19 agosto 2011

M, como em Anatomia


Apesar da péssima acústica (por muito que tente nunca lá consegui ouvir nada que soasse além de roufenho), da arquitectura absurda que nos obriga, para uma vulgar mijadela, a empurrar portas de quatro metros de altura, e nos empurra por escadarias metálicas de alto teor fracturante; apesar de tudo isto, a Casa da Música trouxe uma vantagem à cidade do Porto: rebentou com a soturnidade da Rotunda da Boavista ao fazer  explodir aquele canto onde dantes ficava a garagem dos eléctricos.
Imperturbavelmente, ao longo de décadas, aquela rotunda foi local tão esverdeadamente granítico como o cemitério vizinho e, apesar das árvores e bancos de jardim, ninguém a frequentava ou atravessava nem que fosse como atalho para atingir uma das várias ruas e avenidas que ali desembocam. Até mesmo para conseguir apreciar o único monumento que abriga, uma ridícula peanha onde, no cimo, uma águia se põe num leão (ou será o inverso?) tornava-se necessário ganhar altitude, recuar umas centenas de metros e observar a escabrosa cena da Praça da República.
No entanto, mesmo há quarenta anos atrás, havia uma altura do ano em que a Rotunda se transfigurava, centenas de pessoas procuravam-na e a maldição parecia evaporar-se como o algodão doce que por lá se vendia durante a segunda quinzena do mês de Junho. As festas são joaninas invadiam a cidade e era ver o inútil chão da Rotunda ocupado por pistas de carrinhos de choque, carrosséis de cestinhas voadoras, mesas de matraquilhos e os clássicos pavilhões de farturas e bifanas.
Numa suave noite de Junho de 1971, eu, acompanhado por um grupo de amigos que já não consigo especificar, percorria, vindo de Norte, os últimos metros de passeio que me separavam do entrar nesse fugaz parque de diversões e, por momentos, expulsar da  consciência a aproximação dos exames finais do primeiro ano da Faculdade e os oito meses sem pegar noutros livros que não fosse a mais pura, a mais luminosa das ficções.
Cara(o) ouvinte, malgrado a piedade que poderá despertar à sua benevolência a circunstância de, passados todos estes anos, já não recordar quem me acompanhava, na minha mente continua nítida como uma fotografia virtual o exacto pedaço de rua em que me encontrava nessa noite e a moda que, como um jackpot, tinha estourado no vestuário desse Verão. Vindo do lado do hospital militar, eu caminhava próximo de onde, não muitos anos mais tarde, rasgariam uma das portas de entrada do novo Centro Comercial, e uma inovação absoluta, chamada hotpants, transformava a paisagem humana.
Não é complicado fazer perceber o que eram esses hotpants, pois, exactamente quarenta anos depois, precisamente este Verão de 2011, a mesmíssima febre voltou a invadir as ruas como se de novidade total se tratasse. E, de certo ponto de vista, isso é verdade, pois as pernas são diversas. Ah, mas uma coisa vos garanto, tal cena era um total maná para os nossos olhos de outrora que, embora já rasgados por minissaias, nunca tinham posto a vista em tal ousadia, um atrevimento que parecia transformar a mais inócua e repetida das mulheres numa surpreendente e incontornável visão.
Seguia então eu (com os tais dois ou três amigos que não recordo) por esse pedaço de passeio (que recordo como se fosse hoje) quando vi aproximar-se, em sentido oposto, um conjunto de pessoas que, claramente, já se passeara pela féerie da rotunda e regressava a penates. E, nesse conjunto, o meu olhar, de imediato, foi atraído por uma rapariga que, de tanta distinção, se destacava do resto como se as suas acompanhantes, que, sendo franco, também não recordo de todo, se desfocassem, deixando-a apenas a ela e aos seus hotpants amarelos a pairar na noite. Uns atrevidos calções amarelos, justos, cobrindo uns collants negros, a condizer com a souplesse da camisola preta que completava a visão. De espanto em espanto, à medida que se aproximava o momento de os nossos grupos se tangenciarem, reconheci na figura alguém com quem me costumava cruzar nos corredores da faculdade, alguém em quem já reparara, pois eram-me atraentes os seus malares altos, os seus olhos acinzentados e de recorte algo eslavo, o cabelo liso cortado à pajem. Sim, eu já a tinha interiorizado, era uma figura que tornava a ideia de me dirigir ao hospital de S. João simpática, mas estava acostumado a vê-la envergando uma bata branca pingona...
Em plena perturbação cruzámo-nos então nesse pedaço de cimento quadriculado, onde hoje em dia ainda existe a tal porta lateral de acesso ao Centro Comercial Brasília, e, num leve aceno esquivo que não chegou bem a ser um cumprimento, ela deu sinal de me reconhecer também. E foi tudo. Mas vocês sabem como um tipo pode ser ansioso numa idade daquelas que, no meu caso, era a quinzena em que atingiria os 19 anos.
E, entretanto, os exames tiveram lugar, passei de ano pendurado em duas disciplinas e as férias grandes chegaram, tudo o suficiente para me distrair daquela noite na Rotunda mas não o bastante para apagar o traço forte do encontro.
Em Outubro recomeçaram as aulas e eu, depois de ter ouvido tudo o que o meu pai pensava sobre o assunto, prometi ter mais cuidado nesse segundo ano para o qual transitara com cadeiras atrasadas, uma delas a impossível Anatomia. Após consultar demoradamente umas certas pautas afixadas num mostruário fechado a vidro, resolvi mudar de turma nas aulas práticas da disciplina. Quando formalizei o pedido na Secretaria, o funcionário olhou-me, entre o desconfiado e o surpreendido, mas eu mantive-me firme no meu desejo e argumentos.
“Mas olhe que é definitivo”, avisou, “depois não me venha cá pedir para trocar outra vez...”
As aulas práticas tinham lugar num pequeno anfiteatro ao fundo do teatro anatómico e o espaço consistia numa mesa de mármore, onde jazia o cadáver, em volta da qual se dispunham, em socalcos, várias filas de lugares, separadas por um corrimão de metal, onde os alunos se acotovelavam para assistir, em pé, à demonstração do professor.
Ao chegar à primeira aula na minha nova turma, ia levemente atrasado e a sessão já se iniciara. Entrei, tartamudeando uma desculpa ao professor, que interrompera o que dizia para me fuzilar com a atitude, e olhei em volta, à procura de um buraco onde me enfiar entre as cerca de quarenta raparigas que, trajando de branco, enchiam o anfiteatro, e receberam com cochichos e risinhos a minha entrada numa turma formada, alfabeticamente e exclusivamente, por Marias, na qual, apesar da atrapalhação, consegui certificar a contida presença da dona dos saudosos hotpants amarelos.


© Fotografias de Pedro Serrano: (1) e (2) Porto, 2009; (3) Praia Areia Branca, 2011.