15 setembro 2012

O PÁSSARO MARAVILHOSO


Esta noite acordei e não voltei a adormecer. E naqueles instantes em que o pensamento lógico ainda não se organizou num fluxo e nos quedamos alheios ao raciocínio, que parece embotado pelo sono, veio-me à tona da consciência o fragmento isolado de uma parede que vi na parte antiga de Barcelona há uns meses atrás, uma superfície de materiais justapostos, aspecto  macio e cores serenas, parede que até fotografei. Qual o motivo, no meio da noite, pelo qual emergiu essa imagem e não outra qualquer? Não faço ideia, não tenho sequer andado a pensar em muros ou na Catalunha nos últimos dias.
Organizadas ou não, gosto de pedras, sempre gostei (veja, sobre o assunto, o texto And it stoned me) e acho que cada vez as aprecio mais à medida que dou conta da sua presença nos meus caminhos. As pedras, para além da beleza individual que lhes pode advir do formato ou da textura são uma testemunha do tempo, parecem transportar no seu silêncio a sabedoria muda de quem assistiu à génese do mundo, de quem assistiu, impávido, às tropelias e correria insensata da humanidade, agora para as Cruzadas, depois para os centros comerciais. Estão ali, todas dizem, indiferentes ao resultado: “se quiseres aprende comigo.”
Um dia, descobri, aliviado, que havia um povo que pratica o culto da reverência por pedras e senti-me menos passível de vir a ser catalogado como excêntrico ou inimputável. É no Japão e quem andou por lá reparará com facilidade como eles as colocam em evidência em variados pontos da sua geografia e existência. Lembro-me de, nos jardins onde fica o Pavilhão Dourado, em Quioto, me quedar, pasmado, a observar como várias pessoas, incluindo famílias inteiras, se detinham a examinar com detalhe e trocando comentários profusos um arranjo de pedras no chão, um pedaço de muro ou até mesmo uma pedra isolada, perdida num tufo de ervas vulgares ou acamada num ninho de caruma, como se dali pudesse, de repente, eclodir um pássaro maravilhoso.

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Barcelona, 2012; (2) Quioto (Japão), 2005.