28 maio 2012

MAL ME QUER


Recorrentemente, tal como em outras ocasiões em que se previa um ataque maléfico iminente, iniciámos o acautelar da situação pelo controlo de janelas e portas.
Comecei pelo rés-do-chão e, apesar de ninguém desconhecer o que se ia passar a qualquer momento, era incrível como, praticamente, nada fora feito: por trás de cortinas corridas encontrei estores subidos, venezianas ilusoriamente encostadas, portadas que puxei para mim e tranquei com o alívio dos gestos definitivos. O mesmo desleixo contaminava a porta das traseiras, a quem corri ferrolhos; a de serviço, que ligava a casa à garagem, e a da própria garagem – esta última, uma enorme porta de correr, a meia-haste.
Nos andares de cima, as janelas pareciam ter-se multiplicado, a casa ia-se desdobrando em alas e quase a não reconhecia de tão grande, encontrei até divisões que desconhecia. Mas nada que se comparasse com a surpresa que me aguardava ao subir ao último andar.
Chegara a meio dos degraus, o amplo patamar, soalho de tábuas corridas, estendia-se ao nível dos meus olhos, quando vi surgir das portas em volta um bando de indivíduos esfarrapados, brandindo na minha direcção lanças que se assemelhavam a setas de espingarda de caça-submarina, a haste metalizada, as pontas trifurcadas.
“Ei, que fazem vocês nesta casa? Vocês não moram aqui!”, exclamei, indignado, conseguindo interceptar uma das lanças e passando a usá-la a meu favor, como devolução da intimidação. Depois virei-me para o meu pai, que emergira a meu lado nas escadas, disse:
“Já viu, pai, parece que temos vagabundos a viverem nesta casa... Tem vindo cá cima, sabia disto?”
“Agora isso pouco importa”, respondeu ele, pragmático, “vais ver que até nos vão, por uma questão de sobrevivência, ajudar a defender este andar contra o mal; é menos um flanco com que teremos de nos preocupar”.
“Fechem bem as janelas...”, recomendei ao tipo de tronco nu e cabelo desgrenhado que me pareceu ser o cabecilha dos ocupantes.
De novo cá em baixo, encontrei as salas cheias de gente da nossa, correspondendo a uma concentração equivalente à dos natais ou festas semelhantes, mas nenhuma daquelas almas, apesar de não ignorar o ataque que se esperava, parecia apreensiva ou, estando-o, se mexia para tomar medidas que pudessem amortecer a intrusão.
“Vamos dar uma olhadela lá fora...”, segredei a um dos meus primos, pois queria examinar o aspecto exterior da casa, experimentar o estado geral das janelas.
Cá fora, a noite estava escura e abafada e a lua rolava entre nuvens manchadas por um azul quase negro, tal se tivessem sido atingidas por tinta de polvo. Encontrámos duas janelas de portadas abertas ao nível do rés-do-chão, enrolei um pedaço de arame em torno do fecho partido de uma delas. Depois apercebi-me que, por cima das nossas cabeças, havia uma tabuleta pendurada, como se fosse o anúncio de uma estalagem, mas sem letras ou outros enfeites.  
“Sabes para que serve isto?”, perguntei. Ele encolheu os ombros. Mal acabara de fazer a pergunta quando, do corpo da tabuleta, se desprendeu um fio até ao chão, uma espécie de cabo eléctrico, revestido por plástico branco. Uma vez em contacto com o solo, o fio começou bruscamente a ser esticado, como se passasse a estar incrustado no asfalto, para logo daí ser arrancado, a parte solta chicoteando o ar, enrolando-se, mais e mais metros continuando a ser arrancados com violência, fazendo rodopiar a tabuleta, esventrando o asfalto do chão. Era o mal que chegava, mas não havia presença visível, quer dizer: não se viam os seres que lhe estavam na origem, ou os executores.
“Chegou, e nós cá fora, de porta aberta...”, ouvi-me dizer.
Agora que estávamos outra vez dentro de casa dei-me conta do modo devastador como o fenómeno se materializara: eu, eu próprio, o meu primo, éramos esse mal encorpado – a minha percepção da casa e dos seus incautos habitantes, volvera-se a de um predador. Uma rapariguinha da família, criança tímida e calada, aproximou-se pelo corredor e vi, no seu olhar intenso, que também ela fora possuída, procurava a proximidade da alcateia. Mas os portadores do mal não se resumiam a alguns de nós, habitantes da casa, aos que já lá estavam antes da tabuleta começar a girar nos gonzos; havia mais dois ou três seres que comandavam, perante os quais sentia que teria de prestar contas caso o meu comportamento não fosse o esperado. Eram seres soturnos, de contorno humano, mas dotados de fendas, mais do que olhos ou bocas, expressando-se mais pelo silêncio e pela aura de ameaça do que por fala ou olhares.
“Não os olhes directamente”, aconselhei-me, dividido entre o facto de agora pertencer ao mal e a hesitação em o infligir (como estava programado) aos habitantes da casa.
“Será que se dão conta dessa dualidade?”, perguntava-me, tentando esborratar o pensamento ao ponto de não ser o suficiente nítido para poder ser detectado pelos espectros que me rondavam.
Como se deslizasse sobre rodas, ou se movesse sem ter de usar passos, a rapariguita apareceu, os olhos, como carvões acesos, brilhando de iniciativa a dois palmos dos meus. Não falou, olhou-me como se aguardasse instruções de por onde esbanjar as novas capacidades.
“Tem calma”, respondi com o silêncio, “deixa que sejam eles a começar...”
Acordei, com o coração a bater rápido. Aguentei-me, de olhos abertos no escuro, uns minutos, a forçar a passagem do tempo e a tentar garantir que quando voltasse ao sono não correria o risco de ir parar ao mesmo horror de onde tinha emergido.    
© Fotografias de Pedro Serrano, de cima para baixo: (1), (3) e (4), Índia, 2012; (2) Oliveira do Bairro, 2012.