15 março 2012

FRANGO À PASSARINHO


Hoje, ao cair da tarde, estava eu tranquilamente a responder aos mails encalhados no computador, quando ouvi um restolho seguido de um grito, único e que me pareceu proveniente do aparelho sonoro de uma ave; não um pio, como seria de esperar em condições normais, mas um grito de uma aflição raiando o estertor.
Como sei o que a casa gasta olhei automaticamente para a janela em frente à mesa em que trabalho e onde, por trás de uma vidraça virada a sul, a Mia costuma estirar-se a gozar o calor da tarde e o morno remanescente do poente. O parapeito da janela quedava-se vazio.
Levantei-me de um pulo, abri a porta da rua e, por entre as minhas pernas, correu a Mia com uma pincelada amarela de penugem entre os dentes, na qual consegui reconhecer, de raspão, o nariz breve e ridiculamente aquilino de um periquito.
Como a situação era de aguda urgência, pensei rápido e num comportamento contrário ao que advogam as reportagens sobre o mundo animal do National Geographic Magazine, violando a regra do observador não dever interferir nas vicissitudes da selecção natural e da cadeia alimentar, fui buscar uma vassoura atrás da porta.
Entretanto, a Mia escondera-se debaixo da mesa da sala de jantar, pois a minha agitação deve ter-lhe cheirado mal. De vassoura em riste comecei de a tentar enxotar dali para fora, sendo o meu fito perturbá-la de modo a que abrisse os maxilares e o encalhado periquito pudesse levantar voo ou, pelo menos, se arrastasse para longe dos caninos da gata.
Sob a mesa, numa pose muito profissional, a Mia fazia slalom entre as pernas da mesa e das cadeiras, tentando evitar que o pau da vassoura lhe fosse assestado no lombo, desiderato que só atingi quando ela, disparada como uma seta, deixou o abrigo e fugiu em direcção à porta aberta. Mas, apesar das pauladas que lhe consegui acertar até à liberdade, ela manteve a boca bem cerrada e na qual o periquito se assemelhava cada vez mais a uma ave empalhada!
No quintal, por entre os laivos amortalhados e sanguinolentos do poente, ainda consegui amortizar-lhe uma derradeira batucada no lombo antes que saltasse por sobre o muro para casa da minha vizinha D. Luísa, com grande probabilidade a dona da defunta ave. Vencido, regressei a casa, arrumei a vassoura atrás da porta, pensei em ir tratar do jantar.
Agora é noite escura e a Mia borralha aqui ao lado, enrolada sobre o seu cobertor preferido, na poltrona mais próxima da lareira. Há instantes, inclinei-me sobre ela, cocei-lhe a cabeça. Abriu apenas um olho, ronronou um pouco, fremiu uma orelha e continuou no seu abençoado olvido, alheada de qualquer vestígio de vassoura ou periquito.
Como não come o que esventra e decapita, caçando apenas para me demonstrar que está em forma, suponho que o que resta do periquito deve estar a arrefecer nalgum canto sombrio do jardim, servindo de ceia a qualquer outro subnível da cadeia alimentar. 

© Fotografias de Pedro Serrano, (1) 2010; (2) 2011.