sopa à minha frente, avisou que estava muito quente e desejou-me bom apetite. Meti a colher no prato e estava a arejar o líquido cremoso em movimentos circulares quando ouvi o sinal sonoro de mensagem a chegar. Olhei em volta cautelosamente, peguei no telemóvel e espreitei o ecrã:
“Lindo, se me queres nu com a tranca do pinheiro, diz. Tudo se arranja.” 

(Dezembro 2001/Abril 2010)






















© Fotografias de Pedro Serrano: Praia da Areia Branca, 2007 (fotografia do meio); Mértola, 2008 (fotografia acima).