16 agosto 2011

VENDE-SE PÊRAS

Uma vez apareceu aí uma sexta-feira à noitinha, vi-o chegar da janela do escritório, recebi-o ao portão com um:
“Esta semana você atacou cedo!”
Ficou ofendido, retorquiu:
“Ataquei?! Eu nunca o ia atacar, você tem sido meu amigo e mais vale pedir do que andar a roubar.”
Desculpei-me pela infelicidade do termo, justifiquei:
“Como você costuma aparecer ao Sábado...”
“Esta semana deu-me mais jeito assim, amanhã tenho de ir a Torres levantar metadona para duas semanas...”
Sábado, ao princípio da tarde, é o dia em que aparece com mais regularidade; às vezes vem ao Domingo e, mais raramente, às sextas. Mas qualquer seja o dia dou-lhe sempre uma nota de vinte euros.
Já não recordo bem como tudo isto começou, quero dizer, recordo o começo, mas não o tempo que leva este relacionamento: três, quatro anos? Cinco?
Todos os anos aparecem por aqui, a bater à porta, uns tipos com mau aspecto; pedem ajuda para aquelas associações que recuperam e abrigam toxicodependentes, seropositivos, ou ambos. Aceitam mais ou menos de tudo: dinheiro, roupa, sapatos, móveis que já não queremos. Quando é dinheiro que lhes damos fazem questão em passar recibo, um papelito que preenchem com mãos trémulas, arrancam a um bloco com gestos perros.
“O senhor sabe o seu número de contribuinte de cor? Ou quer que deixe em branco?”
Este era um deles, reconhecia-o dessas angariações. Um tipo baixo, mas entroncado, os músculos salientes enfeitados de tatuagens, uma delas representa o nome dele (Mário) em árabe. Nesses primeiros dias, usava o cabelo, oleoso, encaracolado e comprido, atado em rabo de cavalo. Como na maior parte dos viciados em heroína os dentes são fracos e, quando sorri, brilham-lhe umas tocas escuras no meio dos que ainda lhe sobram. Tem 39 anos e uns olhos intensamente verdes, mas é acidentado e cego do direito, o que lhe dá, em permanência, uma certa fixidez ao olhar. Está à espera de ser chamado pelo hospital Curry Cabral, em Lisboa, para um transplante da córnea, mas ainda não apareceu nenhum morto compatível com o seu lugar na lista de espera.
Uma tarde de Sábado bateu-me à porta, abri, quando vi quem era e lhe pedi para esperar, pois ia buscar a carteira, ele avisou:
“Olhe que eu já não estou na associação, não lhe posso passar recibo...”
“Então...?”, tentei perceber.
Então, andava à rasca, ninguém lhe queria dar emprego por aqui, conhecem-no de outros carnavais: droga, más companhias, desacatos.
Contou-me. Morava com a mãe, duas irmãs, cunhados, sobrinhos, tudo na mesma casa minúscula, todos mais ou menos desocupados – os tempos estavam um sufoco. Às vezes arranjava uma ocupação temporária na construção civil, no Verão havia sempre uns dias na apanha da pera, mas agora, a meio do Inverno...
“E mais vale pedir do que andar a roubar, não acha?”
Achei. Dei-lhe vinte euros, sem recibo. Ficou espantado, quase comovido do olho que lhe restava. Esteve aí um mês sem aparecer, depois voltou, algo embaraçado por ter de voltar, mas as coisas continuavam difíceis, tinha esperança no início das obras de recuperação da escola secundária, tinham-lhe prometido emprego... Voltei a dar vinte euros.
Um mês depois, ou assim, atravessava a vila quando ouvi chamar por mim:
“Sr. Pedro, sr. Pedro...”
Olhei em volta, até que apercebi, agitando um boné de basebol para me captar a atenção, o meu amigo, em cima de um andaime. A promessa de trabalho na escola secundária tinha corrido bem, teve emprego regular enquanto aquilo durou. Durante esse período apareceu uma ou outra vez, não bem pelos vinte euros, mais pelo hábito de passar por aí e para contar como iam as coisas com ele. Mas, de qualquer modo, eu metia-lhe sempre os vinte euros na mão, sempre era mais algum, uma tradição.
“Você nem imagina como este dinheiro me ajudou, algumas vezes era com ele que metia em casa o que a gente comia.”
Com o passar do tempo fui-me habituando ao aspecto dele, comecei a encará-lo com naturalidade, dava por mim até algo surpreendido quando alguma convidada de fim de semana, que lia tranquilamente recostada na varanda da porta de entrada, me aparecia, pálida e apreensiva, a dizer:
“Está ali um tipo com imenso mau aspecto à tua procura, diz que te conhece...”
“Ah!”, tranquilizava-a eu, “deve ser o meu tóxico de estimação...”
No final, quando o viam partir, acenando alegremente já do lado de fora do portão, às vezes perguntavam-me:
“Não achas que ele vai gastar o dinheiro todo em droga?”
Não, não achava, ou antes: previamente a não o achar, não me importava com o destino dos vinte euros. Que tenho a ver com o que ele faz ou não faz com o dinheiro que decidi dar-lhe? Não estou no mundo para o endireitar nem tenho vocação para fiscal de comportamentos desviantes. E, depois, nisto da recuperação da heroína sei, ele próprio me vai contando nas nossas conversas de portão, como o processo funciona. Os centros de atendimento destes casos fornecem doses regulares de metadona (um substituto mais leve e menos pernicioso da heroína que permite que a pessoa, eventualmente, se vá desligando da temível droga), mas, antes de cada entrega, fazem um teste para perceber se o cliente tem ou não restos de heroína a circular no corpo. Se tiver, já não fornecem a metadona, o contrato de ajuda quebra-se e só resta ao cliente andar a gemer e a contorcer-se pelas esquinas com a abstinência.
“Não tens medo que ele um dia, uma vez que entra no teu quintal e vê a tua casa de perto, um dia te assalte, te roube tudo?”
Esta é outra das perguntas clássicas que, visitas ou vizinhas assarapantadas, me dirigem, assustadas com o ar de pirata mau do homem.
Não, não tenho; medo nenhum. Acho, por um lado, que o temporário produto do assalto iria matar a, bem mais interessante, galinha dos ovos de vinte euros e, por outro, desconfio que, com o passar do tempo e a constância e tranquilidade deste apoio, o meu tóxico ganhou apreço por mim; ele próprio agradece com frequência a confiança que tenho nele, o  ajudar sem exigir nada. Uma ou outra ocasião, ao aparecer do fundo da rua, me confessou à chegada:
“Vim de boleia com um gajo que conheço, mas mandei-o estacionar o carro na praia, longe daqui. Não quero que saibam onde você mora, não é gente de confiança...”
Ontem, 15 de Agosto, dia da Assumpção de Maria, feriado, preguiçava, pastoreando a satisfação de estar na cama já depois do meio-dia, quando, pela janela entreaberta, ouvi gritar lá de fora:
“Sr. Pedro, sr. Pedro...”
O chamamento repetiu-se, mas demorei a levantar-me e quando espreitei pela janela do quarto vi uma furgoneta velha a desaparecer no fim da rua. Vesti um roupão, desci as escadas e abri a porta. Aos meus pés, no chão encerado da tijoleira da entrada, sem algum bilhete que o identificasse, estava um enorme caixote vermelho, de plástico entrançado, atulhado de peras até às bordas. Peguei nele, a custo, trouxe-o para dentro.
E, agora, porra, que vou eu, que vivo quase sempre sozinho, fazer a 15 ou 20 kg de pera rocha acabada de colher?! Se houver algum ouvinte interessado, por favor contacte-me para este mesmo endereço, pois terei o maior prazer em dividir consigo o presente do meu ex-toxicodependente de estimação.  



© Fotografias: Pedro Serrano, Agosto 2011.